Linguística
Cerca de 30% das línguas vivas do mundo são faladas na África
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
O Ethnologue, catálogo de referência das línguas do mundo, registra 7.170 línguas vivas; 2.167 delas estão na África, quase um terço do total. Desde o linguista Joseph Greenberg, em 1963, elas costumam ser divididas em quatro grandes famílias: Níger-Congo, Afro-Asiática, Nilo-Saariana e Khoisan. Só a Níger-Congo passa de mil línguas, mais que qualquer outra família do planeta. Mas duas das quatro, Khoisan e Nilo-Saariana, são hoje contestadas pelos especialistas.
Uma família linguística é um conjunto de línguas que descendem de um ancestral comum, demonstrado por correspondências regulares de sons e de gramática. A família Afro-Asiática é bem estabelecida e inclui ramos como o semítico (árabe, amárico), o chádico (hauçá), o cuchítico (somali), o berbere e o egípcio, do qual o copta é a forma tardia. Dentro do bloco Níger-Congo, o núcleo mais seguro é o Atlântico-Congo, que reúne o iorubá, o igbo e as línguas bantas, como o suaíli, o zulu e o quimbundo. Uma filogenia de cerca de 400 línguas bantas indica que sua expansão saiu do centro-oeste da África há cerca de 5 mil anos. Já o 'Khoisan' reunia línguas com uso intenso de cliques no sul e no leste do continente; hoje os especialistas reconhecem ali três famílias distintas.
O catálogo mais cético
O Glottolog, catálogo de línguas mantido pelo Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, adota um critério mais restrito que o Ethnologue e não lista Níger-Congo, Nilo-Saariana nem Khoisan como famílias. Em seu lugar aparecem famílias independentes, como Atlântico-Congo, Mande, Nilótica, Sudânica Central, Songai, Khoe-Kwadi, Tuu e Kx'a.
Contar línguas não é simples
Quantas línguas há na África depende de onde se traça a fronteira entre língua e dialeto. O Ethnologue registra 2.167 línguas vivas no continente: 900 no oeste, 674 na região central, 443 no leste, 102 no norte e 48 no sul. Com 7.170 línguas no mundo, a fatia africana é de cerca de 30%. Outros catálogos, como o Glottolog, usam critérios próprios e chegam a números um pouco diferentes. O que não muda entre eles é a ordem de grandeza: a África concentra uma parte enorme da diversidade linguística humana.
O esquema de Greenberg
Em 1963, o linguista Joseph Greenberg publicou 'The Languages of Africa', que distribuiu as línguas do continente em quatro grandes grupos: Níger-Cordofaniana (depois chamada Níger-Congo), Afro-Asiática, Nilo-Saariana e Khoisan. O esquema ainda organiza mapas e aparece em estudos de genética de populações, como as revisões de Sarah Tishkoff e colegas de 2008 e 2014, que agrupam os povos africanos pelas quatro famílias. Mas parentesco linguístico precisa ser demonstrado, língua a língua, por correspondências regulares de sons e de gramática. Quando esse trabalho foi feito em detalhe, nas décadas seguintes, parte dos agrupamentos de Greenberg se confirmou e parte não.
Afro-Asiática: a família mais segura
A família Afro-Asiática é aceita mesmo pelos catálogos mais rigorosos. Seus ramos são o semítico, o chádico, o cuchítico, o berbere, o egípcio e o omótico. Exemplos de cada ramo: o árabe e o amárico (semíticos), o hauçá (chádico), o somali (cuchítico), as línguas berberes, como o tarifit do Rif, e o egípcio antigo, cuja forma tardia é o copta. O Glottolog também registra o árabe egípcio, uma variedade moderna do árabe, distinta do egípcio antigo.
Níger-Congo e a expansão banta
Níger-Congo é a maior família do mundo em número de línguas, segundo o Ethnologue, com mais de mil. O núcleo mais bem demonstrado é o Atlântico-Congo, que inclui o iorubá, o igbo e as línguas bantas. Estas se espalharam por uma área imensa ao sul do equador. Uma filogenia datada de cerca de 400 línguas bantas, publicada na PNAS em 2015, indica que a expansão começou no centro-oeste da África há cerca de 5 mil anos e seguiu corredores de savana, com a floresta tropical atrasando a migração.
Khoisan e Nilo-Saariana em revisão
Greenberg reuniu num único filo, o Khoisan, as línguas de clique do sul da África e duas da Tanzânia, o hadza e o sandawe. Hoje os especialistas reconhecem no sul três famílias distintas: Kx'a, Tuu e Khoe-Kwadi. O hadza não tem parentesco demonstrável com elas, e o sandawe talvez se ligue à Khoe-Kwadi, o que ainda precisa de confirmação. A família Nilo-Saariana enfrenta dúvida parecida: o Glottolog lista seus ramos, como Nilótica, Sudânica Central e Songai, como famílias separadas, enquanto outros linguistas mantêm a hipótese de uma origem comum.
Como sabemos
Os números vêm do Ethnologue e as classificações de catálogos e artigos acadêmicos; as famílias contestadas estão apresentadas como tal.
Em debate: Khoisan: Greenberg (1963) reuniu num só filo as línguas de clique do sul e do leste da África; os especialistas atuais reconhecem três famílias no sul (Kx'a, Tuu, Khoe-Kwadi) e tratam hadza e sandawe à parte. 'Khoisan' sobrevive como rótulo geográfico e cultural.
