Ciências da Terra
Lisboa, 1755: a falha do terremoto e do tsunami segue em debate, mas as simulações estreitam as candidatas
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
A falha que gerou o terremoto de Lisboa, em 1º de novembro de 1755, e um tsunami que cruzou o Atlântico não está estabelecida. Há propostas no Banco de Gorringe, na Falha do Marquês de Pombal, no Golfo de Cádis e na Planície Abissal de Ferradura. Simulações de tsunami comparadas a relatos históricos favorecem a Ferradura, a oeste. Outro estudo, que usou a areia depositada em Portugal pelo tsunami, deu melhor ajuste à falha mais próxima da costa.
Em 1755 não havia sismógrafos, e a fonte do terremoto só pode ser reconstruída por tentativa: escolhe-se uma falha candidata ao largo de Portugal, calcula-se quanto o fundo do mar se desloca, simula-se a onda e compara-se o resultado com alturas e horários de chegada relatados em crônicas e com a areia que o tsunami deixou em terra. A região fica no limite entre as placas Eurásia e África, onde há falhas de empurrão (reversas), que comprimem a crosta, e falhas transcorrentes, que deslizam de lado. Este post trata da disputa sobre qual rompeu. A magnitude está em outro post, e o tsunami de 2004, em outro.
A onda distante como testemunha
Tsunamis que cruzam o oceano sofrem menos influência do relevo perto da fonte e não são afetados por deslizamentos submarinos na origem. Por isso, relatos de lugares distantes, como o Caribe e o Brasil, ajudam a restringir onde ficava a falha.
As candidatas e quem as propôs
Em 1999, Zitellini e colegas apontaram um empurrão de cerca de 50 km ao largo do Cabo de São Vicente. Baptista e colegas (2003) concluíram que o empurrão do Marquês de Pombal sozinho explica só metade da energia e propuseram uma fonte composta com o Banco do Guadalquivir. Barkan e colegas (2009) apontaram o centro da Planície de Ferradura, em vez de Gorringe, e Martínez-Loriente e colegas (2021) propuseram ali o Empurrão da Ferradura. Dourado e colegas (2021) deram o melhor ajuste ao Marquês de Pombal.
Como sabemos: três testes da mesma pergunta
Barkan e colegas simularam o tsunami e compararam as amplitudes com relatos de lugares distantes. Dourado e colegas compararam simulações com a espessura de areia de tsunami em mais de 150 testemunhos de sedimento em Salgados, em Portugal. Martínez-Loriente e colegas combinaram dados geofísicos com simulações. Os resultados divergem. Os próprios autores de 2009 dizem que seriam necessários dados de maior resolução para verificar os resultados, e a simulação restringe a fonte, mas não a determina.
A candidata mais recente: o empurrão da Ferradura
O Empurrão da Planície Abissal de Ferradura é a hipótese de Martínez-Loriente e colegas (2021): um empurrão reverso que, combinado ao comportamento mecânico em dois estados da serpentinita, seria o candidato mais provável, e cujas simulações reproduziriam melhor os dados históricos. Essa avaliação é dos autores e ainda não tem consenso: o estudo de depósitos de areia em Portugal (Dourado e colegas, 2021) favoreceu outra falha.
O que atravessou o Atlântico
Há relatos de ondas no Caribe, no Brasil e na Terra Nova, e nenhum na costa leste dos Estados Unidos. Nas simulações de Barkan e colegas, Gorringe, a elevação Madeira-Tore e os Açores espalharam a energia e protegeram a maior parte da costa americana. É um resultado de modelo comparado a relatos antigos, e a ligação com os relatos brasileiros não foi verificada um a um.
Quantos morreram: uma faixa, não um número
Não há contagem confiável. O banco da NOAA reúne cerca de 10.000 mortes em Portugal, somando terremoto, tsunami e incêndio, e até 100.000 no conjunto da Ibéria e do Marrocos, com outra referência entre 40.000 e 50.000. Só o tsunami teria matado cerca de 1.000 pessoas em Portugal. Os números cobrem áreas e causas diferentes e vêm de referências antigas, citadas no banco sem autor identificado.
Como sabemos
O debate e as candidatas estão documentados em estudos abertos, mas as afirmações centrais foram conferidas só nos resumos e a conclusão sobre a fonte é uma hipótese em disputa.
