Arqueologia

Como o lidar e os geoglifos do Acre revelam obras humanas escondidas sob a floresta

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

O lidar dispara pulsos de laser de um avião; parte deles atravessa as frestas da copa, volta do chão e permite desenhar o relevo sem a vegetação. É assim que aparecem valas e aterros geométricos que a mata esconde. Uma estimativa de 2023 aponta entre 10.272 e 23.648 obras de terra por descobrir na Amazônia; um levantamento de 2024 no Acre e no Amazonas já documentou 432.

Geoglifos são recintos de terra com formas geométricas (círculos, quadrados, polígonos), cercados por valas e aterros. Os do Acre ficaram conhecidos quando o desmatamento os deixou visíveis; o primeiro registro no estado é de 1977. Lidar (do inglês light detection and ranging) mede a distância até o alvo pelo tempo de ida e volta de pulsos de laser. Sobre a mata, cada pulso pode devolver vários ecos, do topo das árvores ao solo; os de solo, depois de separados por software, formam um modelo digital do terreno. Uma estimativa estatística, ao contrário, não observa obras: calcula quantas devem existir onde ninguém olhou.

Cinco vezes mais

Nas mesmas linhas de voo, em áreas já desmatadas da região de Rio Branco, o lidar achou 156 obras onde imagens de satélite tinham mostrado 30. Isso sugere que a contagem por satélite subestima o total, mesmo onde há clareira.

Como o laser chega ao chão da mata

O sensor fica no avião e emite pulsos de laser; o tempo de volta de cada eco dá a distância, e um receptor de satélite com unidade inercial dá a posição. Na floresta, só parte dos pulsos passa entre folhas e galhos. No estudo de 2024, o voo foi a cerca de 1.125 m do solo e a densidade média foi de 31,2 pontos por m². Com os retornos de solo classificados, o software gera o modelo digital do terreno, em que se procuram as obras.

Como sabemos o que o lidar vê, e o que escapa

O lidar não é infalível. Na área sobrevoada a oeste de 66° W, 41,9% do terreno não teve pontos suficientes para visualizar obras comuns, e obras grandes, com valas fundas, ficaram totalmente invisíveis em 11,3% da área. Por isso a conta usa dois números: o que foi detectado e a fração em que a detecção era possível. A comparação com o satélite (156 contra 30) mostra o ganho do método nas áreas desmatadas.

O que é medido e o que é modelado

Medido: 432 obras documentadas em 2024, 36 delas já conhecidas. Modelado: os totais. Peripato e colegas (2023) calcularam 10.272 a 23.648 sítios ainda por achar na Amazônia; Pärssinen e colegas (2026) extrapolaram cerca de 23.760 só para o sudoeste, a partir de faixas de 1 km. Esses números dependem de a amostra representar o resto, e nos 800 km entre o Purus e o Juruá nada foi detectado, sem que se saiba se por ausência ou por mata densa.

O que as obras indicam sobre a ocupação

Os geoglifos são recintos com valas de 9 a 13 m de largura e até 5 m de profundidade, construídos entre cerca de 600 a.C. e 850 d.C. Análises em dois sítios indicam clareiras pequenas e temporárias numa floresta já manejada (Watling et al., 2017). A população de 1,25 a 3 milhões em 100-300 d.C. é cenário calculado com 300 pessoas por obra, e deve ser lida como hipótese.

Como sabemos

O método e as medições de 2024 estão em artigo de acesso aberto; o artigo de 2023 foi lido só no resumo e o de 2026 é recente e ainda pouco comentado.

Fontes

  1. Nature — Over 20,000 precolonial earthworks in the Southwest Amazonia
    Pärssinen, M. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-026-10835-7
  2. Science — More than 10,000 pre-Columbian earthworks are still hidden throughout Amazonia
    Peripato, V. et al. · 2023 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.ade2541
  3. NOAA National Ocean Service — What is lidar?
    NOAA National Ocean Service · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences — Impact of pre-Columbian "geoglyph" builders on Amazonian forests
    Watling, J. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1614359114
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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