Em debate: Nilo-Saariana: a unidade da família proposta por Greenberg é questionada; o Glottolog, por exemplo, lista seus ramos como famílias separadas, enquanto outros linguistas mantêm a hipótese.
Em debate: Níger-Congo: o núcleo Atlântico-Congo é bem demonstrado, mas a inclusão de grupos como Mande no mesmo tronco não é aceita por todos.
Em debate: Contagem de línguas: separar língua de dialeto é em parte convencional; Ethnologue e Glottolog chegam a totais diferentes.
- Fato estabelecido: O Ethnologue registra 7.170 línguas vivas no mundo. [1]
Contagem do Ethnologue consultada em outubro de 2026; o número muda a cada edição. - Fato estabelecido: O Ethnologue registra 2.167 línguas vivas na África (102 no norte, 443 no leste, 674 na região central, 900 no oeste e 48 no sul). [2]
A contagem de línguas depende de critérios para separar língua e dialeto; outros catálogos dão números diferentes. - Estimativa: As línguas africanas correspondem a quase um terço (cerca de 30%) das línguas do mundo. [1] [2] [5]
2.167 / 7.170 = 30,2%. Campbell e Tishkoff (2008) falam em 'quase um terço'. - Fato estabelecido: As línguas africanas foram classificadas em quatro grandes famílias: Níger-Cordofaniana (Níger-Congo), Afro-Asiática, Nilo-Saariana e Khoisan. [5] [6]
- Fato estabelecido: A classificação em quatro famílias remonta a Joseph Greenberg, 'The Languages of Africa' (1963). [6] [4]
- Fato estabelecido: Níger-Congo é a maior família linguística do mundo em número de línguas, com mais de mil. [3]
Segundo o Ethnologue, Níger-Congo e Austronésia passam de mil línguas cada; Níger-Congo é a primeira da lista. - Consenso científico: Os especialistas reconhecem hoje três famílias distintas entre as línguas khoisan do sul da África: Kx'a, Tuu e Khoe-Kwadi. [4] [8]
- Evidência forte: Não há parentesco demonstrável entre o hadza (Tanzânia) e as línguas khoisan do sul; o sandawe talvez se relacione com a família Khoe-Kwadi, o que ainda precisa ser confirmado. [4]
- Fato estabelecido: As línguas chamadas khoisan se caracterizam pelo uso intenso de consoantes de clique. [4] [5]
- Em debate: A unidade da família Nilo-Saariana é contestada; o Glottolog trata Nilótica, Sudânica Central e Songai como famílias independentes. [8]
Há linguistas que defendem a unidade nilo-saariana; o Glottolog adota critério conservador. - Fato estabelecido: O Glottolog não reconhece Níger-Congo como família demonstrada; trata Atlântico-Congo e Mande como famílias independentes. [8]
- Fato estabelecido: O Glottolog é mantido pelo Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva. [8]
- Consenso científico: A família Afro-Asiática inclui os ramos semítico, chádico, cuchítico, berbere, egípcio e omótico. [7]
- Consenso científico: Árabe e amárico são línguas semíticas; o hauçá é chádico; o somali é cuchítico; o copta é a forma tardia do egípcio. [7]
- Consenso científico: Iorubá, igbo, suaíli, zulu e quimbundo pertencem à família Atlântico-Congo; suaíli, zulu e quimbundo são línguas bantas. [8] [9]
- Estimativa: A expansão banta começou no centro-oeste da África há cerca de 5 mil anos, segundo uma filogenia datada de cerca de 400 línguas bantas. [9]
Data aproximada derivada de filogenia linguística datada. - Consenso científico: Uma família linguística é demonstrada por correspondências regulares de sons e de gramática entre as línguas. [8]
O próprio Glottolog cita, para Atlântico-Congo, as correspondências sonoras regulares e os sistemas de classes nominais como base. - Fato estabelecido: As revisões de Campbell e Tishkoff (2008) e Gomez, Hirbo e Tishkoff (2014) usam a divisão em quatro famílias para agrupar populações africanas. [5] [6]
- Fato estabelecido: O tarifit (riffiano) é uma língua berbere e o árabe egípcio é registrado no ramo semítico da família Afro-Asiática. [7]
- Evidência forte: Segundo Grollemund et al. (2015), os falantes de línguas bantas seguiram corredores de savana, e a floresta tropical atrasou a migração, em média, 300 anos. [9]
Fontes
- Ethnologue: Languages of the World — How many languages are there in the world?
consultada em 03/10/2026 - Ethnologue: Languages of the World — Africa (região)
consultada em 03/10/2026 - Ethnologue: Languages of the World — What are the largest language families?
consultada em 03/10/2026 - Human Molecular Genetics — The genomic prehistory of peoples speaking Khoisan languages
consultada em 03/10/2026 - Annual Review of Genomics and Human Genetics — African genetic diversity: implications for human demographic history, modern human origins, and complex disease mapping
consultada em 03/10/2026 - Cold Spring Harbor Perspectives in Biology — Genetic variation and adaptation in Africa: implications for human evolution and disease
consultada em 03/10/2026 - Glottolog 5.3, Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology — Afro-Asiatic (afro1255)
consultada em 03/10/2026 - Glottolog 5.3, Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology — Atlantic-Congo (atla1278) e famílias de nível superior (Mande, Nilotic, Central Sudanic, Songhay, Khoe-Kwadi, Tuu, Kxa)
consultada em 03/10/2026 - PNAS — Bantu expansion shows that habitat alters the route and pace of human dispersals
consultada em 03/10/2026
Histórico de alterações
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