Evolução

Linha de Wallace: de fronteira nítida entre Bali e Lombok a zona de transição, e por que ninguém a traça igual

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Em 1863, Wallace descreveu uma troca quase completa de aves num estreito de 15 milhas (cerca de 24 km), entre Bali e Lombok: barbetes e pica-paus de um lado, cacatuas do outro. Ele associou diferenças desse tamanho entre terras vizinhas a mares fundos, sinal de separação antiga. Mas a fronteira nítida não resistiu: nos anos 1880 já se propunham zonas de transição, e ainda não há consenso sobre onde traçar os limites.

Biogeografia é o estudo de onde cada grupo de seres vivos ocorre e por quê. No arquipélago entre a Ásia e a Austrália, Wallace notou que as ilhas ligadas à Ásia por um mar raso tinham fauna de tipo asiático, e as ligadas à Austrália por outro mar raso, fauna de tipo australiano. Uma “linha” é o traço no mapa onde essa troca acontece; uma “zona de transição” é a faixa onde elementos dos dois lados convivem. A linha de 1863 foi desenhada com mamíferos terrestres e aves. Outros autores propuseram outros traçados, com outros grupos e outros critérios, e as listas de espécies mudam conforme o grupo escolhido.

A linha de 1863 não é a linha final de Wallace

Segundo a revisão de Ali e Heaney (2021), o traçado de 1863 não é o que Wallace adotou em 1910: o contorno em torno de Sulawesi passou do lado oeste para o lado leste da ilha. Para os autores, o traçado de Huxley, de 1868, deveria levar o nome dele.

O contraste que Wallace descreveu

Em 1863, ao passar de Bali para Lombok, Wallace registrou que barbetes, tordos-frutíferos e pica-paus não apareciam do outro lado, onde havia cacatuas, melífagos e perus-do-mato. Ele chamou a atenção para a distância: um estreito de 15 milhas, cerca de 24 km (conversão nossa), que se atravessa em duas horas. O relato é de campo e cobre alguns grupos de aves; não é um inventário completo das ilhas.

Por que um mar fundo separa faunas

O argumento de Wallace era que terras vizinhas com produções naturais muito diferentes foram separadas há mais tempo, o que costuma aparecer como um mar mais fundo entre elas. Ele mostrou que os mares entre Java, Sumatra, Bornéu e a Ásia têm menos de 50 braças (cerca de 91 m, conversão nossa), e que a linha de 100 braças incluiria Bali. O modelo geológico dele, um antigo continente a leste, foi depois reinterpretado com a tectônica de placas: a colisão da ponta de Sula com a proto-Sulawesi, no Mioceno inicial, iniciou a formação de ilhas na Wallacea.

Como sabemos: sondagens, mapas de nível do mar e genes

Três tipos de evidência convivem. Wallace usava listas de espécies por ilha e sondagens de profundidade. Hoje há mapas que estimam a terra exposta há 17.000, 150.000 e 250.000 anos, feitos a partir das curvas de profundidade atuais, o que é uma reconstrução e não uma observação. E há datas genéticas: num estudo com pitas, a travessia do estreito de Makassar teria ocorrido no Pleistoceno médio, mas os autores dizem que ela é “assumida”, e os grupos para os quais a linha é fronteira importante são em geral bem mais antigos.

De linha a zona: Huxley, Heilprin, Lydekker e Wallacea

Segundo a revisão de Ali e Heaney (2021), após Wallace surgiram outras linhas, como a de Huxley, de 1868, e a de Lydekker, de 1896, que os autores sugerem chamar de Heilprin-Lydekker por causa de uma contribuição de 1887. Percebeu-se que todas eram permeáveis e, já nos anos 1880, propuseram-se zonas de transição. O nome Wallacea é de 1924. Os autores avisam que o texto secundário muitas vezes descreve mal as definições originais e que ainda não há consenso sobre os traçados.

Como sabemos

Três fontes lidas na íntegra (Wallace 1863, estudo das pitas e estudo de Moyle) e uma revisão lida só pelo resumo no PubMed; faltam o texto completo de Ali e Heaney e os traçados de Huxley, Heilprin e Lydekker.

Em debate: Não há consenso sobre onde passam as linhas e as zonas de transição do arquipélago: a revisão de Ali e Heaney (2021) mostra que, na última década, foram propostas novas divisões e subregiões, algumas muito diferentes das anteriores, e que técnicas analíticas modernas não produziram um traçado único. Há ainda dois usos de “Wallacea”: a descrição de 1924, que incluía as Filipinas (menos Palawan), e uma versão menor, de 1957, que exclui todas as Filipinas e é a mais usada desde 1998.

Fontes

  1. Biological Reviews (PubMed, resumo) — Wallace's line, Wallacea, and associated divides and areas: history of a tortuous tangle of ideas and labels
    Ali, J. R.; Heaney, L. R. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/brv.12683
  2. Journal of the Royal Geographical Society, vol. 33; texto em Wallace Page, Western Kentucky University (C. H. Smith) — On the Physical Geography of the Malay Archipelago
    Wallace, A. R. · 1863 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. BMC Evolutionary Biology — Genomic differentiation tracks earth-historic isolation in an Indo-Australasian archipelagic pitta (Pittidae; Aves) complex
    Ericson, P. G. P.; Qu, Y.; Rasmussen, P. C.; Blom, M. P. K.; Rheindt, F. E.; Irestedt, M. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1186/s12862-019-1481-5
  4. Field Museum of Natural History — Pleistocene Sea Level Maps
    Field Museum of Natural History (mapas de Voris, 2000) · 2000 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  5. Nature Communications — Tectonic collision and uplift of Wallacea triggered the global songbird radiation
    Moyle, R. G.; Oliveros, C. H.; Andersen, M. J.; et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/ncomms12709
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)

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