Zoologia
Macacos-prego recusam pagamento desigual? O que se mediu em 2003 e como a leitura foi contestada
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Inteligência animal
Em 2003, Brosnan e de Waal relataram que macacos-prego deixavam de participar de trocas por comida quando viam um colega receber uma recompensa melhor pelo mesmo esforço, e ainda mais quando o colega a recebia sem esforço. Os autores leram isso como aversão à desigualdade. Outros laboratórios apontaram frustração ou expectativa de comida melhor, e uma metanálise de 2024 não achou efeito da desigualdade além dessa decepção.
Em 2003, Sarah Brosnan e Frans de Waal pediram a macacos-prego-marrons, descritos como Cebus apella, que devolvessem uma ficha a um experimentador em troca de comida. O macaco recebia pepino (alimento menos preferido); o parceiro, na condição crítica, recebia uva pela mesma troca. Se o macaco passava a recusar a troca ou o pepino, os autores viam um sinal de aversão à desigualdade desvantajosa: uma reação negativa a receber menos que o outro. As críticas propõem leituras mais simples, que dispensam a comparação com o parceiro: o macaco poderia estar frustrado por não receber a uva à vista, ou esperando comida melhor. O que está em disputa é a interpretação, não o comportamento observado.
Uva contra pepino
No estudo de 2007, todos os 13 macacos preferiam a uva ao pepino em pelo menos 90% das escolhas; cada sessão tinha 25 tentativas, com o parceiro atendido primeiro e o sujeito depois.
O que o teste de 2003 mediu
Os macacos trocavam uma ficha por comida com um experimentador humano. A medida era se continuavam a participar quando o parceiro recebia algo melhor. Segundo o resumo, recusavam-se a participar quando viam o colega obter uma recompensa mais atraente por esforço igual, e mais ainda quando o colega a recebia sem esforço. É um relato de comportamento: a leitura como aversão à desigualdade é interpretação dos autores.
Como sabemos: os controles de 2007
O grupo repetiu o teste com 13 macacos e acrescentou controles: uva à vista, para testar a mera visibilidade do alimento melhor, e condições sorteadas, para testar se uvas recebidas antes explicavam a queda. A troca típica caiu na condição de desigualdade, mas não com a uva só visível, e não variou conforme a sessão anterior. Limites: animais cativos, sessões de 25 tentativas, e o mesmo grupo do estudo original.
As críticas: expectativa e frustração
Segundo Dubreuil et al., citando Wynne, o artigo de 2003 não mostrava diferença entre a desigualdade e o controle com a uva à vista. No experimento deles, com seis macacos, as recusas subiram sem parceiro. Roma et al. e Silberberg et al. também não acharam o efeito e apontaram frustração. O grupo original respondeu que o estudo de Roma não exigia tarefa. É o tipo de disputa descrito no post sobre o cânone de Morgan: a explicação mais simples precisa ser descartada.
Replicações e o que continua aberto
A metanálise de 2024 reuniu dados de 23 estudos e 18 espécies em testes de aceitar/recusar e não achou aversão à desigualdade, nem nos macacos-prego; achou efeito de decepção com a recompensa melhor. Ela só cobre esse tipo de teste, e a ausência de efeito significativo não prova que ele não exista. Os próprios autores de 2007 notam que os macacos reagem a receber menos, não a receber mais. O que sentem, e se há algo como moralidade, os dados não decidem.
Como sabemos
Experimentos e críticas estão documentados em fontes abertas, mas o artigo de 2003 e dois dos críticos só foram lidos pelo resumo.
