Biologia
Líquen: fungo, alga e o debate sobre quantos parceiros existem
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Um líquen não é um organismo único: é um fungo associado a um parceiro fotossintetizante, uma alga verde ou uma cianobactéria. Por mais de 140 anos, a regra foi um fungo por líquen. Em 2016, um estudo na revista Science descreveu leveduras de outro grupo de fungos no córtex de muitos líquens, em seis continentes. Um levantamento de 2019 achou essas leveduras em poucas espécies. O debate segue aberto.
Em 1867-1869, o botânico suíço Simon Schwendener mostrou que os líquens têm natureza dupla: um fungo e uma alga. A ideia foi recebida com resistência e depois se firmou. O fungo, em geral um ascomiceto, dá a estrutura; o parceiro fotossintetizante fabrica alimento com a luz. Em até 10% dos líquens conhecidos, esse parceiro é uma cianobactéria. O modelo de um fungo por líquen quase não foi questionado até 2016, quando Toby Spribille e colegas relataram leveduras basidiomicetos embutidas no córtex, a camada externa. A pergunta que isso reabre é antiga: onde termina um indivíduo e começa uma comunidade?
A camada que parecia de um fungo só
O córtex, a pele do líquen, era tratado como uma zona de células diferenciadas de um único ascomiceto. O estudo de 2016 propôs que ele contém dois fungos sem parentesco próximo, e que a abundância das leveduras acompanha diferenças de aparência entre líquens.
A ideia de Schwendener
Antes de 1867, líquens eram classificados como plantas inferiores, um grupo à parte. Simon Schwendener propôs que cada um é a soma de um fungo e de uma alga. O fungo fornece a estrutura que protege e fixa; a alga, a fotossíntese. A proposta separou o que parecia um organismo em dois, e ajudou a firmar a ideia de simbiose na biologia.
Alga verde ou cianobactéria
O parceiro fotossintetizante, o fotobionte, é em geral uma alga verde, mas em até 10% dos líquens conhecidos é uma cianobactéria. Os cianobiontes unicelulares são menos estudados que os de algas verdes. Isso importa: a diversidade de quem vive dentro do líquen provavelmente é maior do que o catálogo atual mostra.
O que 2016 acrescentou
Toby Spribille e colegas usaram dados moleculares para mostrar leveduras basidiomicetos no córtex de muitos líquens. A abundância delas acompanhava diferenças de aparência entre líquens. O trabalho teve coautoria de M. Catherine Aime, da Purdue. A divulgação da universidade sugeriu que as leveduras ajudariam na defesa química, mas essa função ainda é descrita como aparente.
A ressalva de 2019
Em 2019, James Lendemer e colegas analisaram 413 amostras de 339 espécies de 57 famílias. Acharam leveduras cistobasidiomicetos em nove táxons, 2,7% das espécies, e concluíram que não são ubíquas. Os dois resultados não se anulam: dependem de grupos amostrados e métodos. O que falta é medir quanto são frequentes e o que fazem.
Como sabemos
O núcleo (simbiose fungo e fotobionte, estudo de 2016 e a ressalva de 2019) está bem sustentado; o papel das leveduras segue em aberto.
Em debate: O estudo de 2016 as encontrou em muitos líquens, em seis continentes e 52 gêneros. O levantamento metagenômico de 2019, com 339 espécies, as detectou em 2,7% das espécies amostradas e concluiu que não são ubíquas. Quanto são frequentes e que papel têm segue em discussão.
- Fato estabelecido: Por mais de 140 anos, líquens foram vistos como simbiose entre um único fungo, em geral um ascomiceto, e um parceiro fotossintetizante. [1]
- Fato estabelecido: Outros fungos eram conhecidos como parasitas ou endófitos ocasionais em líquens, mas o paradigma de um líquen, um fungo quase não era questionado. [1]
- Fato estabelecido: Entre 1867 e 1869, Simon Schwendener descobriu a natureza dupla dos líquens, simbiose de uma alga com um fungo. [4]
- Fato estabelecido: Em até 10% dos líquens conhecidos, o parceiro fotossintetizante é uma cianobactéria (cianolíquens). [5]
A fonte diz 'até 10%'; o valor exato varia conforme a contagem. - Fato estabelecido: Em 2016, Spribille e colaboradores relataram, na revista Science, leveduras basidiomicetos específicas no córtex de muitos macrolíquens de ascomicetos. [1]
- Evidência forte: A abundância dessas leveduras correlaciona com variações de aparência dos líquens antes sem explicação. [1]
Correlação descrita no estudo original; causa não demonstrada no resumo. - Evidência forte: Linhagens de leveduras mantêm associação estreita com espécies específicas de líquen por grandes distâncias e foram encontradas em seis continentes. [1]
- Fato estabelecido: As leveduras foram encontradas em 52 gêneros de líquens. [2]
- Interpretação: O córtex, tratado como zona de células diferenciadas do ascomiceto, parece conter dois fungos sem parentesco. [1]
Redação do próprio estudo: 'appears to consistently contain'. - Hipótese: As leveduras aparentemente produzem compostos químicos que ajudam o líquen a se defender de predadores e micróbios invasores. [2]
Descrição de divulgação da universidade, com 'aparentemente'; função não é consenso. - Fato estabelecido: Um levantamento metagenômico de 2019 analisou 413 amostras de 339 espécies de 57 famílias e achou leveduras cistobasidiomicetos em nove táxons, 2,7% das espécies amostradas. [3]
- Em debate: Os autores do levantamento de 2019 concluíram que leveduras basidiomicetos não são ubíquas nos líquens. [3]
Conclusão em tensão com o relato de 2016; os dois estudos usaram amostras e métodos distintos. - Fato estabelecido: Pesquisas sobre cianobiontes unicelulares de líquens são bem mais escassas que as sobre algas verdes. [5]
Fontes
- Science, via Europe PMC (PMID 27445309) — Basidiomycete yeasts in the cortex of ascomycete macrolichens (resumo)
consultada em 06/10/2026 - Purdue University — Yeast emerges as hidden third partner in lichen symbiosis
consultada em 06/10/2026 - American Journal of Botany, via Europe PMC — A taxonomically broad metagenomic survey of 339 species spanning 57 families suggests cystobasidiomycete yeasts are not ubiquitous across all lichens (resumo)
consultada em 06/10/2026 - Dicionário Histórico da Suíça — Schwendener, Simon (verbete)
consultada em 06/10/2026 - Briegel-Williams et al., 2024 — The underestimated fraction: diversity, challenges and novel insights into unicellular cyanobionts of lichens
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão