Astronomia

A Lua se afasta cerca de 3,8 cm por ano: lasers e espelhos deixados pelas Apollo medem o recuo

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

A distância entre a Terra e a Lua cresce cerca de 38 mm por ano (3,8 cm), valor obtido de 43 anos de medições com laser até refletores que astronautas das Apollo deixaram na superfície lunar. A causa são as marés: elas transferem energia e momento angular da rotação da Terra para a órbita da Lua, e por isso o dia terrestre também se alonga.

Lunar laser ranging (LLR) consiste em disparar pulsos de laser de um telescópio na Terra até um retrorrefletor na Lua e medir quanto tempo a luz leva para ir e voltar. Retrorrefletor é um conjunto de cubos de vidro que devolvem a luz exatamente na direção de onde ela veio. Multiplicando o tempo pela velocidade da luz e dividindo por dois, obtém-se a distância. Repetida por décadas, a medição mostra que a distância média aumenta. A explicação é a maré: a água e a crosta da Terra se deformam sob a atração lunar, mas o abaulamento é arrastado pela rotação da Terra e fica um pouco à frente da Lua. Essa assimetria puxa a Lua para a frente em sua órbita e freia a rotação terrestre. Quem quiser o básico das marés encontra em outro texto daqui; este trata da medição e do que ela revela.

Dois números 3,8 que não têm relação

Cada cubo dos refletores das Apollo 11 e 14 tem 3,8 cm de diâmetro, e a Lua recua cerca de 3,8 cm por ano. É coincidência de números: o tamanho do cubo foi escolha de projeto, e o recuo vem da dissipação das marés.

Como o laser chega à precisão de milímetros

O sinal que volta é fraco: quase toda a luz se perde e nem todo pulso gera um fóton detectado. As primeiras estações, com precisão de cerca de 20 cm, melhoraram até cerca de 2 cm. O sistema APOLLO, em Apache Point, usa um telescópio de 3,5 m e detectores sensíveis para registrar milhares de fótons e atingir cerca de 1 mm de incerteza estatística em menos de 10 minutos. A precisão, portanto, vem de somar muitos fótons, não de um pulso isolado.

Por que o dia se alonga junto com a distância

Quando a rotação da Terra arrasta o abaulamento de maré para a frente da Lua, a Lua é puxada para a frente e sobe para uma órbita maior, enquanto a rotação da Terra desacelera. A energia e o momento angular que a Terra perde vão para a órbita lunar. Por isso, a duração do dia, a distância à Lua e o período orbital crescem juntos. A fonte observa que a rotação também sofre outras variações, como as ligadas a mudanças no momento de inércia da Terra.

Limites: o refletor e o ruído das medições

A Lua oscila, e o conjunto de cubos fica inclinado em relação à estação. Em um conjunto de 0,5 m e libração típica de 6 graus, isso alarga o pulso de volta em cerca de 330 ps, o que domina o erro. Ou seja, a tecnologia das estações já superou o refletor. Os próprios autores da revisão registram que os modelos de efemérides ainda não aproveitavam ao máximo dados no nível de milímetros.

O que o ritmo atual não permite concluir

A taxa de 3,8 cm por ano é a de hoje, não uma constante cósmica. Extrapolada para trás, ela colocaria a Lua perto da Terra há cerca de 1,5 bilhão de anos, algo que contradiz a idade lunar de cerca de 4,5 bilhões de anos. Os dados geológicos e os modelos indicam taxas médias menores no passado. Um registro de 2,46 bilhões de anos indica um dia de 16,9 h e uma Lua a cerca de 321.800 km.

Como sabemos

A taxa, o método e os limites foram lidos em texto integral em um artigo do JPL, em uma revisão da NASA e em um artigo da PNAS; o dado de 2010 sobre estações e refletores pode estar defasado.

Fontes

  1. Planetary Science (Springer) / Jet Propulsion Laboratory, Caltech — The past and present Earth-Moon system: the speed of light stays steady as tides evolve
    Williams, J. G.; Turyshev, S. G.; Boggs, D. H. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/s13535-014-0002-5
  2. Living Reviews in Relativity / NASA Goddard Space Flight Center — Tests of Gravity Using Lunar Laser Ranging
    Merkowitz, S. M. · 2010 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.12942/lrr-2010-7
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Milankovitch cycles in banded iron formations constrain the Earth–Moon system 2.46 billion years ago
    Lantink, M. L. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2117146119
  4. International Laser Ranging Service, Associação Internacional de Geodesia (NASA Goddard) — International Laser Ranging Service (ILRS): Overview
    International Laser Ranging Service · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos