História da África

Leopoldo II fez do Congo sua propriedade pessoal, e o regime da borracha custou milhões de vidas, segundo as estimativas

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

De 1885 a 1908, o Estado Livre do Congo não pertenceu à Bélgica, mas ao rei Leopoldo II. Nas concessões de borracha, cada homem de uma aldeia tinha de entregar cerca de 4 kg de borracha seca a cada duas semanas. Quem falhava apanhava de chicote, era preso ou morto; mulheres e filhos ficavam reféns até a cota chegar. Os guardas armados tinham de prestar contas de cada bala com uma mão humana. O museu belga da África Central fala em perdas que podem chegar a vários milhões de pessoas.

O sistema foi montado por decreto. Em 1891 e 1892, Leopoldo declarou propriedade do Estado todas as terras e matérias-primas do Congo, dividiu o país em concessões a empresas privadas e reservou para si um domínio próprio, o Domínio da Coroa. Nas duas maiores concessões de borracha, a ABIR e a Anversoise, o próprio rei era o acionista majoritário. A demanda nasceu longe dali, com o pneu de borracha inflável, inventado na Europa por volta de 1890. Para os povos do Alto Congo, a borracha virou imposto pago com trabalho forçado: em Baringa, os homens passavam cerca de 10 de cada 14 dias na floresta atrás de cipós de borracha, sem tempo para as roças. Vieram a fome e as epidemias, como a doença do sono. Chefes que resistiam eram presos, substituídos ou mortos; em julho de 1902, 44 chefes estavam presos nas aldeias em volta de um único posto.

A versão do javali

Casement registrou o caso de um jovem cuja mão fora cortada por um guarda da companhia La Lulanga. O governo do Estado Livre respondeu com um inquérito próprio: o rapaz, Epondo, teria perdido a mão na mordida de um javali, e os congoleses teriam enganado o cônsul para não trabalhar.

Um país como propriedade de um homem

O Estado Livre do Congo nasceu em 1885 como colônia pessoal de Leopoldo II, não do Estado belga. Para torná-lo lucrativo, o rei declarou em 1891 e 1892 que terras e matérias-primas pertenciam ao Estado. O país foi repartido: concessões a empresas privadas, um Domínio da Coroa para o próprio rei e áreas ditas de livre comércio. Na ABIR, que explorava a bacia dos rios Maringa e Lopori, e na Anversoise, no rio Mongala, Leopoldo era o maior acionista. O Estado ficava com parte dos lucros; os povos que viviam ali não eram consultados.

A cota, o refém e a mão

Agentes europeus recenseavam os homens de cada aldeia e fixavam a cota: cerca de 4 kg de borracha seca a cada duas semanas. A borracha vinha de cipós cada vez mais raros, e a coleta tomava dias. Guardas recrutados longe dali, de 25 a 80 com fuzis em cada posto e mais 65 a 100 nas aldeias, cobravam a cota. Quem falhava ia para a prisão ou para o chicote; mulheres e filhos eram presos como reféns. Para provar que não desperdiçavam munição, os guardas apresentavam uma mão humana por bala usada.

Quem denunciou

Em 1903, o cônsul britânico Roger Casement subiu o rio Congo e ouviu os moradores. Seu relatório, publicado pelo Parlamento britânico em fevereiro de 1904, descreve aldeias abandonadas, mulheres mantidas reféns e jovens com a mão cortada por guardas. Em Lukolela, distrito que tinha cerca de 5.000 habitantes quando ele passou por lá em 1887, a contagem de 1903 dava menos de 600. O governo de Leopoldo respondeu com inquéritos próprios, acusando os congoleses de mentir ao cônsul. Em maio de 1904, Alice Seeley Harris e John Hobbis Harris fotografaram Nsala de Wala com o que restara da filha.

Quem lucrou e quanto

O próprio governo do Estado Livre se gabava: de cerca de 30 toneladas de borracha exportadas em 1887, passara a oferecer 5.000 toneladas por ano. Em 1908, na Câmara dos Comuns britânica, deputados afirmaram que mais de 3 milhões de libras haviam saído do Domínio da Coroa e que 1,2 milhão fora investido em imóveis na Bélgica, enquanto o congolês recebia pouco mais de 1 franco por 3 kg de borracha vendidos a 37 francos em Antuérpia. Esgotada a borracha, a ABIR e a Anversoise saíram em 1906, e em 1908 o Congo passou ao Estado belga.

Como sabemos

O sistema de concessões, as cotas, os reféns e as mutilações estão em documento oficial britânico de 1904 e em pesquisa acadêmica recente; o número de mortos está marcado como estimativa e debate.

Em debate: Número de mortos: sem censo, as estimativas vão de centenas de milhares a 10 milhões. O limite alto (Hochschild, 1998; Vansina, 2010, citados por Lowes e Montero) supõe queda de cerca de metade da população; o AfricaMuseum fala em 'vários milhões' segundo historiadores belgas e congoleses; o demógrafo Jean-Paul Sanderson (UCLouvain) mostra que nem as fontes coloniais nem as críticas tinham base estatística sólida. O debate é sobre a escala, não sobre a violência do regime, que é documentada.

Em debate: Causas das mortes: parte dos historiadores atribui a maior parcela à fome, à queda da natalidade e a epidemias (como a doença do sono) agravadas pelo trabalho forçado, e não a assassinatos diretos; o AfricaMuseum lista todas essas causas juntas.

Fontes

  1. National Bureau of Economic Research e Stanford King Center on Global Development — Concessions, Violence, and Indirect Rule: Evidence from the Congo Free State (Working Paper 27893 / King Center WP 1079)
    consultada em 05/10/2026
  2. Parlamento do Reino Unido (Command Paper, fevereiro de 1904), transcrição do Project Gutenberg — Africa No. 1 (1904): Correspondence and Report from His Majesty's Consul at Boma respecting the Administration of the Independent State of the Congo (texto integral, com a resposta do governo do Estado Livre)
    consultada em 05/10/2026
  3. AfricaMuseum (Museu Real da África Central, Tervuren, Bélgica) — The viewpoints of the museum
    consultada em 05/10/2026
  4. Hansard, Câmara dos Comuns do Reino Unido — Congo Free State, debate de 26 de fevereiro de 1908
    consultada em 05/10/2026
  5. Population (Institut national d'études démographiques), registro na UCLouvain — Le Congo belge entre mythe et réalité. Discours démographique colonial et analyse textuelle
    consultada em 05/10/2026
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