Zoologia

Os macacos de Koshima e a batata lavada: o que o registro de Kawai mostra e o que a lenda acrescentou

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Inteligência animal

Em 1953, na ilhota japonesa de Koshima, a macaca jovem Imo foi vista lavando uma batata-doce, e o hábito se espalhou pelo grupo ao longo de anos, não de uma vez: pelos dados de Kawai (1965), 17 de 30 macacos não infantes lavavam em março de 1958 e 36 de 49 em 1962. O “centésimo macaco”, que faria o hábito saltar de repente para outras ilhas, não aparece nesses registros.

O macaco-japonês (Macaca fuscata) vive em grupos que pesquisadores da Universidade de Kyoto acompanham em Koshima desde o fim dos anos 1940. A partir de 1952 eles passaram a espalhar batata-doce e trigo na praia (provisionamento) para observar os animais de perto. Cada macaco era identificado, com data de nascimento e parentesco, e por isso foi possível anotar quando cada um adotou um hábito novo. Kawai (1965) descreveu o caso e o chamou de “pré-cultura”: um comportamento aprendido com os outros e transmitido dentro do grupo, antes de se falar em cultura no sentido humano. Este artigo separa o que esse registro documenta do que foi acrescentado depois.

Nunca houve cem macacos

Segundo a leitura do artigo de Kawai por Amundson, o grupo tinha 20 macacos em 1952 e 59 em 1962. Numericamente, nunca existiu um centésimo macaco em Koshima.

Como sabemos: um grupo inteiro conhecido pelo nome

O valor do registro de Kawai (1965) é que os macacos de Koshima eram identificados, com datas de nascimento e parentesco. A data em que cada um adotou a lavagem pôde ser anotada, e as contagens de 1958 e 1962 vêm dessa tabela. Os números aqui são os de Amundson, que releu o artigo e cita as páginas. Limite: o artigo de Kawai e o trabalho de Hirata et al. (2001) não têm acesso aberto e não foram lidos diretamente para esta página.

A lenda do centésimo macaco

Segundo Amundson, Watson (1979) contou que, num dia de 1958, um macaco a mais passou o grupo por um limiar e o hábito se espalhou de repente, inclusive para outras ilhas, como uma “consciência de grupo”. Os registros mostram outra coisa: só dois macacos aprenderam em 1958, o grupo nunca teve cem animais e fora de Koshima o hábito apareceu em indivíduos. Watson aceitou depois a análise e chamou o episódio de metáfora baseada em evidência escassa.

O que veio depois: pré-cultura e disputa sobre “cultura”

Kawai chamou o caso de pré-cultura. Critérios ocidentais dos anos 1970 evitavam grupos alimentados por humanos, e críticos citam a alimentação e a lentidão do espalhamento. Schofield et al. (2018) releram o registro e sugerem que a lavagem foi ficando mais complexa e eficiente, mas apontam que a análise é preliminar. Para uma comparação com chimpanzés e com aves em experimento, veja os posts relacionados.

O que ainda não se sabe

Não está claro por qual mecanismo os macacos aprendem uns com os outros. Amundson lembra que a presença do hábito em outras ilhas pode vir de invenção independente, hipótese que ele não testa. O registro de Koshima é descritivo: mostra quando cada macaco aprendeu, mas não permite separar, sozinho, imitação, atração pelo local e tentativa e erro.

Como sabemos

Os números vêm do ensaio de Amundson sobre Kawai (1965), cujo texto original não pôde ser lido; o resto vem de artigos abertos.

Em debate: Critérios ocidentais dos anos 1970 evitavam grupos alimentados por humanos; críticos citam a alimentação e a lentidão da difusão. Schofield et al. respondem com os registros de variantes e de linhagens com preferências próprias. Não há consenso.

Fontes

  1. Primates — Cumulative culture in nonhumans: overlooked findings from Japanese monkeys?
    Schofield, D. P.; McGrew, W. C.; Takahashi, A.; Hirata, S. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s10329-017-0642-7
  2. Universidade do Havaí em Hilo (versão on-line do artigo da Skeptical Inquirer, vol. 9, 1985) — The Hundredth Monkey Phenomenon
    Amundson, R. · 1985 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Primates — The evolution of the concepts of ‘primate culture’ in Western science
    Hansen, M. F.; Fuentes, A. · 2026 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s10329-026-01244-5
  4. eLife — Food-washing monkeys recognize the law of diminishing returns
    Rosien, J. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.7554/eLife.98520
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)

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