Zoologia

O lobo-guará, que não é lobo nem raposa, ajuda a espalhar as sementes da lobeira pelo Cerrado

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) parece uma raposa de pernas longas, mas estudos genéticos mostram que não é raposa nem lobo verdadeiro: é o único representante do gênero Chrysocyon e o maior canídeo da América do Sul. Também come muita fruta. Em um estudo da USP em oito áreas de cerrado, a lobeira, cujo nome popular quer dizer fruta-de-lobo, respondeu por cerca de um terço da alimentação, e as sementes saem nas fezes em condições de germinar.

Num estudo coordenado por José Carlos Motta Junior, da USP, a análise de fezes ao longo de 27 meses em oito localidades de São Paulo e Minas Gerais mostrou uma dieta dividida mais ou menos meio a meio entre animais e frutos. A lobeira (Solanum lycocarpum) foi o fruto preferido. As sementes atravessam o aparelho digestivo razoavelmente intactas e depois normalmente germinam, segundo o pesquisador. Uma dissertação da Universidade Federal de Uberlândia, em área de cerrado em Minas Gerais, encontrou resultado na mesma direção: sementes tiradas das fezes germinaram mais do que as tiradas direto dos frutos. Como o lobo-guará anda muito à noite, por áreas de 20 a 110 km², leva sementes para longe da planta de origem. O papel de dispersor pesa mais porque a espécie está ameaçada.

A fama de ladrão de galinhas não se sustenta

No estudo da USP, galinhas e frangos somaram de 0,1% a 1,9% da dieta do lobo-guará. Segundo o pesquisador, para cada galinha o animal consome de 50 a 70 ratos. A crença de que ele vive de aves domésticas, comum entre moradores rurais ouvidos na pesquisa, contribui para sua morte.

Nem lobo, nem raposa

O lobo-guará tem pelagem avermelhada, pernas longas e finas e orelhas grandes e eretas. Parece uma raposa de pernas longas, mas estudos genéticos o colocam em um ramo próprio da família Canidae: é a única espécie do gênero Chrysocyon. Com cerca de 90 cm de altura no ombro e 23 kg, é o maior canídeo sul-americano. As pernas altas ajudam a enxergar e a andar por capim alto, onde ele rotaciona as orelhas para localizar presas.

Fruta de lobo

O nome popular da lobeira, Solanum lycocarpum, significa fruta-de-lobo. O fruto é uma baga parecida com um tomate e, no estudo da USP, respondeu por cerca de um terço da alimentação do animal. Entre os alimentos mais ingeridos estão também a gabiroba, outro fruto típico do cerrado, e pequenos roedores. A dieta inclui ainda pequenos mamíferos, marsupiais e, em menor escala, insetos e répteis. Por engolir quase inteiras presas de até três quilos, como tatus, o lobo-guará pode ser estudado pela análise das fezes.

Como as sementes viajam

O lobo-guará engole os frutos e elimina as sementes nas fezes, muitas vezes a distância da planta que as produziu. Como cada animal circula por 20 a 110 km², o transporte pode ser longo. Na dissertação da UFU, sementes retiradas das fezes germinaram mais do que as retiradas direto dos frutos. Isso sustenta o papel de dispersor, mas não prova que a lobeira dependa só dele: outros animais também comem os frutos, e as pesquisas variam conforme o local.

Ameaças e a nota de R$ 200

A avaliação do ICMBio de 2013 classificou a espécie como Vulnerável no Cerrado e Criticamente em Perigo nos Pampas. Os fatores citados: perda de habitat, atropelamentos, doenças e retaliação por ataques a animais domésticos. A UICN, em 2015, trouxe uma estimativa de cerca de 17.000 indivíduos maduros e classificou a espécie como Quase Ameaçada. Em 2 de setembro de 2020 o Banco Central lançou a nota de R$ 200, com o lobo-guará no verso.

Como sabemos

Os fatos centrais (taxonomia, dieta com lobeira, dispersão e germinação, ameaças) vêm de estudo da USP, dissertação da UFU, avaliação do ICMBio, UICN e Smithsonian, com números apresentados como estimativas.

Em debate: A parcela da lobeira na dieta varia entre estudos, de acordo com o local, a paisagem e a estação; o valor de cerca de um terço vem de oito áreas do Sudeste e não vale para todo o Cerrado.

Em debate: O estado de conservação depende da escala: a UICN (2015) classifica a espécie como Quase Ameaçada globalmente, enquanto a avaliação do ICMBio (2013) a classifica como Vulnerável no Cerrado brasileiro e Criticamente em Perigo nos Pampas.

Fontes

  1. Smithsonian's National Zoo and Conservation Biology Institute — Maned wolf (Chrysocyon brachyurus)
    consultada em 05/10/2026
  2. Revista Pesquisa FAPESP (estudo de J. C. Motta Junior, Instituto de Biociências da USP) — A dieta equilibrada do lobo-guará
    consultada em 05/10/2026
  3. Universidade Federal de Uberlândia — Dieta e dispersão de sementes de lobeira pelo lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) em área de Cerrado, com reflorestamento de eucalipto como matriz de entorno - Minas Gerais
    consultada em 05/10/2026
  4. ICMBio, Biodiversidade Brasileira v. 3 n. 1 — Avaliação do risco de extinção do lobo-guará Chrysocyon brachyurus (Illiger, 1815) no Brasil
    consultada em 05/10/2026
  5. Lista Vermelha da UICN — Chrysocyon brachyurus (Maned Wolf)
    consultada em 05/10/2026
  6. Banco Central do Brasil — Segunda Família do Real: cartilha de treinamento, nota de R$ 200
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 5 imagem(ns) real(is) do Commons
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

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