História da África

Os tesouros de Magdala, saqueados da Etiópia por tropas britânicas em 1868, continuam em museus de Londres

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026

Em abril de 1868, um exército britânico e indiano tomou Magdala, a fortaleza do imperador etíope Tewodros II, que se matou para não ser capturado. A fortaleza e a igreja foram saqueadas, e o butim foi leiloado ali perto para pagar prêmio às tropas. Hoje o Museu Britânico guarda mais de 90 objetos de Magdala, entre eles 11 tabots sagrados; o Victoria and Albert Museum, uma coroa e um cálice de ouro; a British Library, mais de 300 manuscritos. A Etiópia pede a devolução.

Tewodros II, imperador de 1855 a 1868, queria unificar e modernizar a Etiópia. Em Magdala, fortaleza no alto de uma montanha no norte do país, montou uma biblioteca e um tesouro com livros, relíquias e manuscritos que ele próprio havia tomado de igrejas, sobretudo de Gondar. Em 1862 escreveu à rainha Vitória pedindo ajuda militar; o Foreign Office não entregou a carta. Ofendido, prendeu o cônsul britânico e outros europeus. Londres respondeu com cerca de 13 mil soldados britânicos e indianos e 26 mil acompanhantes, sob o comando de Robert Napier. Depois das batalhas de Aroge, em 10 de abril, e de Magdala, em 13 de abril de 1868, com centenas de etíopes mortos, a fortaleza foi saqueada e destruída. O Museu Britânico tinha mandado junto um funcionário para trazer manuscritos.

O príncipe que ficou em Windsor

Alemayehu, filho de Tewodros, perdeu o pai e a mãe em 1868 e foi levado para a Grã-Bretanha sob a tutela do capitão Tristram Speedy, que lutara contra Tewodros. Morreu de pleurisia em 1879, aos 18 anos, e foi enterrado no Castelo de Windsor. Em 2023, a monarquia britânica recusou devolver seus restos mortais à Etiópia.

Um museu na expedição

O Museu Britânico mandou com o exército Richard Rivington Holmes, assistente do Departamento de Manuscritos, como 'arqueólogo', com 1.000 libras do Tesouro. Foi o único caso de funcionário do museu enviado numa campanha militar na África. Holmes comprou 13 objetos no leilão, tomou outros no saque, como um colar atribuído à imperatriz Tiruwork Wube, e comprou de um soldado a coroa e o cálice de ouro que hoje estão no V&A.

Onde está cada coisa

O Museu Britânico guarda mais de 90 objetos de Magdala: cruzes processionais, cálices, armas, sedas, joias e 11 tabots. Mais de 300 manuscritos foram para a British Library. O V&A tem cerca de 90 objetos etíopes, a maioria ligada à expedição, entre eles a coroa e o cálice feitos em Gondar por volta de 1735–1740 para a igreja de Qwesqwam. Há ainda manuscritos de Magdala em bibliotecas de Manchester, Oxford e Cambridge e na Biblioteca Real.

Os tabots

Para a Igreja Ortodoxa Etíope, o tabot é uma tábua de altar consagrada que representa a Arca da Aliança e só pode ser visto por sacerdotes. Os 11 tabots do Museu Britânico estão guardados num local reservado, fora da vista do público. A Etiópia pediu a devolução em 2019. A meta declarada do museu é emprestá-los a uma igreja etíope na Grã-Bretanha; em 2022, na Câmara dos Lordes, o governo disse que o museu segue conversando com a Igreja.

O que já voltou

Já em 1868 o primeiro-ministro William Gladstone criticou o saque, sobretudo dos bens da Igreja, e disse que os objetos deviam ser guardados só até poderem ser devolvidos. As devoluções vieram de fora dos grandes museus: o cabelo de Tewodros, pelo National Army Museum, em 2019; um tabot comprado na internet e um lote com cabelo do príncipe Alemayehu, em 2023. A coroa, o cálice e os tabots continuam em Londres.

Como sabemos

A história do saque, do leilão e do destino dos objetos está nas páginas do próprio Museu Britânico e do V&A; as devoluções recentes vêm do governo etíope e da imprensa especializada.

Em debate: Contagem dos objetos: o Museu Britânico fala hoje em mais de 90 objetos de Magdala; reportagens anteriores (The Art Newspaper, 2005) falavam em cerca de 150 e em cerca de 350 manuscritos na British Library. A diferença depende do que se conta como vindo de Magdala, já que parte da documentação de 1868 não registra a procedência exata.

Em debate: Enquadramento: no debate de 2022 na Câmara dos Lordes, o governo britânico lembrou que a expedição foi para libertar reféns, entre eles um missionário anglicano cujos criados foram mortos a mando de Tewodros; o Museu Britânico, por sua vez, reconhece que os objetos vieram de saque e de leilão de butim. Parte do que Tewodros guardava em Magdala tinha sido tomada por ele de igrejas etíopes, o que sustenta o pedido da Igreja Ortodoxa Etíope.

Fontes

  1. British Museum — Maqdala collection (Contested objects from the collection)
    consultada em 05/10/2026
  2. Victoria and Albert Museum — Ethiopian collections at the V&A
    consultada em 05/10/2026
  3. Victoria and Albert Museum (blog do museu) — Maqdala 1868
    consultada em 05/10/2026
  4. Embaixada da Etiópia em Londres — UK Returns Locks of Hair Belonging To Emperor Tewodros II (March 21, 2019)
    consultada em 05/10/2026
  5. Hansard, Câmara dos Lordes do Reino Unido — British Museum: Ethiopian Sacred Altar Tablets, debate de 30 de março de 2022
    consultada em 05/10/2026
  6. The Art Newspaper — Sacred Ethiopian tablet looted by the British at the battle of Maqdala 155 years ago is returned in London church service
    consultada em 05/10/2026
  7. Al Jazeera — Ethiopian prince's hair, artefacts returned 155 years after British plunder
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

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