Genética

Luria e Delbrück, 1943: o teste de flutuação mostrou mutações surgindo antes da seleção, não por causa dela

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Evolução biológica

Em 1943, Salvador Luria e Max Delbrück contaram bactérias resistentes a um vírus em muitas culturas pequenas e paralelas. Se o vírus induzisse a resistência, o número seria parecido entre as culturas; se a resistência viesse de mutações que ocorrem durante o crescimento, variaria muito. Variou muito. Para essa bactéria e esse vírus, a mutação veio antes do contato com o vírus, que apenas selecionou quem já a tinha.

Bactérias como a Escherichia coli se reproduzem dividindo-se em duas; uma população cresce de forma exponencial. Algumas culturas ficam resistentes a bacteriófagos (vírus que infectam bactérias) e, em 1943, havia duas explicações. Na primeira, o vírus provocaria a resistência nas células que encontra. Na segunda, a resistência vem de uma mutação (mudança herdável no material genético) que surge ao acaso, antes de qualquer contato, e o vírus só mata as células sensíveis, deixando as resistentes. Luria e Delbrück perceberam que as duas hipóteses fazem previsões diferentes sobre a variação no número de células resistentes entre culturas idênticas e independentes. Esse foi o teste decisivo.

A aritmética do jackpot

Com 10 divisões celulares, uma mutação na primeira gera até 1.024 células resistentes no fim da cultura; se surgir na oitava divisão, gera só 4. É por isso que algumas culturas têm centenas de resistentes e muitas têm zero.

O desenho: contar o espalhamento, não só a média

Ninguém conseguia observar uma mutação isolada em 1943. Luria e Delbrück trocaram a pergunta por outra, mensurável: quanto o número de resistentes varia de uma cultura para outra? Cada hipótese prevê um espalhamento diferente. A hipótese da indução prevê pouca variação, já que o vírus só entra no fim. A da mutação prévia prevê muita, por causa do efeito jackpot. A variância, um número que mede a dispersão, virou a ferramenta de decisão.

O que os números mostraram

Em 8 culturas pequenas e paralelas, a variância corrigida foi de 40,8 a 3.498, e a maioria das culturas não teve nenhuma célula resistente, enquanto uma ou poucas tiveram centenas. Quando as 10 amostras vieram de uma só cultura grande, a variância caiu para 15, 27 e 3,8. Essa comparação mostra que o espalhamento vem das culturas serem independentes, e não da contagem. Os números citados vêm do resumo de Greenspan e Kukan (2024) das Tabelas 1 a 3 do artigo de 1943.

O que "aleatório" quer dizer

"Aleatório" aqui não significa "sem causa": mutações têm causas químicas e físicas. Significa que o aparecimento da mutação não é dirigido pelo que ela traria de benefício. O ambiente pode mudar a taxa (substâncias químicas nocivas aumentam as mutações), mas, em geral, não se considera que escolha a direção. O vírus não ensina a bactéria a resistir: ele elimina as sensíveis e deixa as que, por acaso, já eram resistentes.

O que o experimento não decidiu

O teste respondeu bem para uma linhagem de E. coli e um fago. Bactérias têm outros caminhos para variar e resistir: mudanças estáveis na expressão de genes, no metabolismo ou a aquisição de material genético de fora da célula, que o artigo de 1943 não tratou. A distribuição estatística usada também foi refinada depois. Esses limites não derrubam o resultado, mas pedem que ele não seja estendido sem cuidado a toda a biologia.

Como sabemos

O resultado e o raciocínio estão bem documentados em duas fontes revistas por pares e uma institucional, mas não lemos o artigo original de 1943 (PDF indisponível), e os números vêm de segunda mão.

Em debate:

Fontes

  1. Pathogens and Immunity (Case Western Reserve University) — Historical Highlight: The Luria-Delbrück Fluctuation Test – A Study of the Nature of Bacterial Mutations Conferring Resistance to Infection by Bacteriophage
    Greenspan, N. S.; Kukan, E. N. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.20411/pai.v10i1.763
  2. Genetics (Genetics Society of America), Harvard University — Salvador Luria and Max Delbrück on Random Mutation and Fluctuation Tests
    Murray, A. · 2016 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1534/genetics.115.186163
  3. UC Museum of Paleontology, University of California, Berkeley — Mutations
    Understanding Evolution · 2020 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. UC Museum of Paleontology, University of California, Berkeley — Mutations are random
    Understanding Evolution · 2020 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  5. UC Museum of Paleontology, University of California, Berkeley — The Lederberg experiment
    Understanding Evolution · 2020 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  6. NobelPrize.org — The Nobel Prize in Physiology or Medicine 1969
    Nobel Prize Outreach · 1969 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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