Em debate:
- Fato estabelecido: No estudo de Brosnan e de Waal (2003), macacos-prego (Cebus apella) trocavam com um experimentador humano e reagiam de forma negativa à distribuição desigual: recusavam-se a participar quando viam um colega obter uma recompensa mais atraente por esforço igual, e o efeito era maior quando o colega recebia a recompensa sem esforço nenhum. [1] Resumo
Contexto: Macacos-prego-marrons de laboratório, em trocas com um experimentador humano; relato do resumo do artigo. · Limitações: Só o resumo do artigo foi lido (o texto integral está na Nature, que bloqueia leitura automática); detalhes do desenho vêm de descrições feitas por outros autores (a2). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: O teste consistia em trocar uma ficha por comida: o macaco devolvia ao experimentador uma ficha e recebia um pedaço de pepino (alimento menos preferido), enquanto o parceiro, na condição de desigualdade, recebia uma uva (alimento mais preferido) pela mesma troca. [3] Introduction, §3 [6] Introduction, (a)
Contexto: Descrição do desenho original feita por Dubreuil et al. (2006) e por Ritov et al. (2024), não pelo artigo de 2003. · Limitações: Segunda mão: o artigo de 2003 não foi lido na íntegra. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2007, o grupo de Brosnan e de Waal repetiu o teste com 13 macacos-prego do Yerkes National Primate Research Center, em sessões de 25 tentativas: a troca típica caiu de forma significativa quando o parceiro recebia uva, e a uva só visível, sem parceiro recebendo, não produziu a queda. [2] Results and Discussion
Contexto: Animais cativos, sujeito e parceiro alternados entre sessões; medida principal: troca 'típica' (em até 5 s e com a recompensa comida). · Limitações: Resultado do mesmo grupo que publicou o estudo original; sem replicação independente neste artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Para checar a frustração, os autores sortearam as condições e compararam o desempenho após sessões em que o macaco recebera uva com o desempenho após sessões em que recebera só pepino; não detectaram diferença e concluíram que a frustração por uvas recebidas antes não explicava a queda. [2] Results and Discussion, Frustration Effect
Contexto: 13 macacos-prego; análise por Wilcoxon, sem diferença significativa na comparação global. · Limitações: É a conclusão dos autores do estudo original; as críticas a seguir questionam o desenho. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Segundo Dubreuil e colegas (2006), citando Wynne (2004), no próprio artigo de 2003 não havia diferença estatística entre a condição de desigualdade e a condição de controle em que a uva ficava à vista sem parceiro; por isso propuseram que os macacos esperavam a comida melhor, sempre à vista. [3] Introduction, §6
Contexto: Crítica à interpretação de 2003; a leitura do artigo de Wynne (2004) é de segunda mão, via Dubreuil et al. · Limitações: Os autores de 2003 e de 2007 rejeitam a leitura de expectativa ou ganância (a3 e a4). · Debate publicado entre os autores originais e os críticos; o artigo de 2003 não foi lido na íntegra para conferir a comparação estatística. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No experimento de Dubreuil e colegas, seis macacos-prego podiam pegar só o alimento menos preferido; as recusas foram maiores quando o alimento melhor estava escondido do que no controle, e o comportamento voltou ao do controle quando o parceiro comia o alimento melhor. [3] Abstract
Contexto: Tarefa sem troca de fichas: o macaco só podia pegar a comida menos preferida da bandeja; três pares de parentes (mães e filhas, irmãos). · Limitações: Amostra de seis animais; a tarefa não é a mesma do estudo de 2003. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Dubreuil e colegas atribuíram as recusas à frustração de ver e não obter o alimento melhor, e não à comparação com o parceiro. [3] Abstract
Contexto: Interpretação dos autores do estudo de 2006. · Limitações: Contestada pelo grupo de Brosnan e de Waal, que aponta que o desenho não exigia troca de fichas (a9 trata de outro estudo crítico). · Interpretação em disputa entre grupos de pesquisa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Roma e colegas (2006) não reproduziram o resultado de 2003: com quatro fêmeas, as rejeições do pepino pelas testemunhas foram raras e não dependeram de o modelo ter recebido uva ou pepino; os autores propuseram o efeito de frustração como explicação. [4] Resumo
