Zoologia

Como se testou em campo que macacos-prego escolhem a pedra para quebrar nozes: Visalberghi et al. (2009)

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Inteligência animal

Em 2009, Visalberghi e colegas ofereceram a macacos-prego selvagens pedras que diferiam em friabilidade e peso, sempre com só uma capaz de quebrar a noz. Escolher a pedra funcional era obrigatório para o sucesso. Quase todos os 8 animais a escolheram, carregaram e usaram mais do que o acaso, desde as primeiras tentativas. O experimento mede a escolha da pedra, não a intenção do animal.

Macacos-prego-barbados (Sapajus libidinosus) quebram nozes de palmeira com pedras sobre bigornas de rocha. Observar os sítios mostrava pedras duras e pesadas, mas isso é evidência indireta: o animal pode ter usado o que havia à mão. Em Fazenda Boa Vista, no Piauí, as pedras funcionais são duras e pesam mais de 0,3 kg, e pedras assim são raras. Para saber se os animais selecionam, Visalberghi e colegas montaram um experimento em campo: colocaram pedras diferentes à disposição, de modo que só uma quebrava a noz, e registraram qual os macacos escolhiam e levavam. O post sobre os macacos-prego do Piauí trata da arqueologia dessa tradição; este trata do desenho do teste.

Pedras de 1 kg para um animal pequeno

Nas observações de Fazenda Boa Vista, a pedra mediana para nozes de palmeira pesa 1 kg nas fêmeas adultas e 1,1 kg nos machos, equivalente a 48% e 31% da massa corporal, segundo a revisão de 2015.

Por que a observação dos sítios não bastava

Em Fazenda Boa Vista, os macacos usam pedra já presente na bigorna em 97% dos episódios, segundo a revisão de 2015, e pedras duras e pesadas são raras no local. Isso sugere seleção, mas pedras iguais às usadas podem ser as únicas disponíveis. O resumo de 2009 diz que a evidência indireta não prova a seleção: só oferecer opções controladas separa preferência de falta de alternativa.

Como sabemos: o desenho do teste

Segundo a revisão de 2015, cada macaco (N = 8) foi testado em cinco condições de 10 tentativas. A pedra funcional era a única capaz de quebrar a noz, e não havia outra na área. Nas condições 1 e 2 as pedras naturais diferiam em friabilidade e em tamanho e massa; nas 3 a 5, pedras artificiais controlavam tamanho e massa. Quase todos os animais escolheram a funcional acima do acaso, desde as primeiras tentativas.

Peso ou aparência: o controle do tamanho

O risco do desenho é o macaco escolher a pedra maior porque parece pesada. A revisão relata que a pedra de massa adequada foi escolhida mesmo quando seu volume era menor que o da pedra leve. Quando o peso não aparecia na vista, os animais levantavam ou batiam nas pedras. Os trabalhos descrevem o comportamento; o que o animal percebe ao bater não foi medido.

O que o resultado não decide

Os autores falam em escolha intencional e planejamento; o experimento mostra seleção guiada pelo peso, não a intenção (veja o cânone de Morgan). Depois, em Serra da Capivara, com castanhas de caju, os macacos usaram pedras mais leves para as secas, mais duras, do que para as frescas, contra a previsão dos autores. E, entre três populações, o peso das pedras não acompanhou a dureza do alimento. A regra 'noz mais dura, pedra mais pesada' não é universal.

Como sabemos

O desenho e os resultados vêm de uma revisão de 2015 e do resumo de 2009; o artigo original e seus valores estatísticos não foram lidos.

Fontes

  1. Current Biology; resumo no PubMed (NCBI/NLM) — Selection of effective stone tools by wild bearded capuchin monkeys
    Visalberghi, E.; Addessi, E.; Truppa, V.; Spagnoletti, N.; Ottoni, E.; Izar, P.; Fragaszy, D. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2008.11.064
  2. Philosophical Transactions of the Royal Society B (PMC) — Percussive tool use by Taï Western chimpanzees and Fazenda Boa Vista bearded capuchin monkeys: a comparison
    Visalberghi, E.; Sirianni, G.; Fragaszy, D.; Boesch, C. · 2015 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Scientific Reports (PMC) — Wild capuchin monkeys adjust stone tools according to changing nut properties
    Luncz, L. V.; Falótico, T.; Pascual-Garrido, A.; Corat, C.; Mosley, H.; Haslam, M. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. Scientific Reports (PMC) — Stone tools differences across three capuchin monkey populations: food's physical properties, ecology, and culture
    Falótico, T.; Valença, T.; et al. · 2022 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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