Zoologia

Como se rastreia o maçarico-de-papo-vermelho do Ártico à Terra do Fogo, e o papel da Lagoa do Peixe (RS)

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

A subespécie rufa do maçarico-de-papo-vermelho cria no Ártico canadense e inverna em quatro áreas, até o sul da América do Sul. Anilhas com bandeira, radiotransmissores e rastreadores por satélite mostram rotas e escalas. No Brasil, o Parque Nacional da Lagoa do Peixe (RS) é reconhecido como o mais importante local de parada de aves norte-americanas; uma ave seguida por satélite voou dali direto à Baía de Delaware (EUA), 8.300 km.

Calidris canutus rufa é a subespécie de maçarico-de-papo-vermelho que faz a rota do Atlântico Ocidental, do Ártico canadense à Terra do Fogo. Aves limícolas do Ártico voam distâncias enormes com poucas paradas previsíveis, onde se concentram para reabastecer. Por isso, saber onde e quando cada ave pára importa para protegê-la. Os métodos se complementam: a marcação com anilha e bandeira de código depende de alguém reencontrar a ave; os transmissores registram a posição sem depender disso, mas só cobrem as aves marcadas. Nenhum deles mostra a população inteira: para tamanho e tendência recorre-se a contagens nas áreas de concentração.

Do passeio de 53 km por dia ao voo de 1.230 km por dia

Das cinco aves seguidas a partir da Lagoa do Peixe, a velocidade de migração variou de 53 a 1.230 km por dia. As aves em melhor condição corporal cobriram mais distância em menos tempo, acima de 900 km por dia. A estratégia varia dentro de uma mesma população.

Como sabemos: cada método responde uma parte

A anilha com bandeira dá o encontro entre dois pontos, mas depende de observadores: no sudeste dos EUA, a preferência aparente pela Baía de Delaware pode refletir só onde se procura mais. A telemetria automatizada, com transmissores de cerca de 1 g, mostrou que 73% das aves que partiam dali pularam a baía. Geolocalizadores, por sua vez, indicam que a rota de uma mesma ave pode mudar de um ano para o outro. Cada método cobre só as aves marcadas.

Por que a Lagoa do Peixe é um ponto de parada

O parque reúne lagoas costeiras, áreas alagadas, dunas, canais e praias largas, ambiente descrito como ideal para aves limícolas. Um artigo de 2018 o descreve como o mais importante local de invernada e parada no Brasil para aves das rotas norte-americanas, que costumam ficar de setembro a maio. Na dissertação da UNISINOS, uma das cinco aves seguidas por satélite que saíram dali fez o trecho direto de 8.300 km até a Baía de Delaware. Quais presas a ave come no parque não foi verificado neste texto.

O declínio e o que se sabe sobre as causas

A estimativa mais recente do serviço de vida selvagem dos EUA é de 63.600 aves, mas é uma estimativa, e o total depende do método. As séries de contagem mostram a queda com mais clareza: 75% na invernada do extremo sul e declínio significativo em Delaware desde 1986. Em Delaware, as aves se concentram nos ovos de caranguejo-ferradura, mas a queda desses ovos veio depois de as populações começarem a cair: a causa do declínio não se resume a eles. A espécie está listada como ameaçada nos EUA (2014) e em perigo no Canadá (2020).

Limites do que sabemos

Cinco aves seguidas por satélite formam uma amostra muito pequena: mostram que as estratégias variam, não qual é a mais comum. Anilha, telemetria e geolocalizador cobrem só as aves marcadas e, no caso das anilhas, só onde há observador. A contagem de pico em Delaware mede as aves na baía naquele momento, não a população total, e as estimativas globais mudam conforme método e data.

Como sabemos

Métodos e rota estão apoiados em fontes abertas lidas e conferidas; dieta na Lagoa do Peixe e dados brasileiros do ICMBio ficaram de fora por falta de fonte acessível.

Fontes

  1. Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), dissertação de mestrado — Uso de habitat e migração norte do Calidris canutus rufa (maçarico-de-papo-vermelho) do extremo sul do Brasil ao Canadá
    Brum, A. C. · 2021 · Documento institucional · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026
  2. Scientific Reports — Spring migration patterns of red knots in the Southeast United States disentangled using automated telemetry
    Smith, A. D.; Sanders, F. J.; Lefevre, K. L. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-37517-y
  3. Influenza and Other Respiratory Viruses — Migratory birds in southern Brazil are a source of multiple avian influenza virus subtypes
    Araujo, J. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/irv.12519
  4. Ecology and Evolution — Long-Term Population Trends and Spatial Redistribution of Shorebirds at a Critical Migratory Stopover
    Feigin, S.; Diehl, T.; Niles, L.; Dey, A.; Burger, J. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/ece3.74183
  5. PLOS ONE — Factors that affect migratory Western Atlantic red knots (Calidris canutus rufa) and their prey during spring staging on Virginia's barrier islands
    Heller, E. L.; Karpanty, S. M.; Cohen, J. B.; Catlin, D. H.; Ritter, S. J.; Truitt, B. R.; Fraser, J. D. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0270224
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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