Em debate:
- Estimativa: O terremoto de 1º de novembro de 1755 teve magnitude estimada entre 8,5 e 9,0 e é descrito como o mais destrutivo da história europeia; o tsunami teve alturas de 5 a 15 m na costa sudoeste da Ibéria e no noroeste do Marrocos. [3] Resumo [5] Comentários do registro, referência 3730
Contexto: Magnitude e alturas vêm de reconstruções a partir de relatos históricos; não há registro de instrumentos. · Limitações: As alturas vêm de relatos antigos. A faixa de magnitude e o debate sobre um valor menor ficam no post sobre magnitude. · Estimativa baseada em fontes históricas, sem medição instrumental. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Incerto: Não existe contagem confiável de mortos: as estimativas reunidas pelo banco de dados de tsunamis da NOAA vão de cerca de 10.000 em Portugal, somando terremoto, tsunami e incêndio, a até 100.000 no conjunto, com outra referência dando de 40.000 a 50.000 em Portugal, Espanha e Marrocos; só o tsunami teria matado cerca de 1.000 pessoas em Portugal. [5] Comentários do registro, referência 3730
Contexto: Terremoto, incêndios e tsunami somados; as faixas abrangem regiões diferentes (Portugal, Ibéria, Marrocos). · Limitações: As faixas não são comparáveis diretamente: cobrem áreas e causas diferentes. O banco da NOAA cita as referências sem identificar os autores no registro. · Faixa de estimativas históricas, nenhuma é contagem. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Em debate: A fonte do terremoto de 1755 segue em debate: a localização precisa da fonte sísmica é considerada incerta, muitas tentativas de caracterizá-la foram feitas, e entre as fontes sugeridas estão a Falha do Marquês de Pombal e a Falha do Golfo de Cádis. [3] Resumo [4] Resumo
Contexto: Margem sudoeste da Ibéria, entre o Cabo de São Vicente, o Banco de Gorringe e o Golfo de Cádis. · Limitações: Só os resumos foram lidos. O resumo de Barkan e colegas (2009) tem caracteres corrompidos nos nomes (Marquês, Cádis), mantidos como na página. · Debate publicado, com autores propondo fontes diferentes. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Em 1999, Zitellini e colegas propuseram como gerador do terremoto uma falha de empurrão de cerca de 50 km de comprimento, com rejeito de mais de 1 km, identificada em levantamento sísmico de 1992 ao largo do Cabo de São Vicente, porque a realocação de terremotos históricos a colocou muito perto do epicentro de 1755. [2] Resumo
Contexto: Margem sudoeste da Ibéria, ao largo do Cabo de São Vicente, Portugal. · Limitações: Só o resumo foi lido. É uma hipótese de 1999, anterior aos trabalhos citados nas demais afirmações. · Hipótese de 1999. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Barkan, ten Brink e Lin (2009) concluíram que a Falha do Banco de Gorringe, de orientação nordeste-sudoeste, não é a favorecida por suas simulações de campo distante, que apontam um empurrão em outra direção no centro da Planície de Ferradura. [3] Resumo
Contexto: Simulações de tsunami de campo distante, comparadas com relatos no Caribe, Brasil e Terra Nova. · Limitações: Só o resumo foi lido; o autor original da hipótese de Gorringe não foi verificado. · Resultado de modelagem, não observação direta. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Um estudo de 2021, com autoria que inclui o USGS, comparou a espessura de depósitos de areia de tsunami em Salgados, no sul de Portugal, com simulações de cinco fontes hipotéticas: três reproduziram os dados, e a Falha do Marquês de Pombal, a mais próxima da costa, teve as melhores correlações. [4] Resumo
Contexto: Salgados, litoral do Algarve, com mais de 150 testemunhos de sedimento e o modelo Delft3D-FLOW. · Limitações: Um único local de depósitos; só o resumo foi lido. O resultado não exclui as outras duas fontes que reproduziram os dados. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Baptista e colegas (2003) interpretaram que o empurrão do Marquês de Pombal, sozinho, responde por apenas metade da energia sísmica liberada em 1755, e propuseram uma fonte composta, que inclui essa falha e o Banco do Guadalquivir. [6] Resumo
Contexto: Margem sudoeste da Ibéria; o teste foi feito por modelagem do tsunami em todo o Atlântico Norte. · Limitações: Só o resumo foi lido. Estudo de 2003, anterior aos de 2009 e 2021. · Hipótese de fonte composta. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Martínez-Loriente, Sallarès e Gràcia (2021) propõem como fonte mais provável um empurrão reverso, o Empurrão da Planície Abissal de Ferradura, e dizem que simulações de tsunami com essa falha reproduzem os padrões de propagação, os horários de chegada e as alturas relatados melhor que outras fontes modeladas. [1] Resumo
Contexto: Estudo com dados geofísicos e simulações numéricas de tsunami na margem sudoeste da Ibéria. · Limitações: Só o resumo foi lido pela conferência; é a avaliação dos próprios autores e uma hipótese ainda sem consenso. Outro estudo (Dourado e colegas, 2021) deu melhor ajuste ao Marquês de Pombal. · Hipótese recente de um grupo de pesquisa; não é consenso. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: As simulações de campo distante de Barkan, ten Brink e Lin (2009) limitam a área-fonte a uma região ao sul do Banco de Gorringe, no centro da Planície de Ferradura, e não às falhas do Marquês de Pombal e do Golfo de Cádis, mais a leste. [3] Resumo
