Zoologia

No Piauí, macacos-prego usam pedras como ferramenta há pelo menos 3 mil anos

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Escavações no Parque Nacional Serra da Capivara (PI) acharam pedras usadas por macacos-prego selvagens (Sapajus libidinosus) para bater e abrir alimentos duros. As mais antigas têm entre 2.400 e 3.000 anos, datadas por radiocarbono de carvão associado. É o registro arqueológico mais antigo de uso de ferramentas de pedra por primatas não humanos fora da África, e mostra que o uso das pedras mudou ao longo do tempo.

Arqueologia costuma ser coisa de gente, mas os métodos servem para qualquer animal que deixe objetos para trás. Em 2016, uma equipe liderada por Michael Haslam, da Universidade de Oxford, escavou pedras sob cajueiros na Serra da Capivara e mostrou que macacos-prego já quebravam castanhas ali havia 600 a 700 anos, antes da chegada dos europeus. Em 2019, Tiago Falótico (USP), Tomos Proffitt (UCL) e colegas voltaram ao sítio, escavaram mais fundo e recuperaram 122 artefatos de pedra em quatro camadas de sedimento. Pelo tamanho, pelo formato e pelas marcas de impacto, as pedras mudaram ao longo de cerca de 3 mil anos. Era a primeira vez que se documentava mudança de longo prazo no uso de ferramentas fora da linhagem humana.

Macacos conservadores

Os autores do estudo de 2016 notaram que as ferramentas quase não mudaram ao longo de séculos: quartzito liso como martelo, arenito plano como bigorna. Eles interpretaram isso como um comportamento conservador, diferente de humanos que viviam na mesma região.

Como reconhecer uma ferramenta de macaco

Pedras naturais estão por toda parte, então os pesquisadores procuram sinais de uso: tamanho e formato adequados, marcas de impacto e, em 2016, resíduos de castanha de caju confirmados por espectrometria de massa. Num sítio onde os macacos ainda hoje quebram castanhas, dá para comparar as peças antigas com as atuais.

Como se data uma pedra

A pedra em si não tem data. Os pesquisadores datam por radiocarbono pequenos pedaços de carvão encontrados junto das pedras, em cada camada de sedimento. Por isso a idade vale para o contexto em que as ferramentas ficaram enterradas, e é assim que se chega a 600 a 700 anos em 2016 e a 2.400 a 3.000 anos em 2019.

O que mudou ao longo do tempo

As peças das camadas mais antigas e das mais recentes diferem em tamanho e em marcas de dano, o que indica mudança no uso: alimentos mais moles em um período, castanhas duras em outro, e ferramentas ajustadas às castanhas de caju hoje. A causa não está resolvida; os autores consideram mudanças na vegetação ou preferências de grupos diferentes.

Por que isso importa

Até 2016, o único registro arqueológico de ferramentas de animais não humanos vinha de chimpanzés na África. A Serra da Capivara mostrou que a ideia vale também para o Novo Mundo e que é possível seguir a história de uma tradição animal, algo antes reservado à linhagem humana.

Como sabemos

Dois estudos de revistas científicas de ponta, descritos por fontes independentes de divulgação; só os detalhes das fases de mudança variam entre as fontes e ficaram genéricos.

Fontes

  1. Science News — Capuchin monkeys' stone-tool use has evolved over 3,000 years
    consultada em 06/10/2026
  2. Universidade de Glasgow, SUERC — First example of long-term tool-use variation outside of the human lineage
    consultada em 06/10/2026
  3. Sci.News (sobre Haslam et al., Current Biology, 2016) — Brazilian Capuchins Have Used Stone Tools for at least 600 Years
    consultada em 06/10/2026
  4. Universidade de Glasgow (repositório) — Three thousand years of wild capuchin stone tool use (Falótico et al., Nature Ecology & Evolution 3, 2019)
    consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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