Contexto: Quatro fêmeas como 'modelo' e outras como 'testemunha', em gaiolas vizinhas. · Limitações: Segundo van Wolkenten et al. (2007), esse estudo não replicou a metodologia original, pois os macacos não faziam uma tarefa (a9). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: O grupo do estudo original respondeu que a tarefa era parte essencial do desenho: em 2007 afirmou que o estudo de Roma e colegas não replicou a metodologia original, porque os macacos não precisavam realizar uma tarefa. [2] Results and Discussion, Introduction
Contexto: Posição do grupo de Brosnan e de Waal na introdução do artigo de 2007, sobre o estudo de Roma et al. (2006). · Limitações: Argumento de uma das partes do debate; o texto atribui o estudo criticado por uma referência numérica, e a identificação com Roma et al. se apoia na lista de referências do artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Silberberg e colegas (2009) testaram pares de fêmeas sem trocar os papéis de modelo e testemunha; as testemunhas não foram afetadas pelo tipo de alimento do modelo, o que os autores leram como ausência de aversão à desigualdade. [5] Resumo
Contexto: Pares de fêmeas trocando ficha por alimento. · Limitações: O resumo é a única parte lida; o artigo tem uma errata de 2022 que não foi aberta. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Segundo Silberberg e colegas, o efeito de 2003 poderia depender de frustração induzida pela troca do papel de modelo (que recebe alimento melhor) para o de testemunha (que recebe alimento pior). [5] Resumo
Contexto: Hipótese citada no resumo de Silberberg et al. (2009), atribuída a trabalhos anteriores. · Limitações: O estudo de 2007 (a4) não encontrou efeito de frustração. · Hipótese em disputa: os dois grupos têm resultados opostos. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em uma metanálise de 2024 com dados de 23 estudos de aceitar/recusar (60.430 observações, 18 espécies), os autores não encontraram evidência de aversão à desigualdade em animais não humanos, inclusive nos subconjuntos de chimpanzés e macacos-prego. [6] Methods, (c)
Contexto: Só experimentos de aceitar/recusar com tarefa; outros paradigmas ficaram de fora. · Limitações: Metanálise de dados individuais; recebeu dados de 23 dos 30 estudos elegíveis. O p do modelo com todas as espécies foi 0,09, e a ausência de efeito significativo não prova que o efeito seja zero. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Na mesma metanálise, a apresentação de uma recompensa melhor aumentou significativamente as recusas de uma recompensa pior, e não houve efeito da desigualdade além desse efeito de decepção. [6] Results, Model 3
Contexto: Todas as espécies do conjunto de dados; nos subconjuntos de chimpanzés e de macacos-prego o efeito da decepção foi positivo, mas não significativo. · Limitações: Análise exploratória (modelos 2 e 3); os dados originais não são públicos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os próprios autores de 2007 observam que os macacos reagem a receber menos, mas não parecem reagir a receber mais que o parceiro, o que os distingue de uma noção humana completa de justiça. [2] Results and Discussion, última seção
Contexto: A reação à desvantagem foi testada; a vantagem não entrou no desenho. · Limitações: O estudo só mediu a desigualdade desvantajosa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Nature — Monkeys reject unequal pay
Brosnan, S. F.; de Waal, F. B. M. · 2003 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature01963 - Proceedings of the National Academy of Sciences — Inequity responses of monkeys modified by effort
van Wolkenten, M.; Brosnan, S. F.; de Waal, F. B. M. · 2007 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0707182104 - Proceedings of the Royal Society B — Are capuchin monkeys (Cebus apella) inequity averse?
Dubreuil, D.; Gentile, M. S.; Visalberghi, E. · 2006 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2005.3433 - Journal of Comparative Psychology — Capuchin monkeys, inequity aversion, and the frustration effect
Roma, P. G.; Silberberg, A.; Ruggiero, A. M.; Suomi, S. J. · 2006 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1037/0735-7036.120.1.67 - Animal Cognition — Does inequity aversion depend on a frustration effect? A test with capuchin monkeys (Cebus apella)
Silberberg, A.; Crescimbene, L.; Addessi, E.; Anderson, J. R.; Visalberghi, E. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s10071-009-0211-6 - Proceedings of the Royal Society B — No evidence for inequity aversion in non-human animals: a meta-analysis of accept/reject paradigms
Ritov, O.; Völter, C. J.; Raihani, N. J.; Engelmann, J. M. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2024.1452
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- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)