Contexto: Comparação de amplitudes relativas em locais do Atlântico com relatos de 1755. · Limitações: Dependem da qualidade de relatos de mais de 250 anos e da batimetria usada. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Há relatos históricos de tsunami do outro lado do Atlântico, no Caribe, no Brasil e na Terra Nova (Canadá), e nenhum ao longo da costa leste dos Estados Unidos. [3] Resumo
Contexto: Atlântico Norte e Brasil, segundo relatos históricos compilados em estudo. · Limitações: São relatos antigos, de local e qualidade variados; não avaliei cada relato brasileiro individualmente. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Nas simulações de Barkan e colegas, o Banco de Gorringe, a elevação Madeira-Tore e os Açores teriam funcionado como espalhadores da energia do tsunami, protegendo a maior parte da costa leste dos Estados Unidos. [3] Resumo
Contexto: Resultado de simulação com a fonte na Ferradura. · Limitações: Resultado de modelo, não observação; os autores pedem batimetria de maior resolução para verificá-lo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os próprios autores das simulações de campo distante dizem que, para verificar os resultados, são necessárias batimetria de maior resolução na costa leste dos Estados Unidos e no Caribe e um estudo detalhado das fontes potenciais no centro-oeste da Planície de Ferradura. [3] Resumo
Contexto: Limitação declarada por Barkan, ten Brink e Lin (2009). · Limitações: Declaração de 2009; trabalhos posteriores podem ter suprido parte dessas lacunas. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: A fonte de 1755 é testada de três modos: simulando o tsunami e comparando-o com relatos distantes, como fizeram Barkan e colegas (2009); comparando as simulações com a espessura de areia deixada em terra, como fizeram Dourado e colegas (2021); e combinando dados geofísicos e modelagem numérica do tsunami, como fizeram Martínez-Loriente e colegas (2021). [1] Resumo [3] Resumo [4] Resumo
Contexto: Métodos de três estudos publicados entre 2009 e 2021. · Limitações: Só os resumos foram lidos; os detalhes de cada simulação (malha, hipóteses de deslizamento) não foram conferidos. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Segundo Barkan e colegas, o limite de placas entre os Açores e a Ibéria a oeste da elevação Madeira-Tore é marcado por falhas transcorrentes, não por empurrões, mas o Golfo de Cádis pode ter falhas de empurrão. [3] Resumo
Contexto: Limite entre as placas Eurásia e África no Atlântico leste. · Limitações: Só o resumo foi lido; é uma caracterização regional feita em 2009. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Incerto: Se parte do tsunami veio de escorregamentos submarinos é uma questão aberta: uma referência reunida pelo banco da NOAA levanta a possibilidade de origem mista, de falha no fundo do mar e de deslizamento de sedimentos. [5] Comentários do registro, referência 2853
Contexto: Fonte do tsunami de 1755. · Limitações: O registro da NOAA não identifica aqui o autor, o ano nem os dados da referência 2853; é só indício de que a possibilidade foi levantada. · Os dados disponíveis aqui não permitem separar a contribuição da falha e a de escorregamentos. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada
Fontes
- Communications Earth & Environment (resumo via Crossref) — The Horseshoe Abyssal plain Thrust could be the source of the 1755 Lisbon earthquake and tsunami
Martínez-Loriente, S.; Sallarès, V.; Gràcia, E. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s43247-021-00216-5 - Annals of Geophysics, v. 42, n. 1 — The tectonic source of the 1755 Lisbon earthquake and tsunami
Zitellini, N.; Chierici, F.; Sartori, R.; Torelli, L. · 1999 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.4401/ag-3699 - Marine Geology, v. 264 (resumo no USGS Publications Warehouse) — Far field tsunami simulations of the 1755 Lisbon earthquake: Implications for tsunami hazard to the U.S. East Coast and the Caribbean
Barkan, R.; ten Brink, U. S.; Lin, J. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1016/j.margeo.2008.10.010 - Earth and Space Science (resumo no USGS Publications Warehouse) — Can modeling the geologic record contribute to constraining the tectonic source of the AD 1755 Great Lisbon earthquake?
Dourado, F.; Costa, P. J. M.; La Selle, S.; Andrade, C.; Bosnic, I.; Gelfenbaum, G. R. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1029/2020EA001109 - NOAA NCEI, Global Historical Tsunami Database — Banco de dados global de tsunamis históricos, evento 456 (Lisboa, 1755)
NOAA National Centers for Environmental Information · banco atualizado continuamente · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - Natural Hazards and Earth System Sciences, v. 3 — New study of the 1755 earthquake source based on multi-channel seismic survey data and tsunami modeling
Baptista, M. A.; Miranda, J. M.; Chierici, F.; Zitellini, N. · 2003 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)