Astronomia

Linha de neve: o que explica, e o que não explica sozinha, na divisão entre planetas rochosos e gigantes

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Sistema Solar

A linha de neve é a distância do Sol a partir da qual a água do disco primitivo congelava, em temperaturas de cerca de 145 a 170 K. Além dela, o gelo aumenta a quantidade de sólidos (cerca de 4 vezes, num modelo de disco de massa mínima), o que ajuda a formar núcleos de gigantes antes de o gás sumir. Mas é só parte da resposta: por que o interior ficou seco mesmo depois de esfriar segue em debate.

O disco primitivo era o disco de gás e poeira em volta do jovem Sol, de onde saíram os planetas. Era mais quente perto da estrela e mais frio longe. A linha de neve (ou linha do gelo) é a distância a partir da qual a temperatura cai o bastante para o vapor de água virar gelo e se juntar aos grãos de rocha e metal que já existiam. A distância costuma ser dada em unidades astronômicas (UA): 1 UA é a distância entre a Terra e o Sol. Pelo modelo de acreção de núcleo, Júpiter e Saturno teriam começado como núcleos sólidos que só depois atraíram gás, e esse núcleo precisava crescer antes de o gás do disco se dissipar. A água é só uma das substâncias que congelam em lugares diferentes do disco, cada uma com sua própria linha.

A água da Terra e o problema da linha de neve

A Terra tem no máximo cerca de 0,1% de água em massa. Segundo Morbidelli e colegas, que citam Marty (2012), isso combina com um planeta formado sobretudo de planetesimais secos locais. O que não está claro é por que o interior continuou seco depois de esfriar.

Por que o gelo ajuda a formar gigantes

Num modelo de disco de massa mínima, o gelo além da linha de neve eleva a densidade de sólidos por um fator de cerca de 4, e a massa dos embriões de crescimento mais rápido varia com essa densidade elevada a 3/2 (Lecar et al.). Isso importa porque o núcleo de um gigante, de cerca de 10 massas da Terra, precisa se formar em 1 a 10 milhões de anos. Colisões entre planetesimais de quilômetros são lentas; simulações de acreção de seixos encurtam o tempo por fatores de 30 a 1.000 a 5 UA, em condições específicas do disco (Lambrechts e Johansen).

Uma linha que se move e que não tem lugar único

A linha de neve não é fixa. Ela é uma curva que varia com a altura no disco, e no plano médio ela recua para perto do Sol conforme o disco perde massa e esfria: cerca de 3 UA numa fase inicial, cerca de 1 UA depois, segundo modelos citados por Morbidelli et al. Num disco de massa mínima, Lecar et al. obtiveram 1,6 a 1,8 UA, enquanto os asteroides apontam para cerca de 2,7 UA. A incerteza vem dos parâmetros do disco, não de um erro de conta.

Como sabemos: asteroides e meteoritos

As pistas vêm de dois lugares. No cinturão de asteroides, os de tipo C, ricos em gelo, são abundantes na parte externa e a parte interna é pobre em água; é daí que vem a estimativa de cerca de 2,7 UA, evidência que já foi questionada (Lecar et al.). Nos meteoritos de ferro, isótopos de molibdênio e tungstênio revelam dois reservatórios separados entre cerca de 1 e 3 a 4 milhões de anos após o início do Sistema Solar. Kruijer et al. veem em Júpiter o mecanismo mais plausível dessa separação, mas a divisão também poderia refletir mudança de composição do disco.

Onde a explicação simples não basta

Dizer que o interior é rochoso porque era quente demais para o gelo é uma simplificação. O disco também esfriou no interior antes de o gás sumir, mas a Terra tem no máximo cerca de 0,1% de água em massa e os condritos ordinários têm muito pouca. Esse é o problema da linha de neve. Morbidelli et al. propõem que o gás perto da linha já vem seco e que o gelo só chegaria por deriva de partículas, interrompida por um precursor de Júpiter acima de 20 massas terrestres. É uma hipótese em discussão, não consenso.

Como sabemos

O conceito e a ordem de grandeza são sólidos, mas boa parte do mecanismo (valor da linha, por que o interior ficou seco) vem de modelos e hipóteses em discussão.

Em debate: A linha de neve explica por que o gelo era abundante longe do Sol, mas o disco esfriou também no interior antes de o gás sumir. Propostas incluem o bloqueio da deriva de gelo por um núcleo gigante (Morbidelli et al., 2016) e outras citadas por eles, sem consenso.

Fontes

  1. The Astrophysical Journal 640, 1115 — On the Location of the Snow Line in a Protoplanetary Disk
    Lecar, M.; Podolak, M.; Sasselov, D.; Chiang, E. · 2006 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1086/500287
  2. Icarus 267 — Fossilized condensation lines in the Solar System protoplanetary disk
    Morbidelli, A.; Bitsch, B.; Crida, A.; Gounelle, M.; Guillot, T.; Jacobson, S.; Johansen, A.; Lambrechts, M.; Lega, E. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.icarus.2015.11.027
  3. Astronomy & Astrophysics 544, A32 — Rapid growth of gas-giant cores by pebble accretion
    Lambrechts, M.; Johansen, A. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1051/0004-6361/201219127
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences 114(26) — Age of Jupiter inferred from the distinct genetics and formation times of meteorites
    Kruijer, T. S.; Burkhardt, C.; Budde, G.; Kleine, T. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1704461114
  5. The Astrophysical Journal Letters 743, L16 — The effects of snowlines on C/O in planetary atmospheres
    Öberg, K. I.; Murray-Clay, R.; Bergin, E. A. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1088/2041-8205/743/1/L16
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)

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