Zoologia

Por que a língua da serpente é bifurcada: a hipótese do olfato em estéreo e o teste que não a confirmou

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

A língua bifurcada recolhe substâncias do ambiente e as leva ao órgão vomeronasal, no céu da boca. Schwenk (1994) propôs que as duas pontas amostram dois pontos da trilha química, uma espécie de olfato em estéreo. Num teste com cascavéis (Crotalus oreganus), cortar o nervo vomeronasal de um só lado não alterou nenhum dos sete parâmetros de rastreamento de presa medidos, e a hipótese ficou sem apoio.

Serpentes e alguns lagartos cheiram com a língua: ela se projeta, recolhe partículas do ar ou do chão e as entrega aos dois órgãos vomeronasais, estruturas pareadas no céu da boca que detectam substâncias químicas. Num estudo anatômico brasileiro com quatro jiboias, a língua media cerca de 6,2 cm e terminava em duas pontas. A hipótese de Kurt Schwenk, de 1994, trata as pontas como um detector de borda química: ao seguir um rastro, uma ponta poderia ficar sobre ele e a outra fora, e a diferença indicaria para que lado virar. Em 2008, Parker, Young e Kardong testaram essa ideia cortando o nervo vomeronasal de um lado só. Se a comparação entre as pontas fosse necessária, o rastreamento deveria piorar. Não piorou.

A ponta da língua da jiboia tem músculos em três direções

Na jiboia (Boa constrictor), a ponta bifurcada tem fibras musculares longitudinais, transversais e verticais. Os autores do estudo anatômico, feito com quatro animais encontrados mortos no Pará, ligam esse arranjo aos movimentos oscilatórios rápidos da língua.

Como a língua entrega o cheiro

Segundo Baeckens e colegas (2017), a língua coleta substâncias do chão ou do ar e as entrega aos órgãos vomeronasais pareados, no céu da boca. Na jiboia, o estudo anatômico mostra uma língua com ponta bifurcada e músculos em três direções nessa ponta. A literatura citada por Baeckens relaciona línguas muito bifurcadas a órgãos vomeronasais grandes, mas essa é uma associação entre grupos, não uma prova de como cada ponta é usada.

A hipótese do olfato em estéreo

Schwenk (1994) propôs que a bifurcação seria um detector químico de borda: amostrar dois pontos ao mesmo tempo daria a posição da trilha de forma imediata. Chamamos a ideia de olfato em estéreo por analogia com ouvir por dois ouvidos; na literatura, o nome é tropotaxia, a comparação da intensidade do sinal entre os dois lados do corpo. Schwenk também notou que línguas bifurcadas aparecem sempre associadas à busca ampla de alimento, mas isso é correlação entre grupos.

Como sabemos: o teste do nervo cortado

Parker, Young e Kardong (2008) partiram de uma previsão que podia falhar: se a serpente depende da comparação entre as pontas, tirar a informação de um lado deveria atrapalhar o rastreamento. Eles cortaram os nervos vomeronasais de um lado em cascavéis (Crotalus oreganus) e mediram sete parâmetros de rastreamento de presa. Nenhum mudou. Lemos só o resumo do estudo, então amostra e parâmetros específicos ficam para quem abrir o artigo completo.

O que o teste não resolve

O resultado vale para uma espécie e um contexto, o rastreamento de presas; o resumo não aborda trilhas de parceiros nem outras espécies. Os autores sugerem que a língua bifurcada pode apenas ampliar a área de amostragem, e dizem que cobras e lagartos derivados detectariam só a concentração das trilhas. Baeckens e colegas (2017) resumem que a evidência sobre a função dessas línguas é limitada. Hipótese testada, portanto, não equivale a hipótese encerrada.

Como sabemos

O resultado experimental e a hipótese vêm de resumos oficiais (PubMed); o contexto anatômico vem de artigos abertos lidos.

Em debate: Schwenk (1994) propôs um detector de borda química; o teste de Parker et al. (2008) em cascavéis não achou apoio e sugeriu, como alternativa, maior área de amostragem. Baeckens et al. (2017) dizem que a evidência sobre a função é limitada.

Fontes

  1. Journal of Comparative Psychology — The forked tongue and edge detection in snakes (Crotalus oreganus): an experimental test
    Parker, M. R.; Young, B. A.; Kardong, K. V. · 2008 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1037/0735-7036.122.1.35
  2. Science — Why snakes have forked tongues
    Schwenk, K. · 1994 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.263.5153.1573
  3. Scientific Reports — Evolutionary morphology of the lizard chemosensory system
    Baeckens, S.; Herrel, A.; Broeckhoven, C.; Vasilopoulou-Kampitsi, M.; Huyghe, K.; Goyens, J.; Van Damme, R. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-017-09415-7
  4. Veterinary Research Communications (Universidade Federal Rural da Amazônia) — Morphological description of the tongue of the Boa constrictor
    Gonçalves, T. C.; Chaves, I. B. P.; Rodrigues, R. A. R.; Giese, E. G.; Branco, E.; de Lima, A. R. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s11259-026-11248-7
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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