Zoologia

A lula-vampira-do-inferno não é lula e come neve marinha: vive onde falta oxigênio

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Mar profundo

A lula-vampira-do-inferno (Vampyroteuthis infernalis) não é uma lula: forma, com os polvos, o grupo Octopodiformes. Vive em águas profundas pobres em oxigênio e, em vez de caçar, recolhe com um filamento retrátil agregados de neve marinha e restos de plâncton, embrulhados em muco. É o que mostram conteúdos digestivos e vídeos de robôs em Monterey (Califórnia).

Zona de mínimo de oxigênio é uma faixa de profundidade onde o oxigênio dissolvido cai a menos de 0,5 mL por litro: bactérias consomem o oxigênio ao decompor a matéria orgânica que afunda. Essa matéria inclui a neve marinha, agregados de restos de plâncton, fezes e muco que descem do alto. Poucos animais toleram esse ambiente, e as presas comuns de outros cefalópodes são raras ali. A lula-vampira vive nele, em Monterey entre 600 e 900 m, com taxa metabólica baixíssima, hemocianina que se prende bem ao oxigênio e flutuabilidade quase neutra.

Um filamento de até oito vezes o corpo

Os filamentos saem de bolsas entre os dois primeiros pares de braços e podem se estender até cerca de oito vezes o comprimento do corpo. Em cerca de um terço dos 170 indivíduos filmados, um filamento estava estendido.

Nem lula, nem polvo: um grupo à parte

Cefalópodes são moluscos como lulas, polvos e sibas. A lula-vampira tem oito braços e dois filamentos, sem os tentáculos de alimentação das lulas, e é a única espécie da ordem Vampyromorpha. Estudos de filogenia, a reconstrução do parentesco entre grupos, a põem como grupo irmão dos polvos, juntos no clado Octopodiformes. Os dois filamentos são provavelmente um par de braços modificado (hipótese). Mede pouco: o maior manto relatado tem 210 mm.

Viver onde falta oxigênio

Segundo Hoving e Robison, vários traços ajudam a espécie a viver na zona de mínimo de oxigênio: a menor taxa metabólica por massa medida em um cefalópode, hemocianina com afinidade relativamente alta pelo oxigênio e flutuabilidade quase neutra, que poupa energia para nadar. Também há ali poucos predadores. Cor escura e bioluminescência, ou produção de luz própria, seriam defesa e, talvez, ajuda para achar alimento. Essas funções são hipóteses; a medição do metabolismo é de outro estudo, citado por eles.

Como sabemos o que ela come

Hoving e Robison cruzaram quatro tipos de evidência. Primeiro, cerca de 24 h de vídeo de robôs submarinos (ROVs) com 170 indivíduos. Segundo, o conteúdo de fezes, de bolos regurgitados e de papos de animais coletados pelos ROVs. Terceiro, 43 animais de arrasto, dos quais 36 tinham alimento. Quarto, experimentos com 5 animais em laboratório. Num bolo regurgitado, o DNA identificou carne de um calamar entre os detritos. Em 2019, isótopos de nitrogênio em bicos de 104 exemplares apontaram a mesma direção: consumidores oportunistas, não caçadores ativos. Limite: amostra de laboratório pequena e material de museu.

Uma linhagem antiga em águas profundas

Formas do Mesozoico viviam em plataformas continentais. Um fóssil do Oligoceno, Necroteuthis hungarica, achado no Paratétis Central, mostra a família Vampyroteuthidae em ambiente profundo e sem oxigênio no fundo, o que sugere adaptação a essas zonas pelo menos desde então. Entre os fósseis do Cretáceo Inferior e a espécie atual há uma lacuna de cerca de 120 milhões de anos. A ligação com o surgimento das zonas de mínimo de oxigênio é sugestão dos autores, sem teste direto.

Como sabemos

Dieta, filamentos e ambiente vêm de um estudo de campo e laboratório e de uma análise global de isótopos; funções da bioluminescência e a origem evolutiva do filamento são hipóteses.

Fontes

  1. Proceedings of the Royal Society B 279(1747):4559–4567 (Monterey Bay Aquarium Research Institute) — Vampire squid: detritivores in the oxygen minimum zone
    Hoving, H. J. T.; Robison, B. H. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2012.1357
  2. Scientific Reports 9:19099 — The first global deep-sea stable isotope assessment reveals the unique trophic ecology of Vampire Squid Vampyroteuthis infernalis (Cephalopoda)
    Golikov, A. V. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-55719-1
  3. Communications Biology 4:216 — Fossil evidence for vampire squid inhabiting oxygen-depleted ocean zones since at least the Oligocene
    Košťák, M. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s42003-021-01714-0
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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