Evolução

Lêmures em Madagascar: a hipótese da balsa natural e as correntes do Paleógeno que a tornam plausível

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Madagascar fica a no mínimo 400 km da África, e as evidências reunidas contra uma ponte de terra levam à hipótese de que os ancestrais dos lêmures cruzaram o canal de Moçambique sobre vegetação flutuante. Um modelo de paleocorrentes indica correntes favoráveis a essa travessia no início do Cenozoico, e relógios moleculares estimam a chegada há cerca de 50 a 54 milhões de anos. É uma inferência: o registro fóssil da ilha não cobre esse intervalo.

Madagascar tem mamíferos de origem africana, mas está separada do continente por um mar de pelo menos 400 km desde que as placas se afastaram. Duas explicações disputaram o tema: uma ponte ou cadeia de terra, que permitiria a travessia a pé, e a dispersão pelo mar, em que poucos animais chegam, por acaso, sobre troncos e tapetes de vegetação à deriva. George Gaylord Simpson chamou essa segunda ideia de hipótese do sorteio (sweepstakes). Ela só funciona se as correntes de então levassem do continente para a ilha, e o Paleógeno é o período (de 66 a 23 milhões de anos atrás) em que os ancestrais de vários grupos devem ter chegado. Como quase não há fósseis terrestres desse intervalo na ilha, a prova é indireta: modelos físicos das correntes e datas estimadas pelo relógio molecular.

Um mês no mar

Com correntes de 13 a 23 cm/s, uma balsa de vegetação cruzaria o canal em até 30 dias, segundo o modelo. A conta de 400 km em 30 dias dá cerca de 15 cm/s, dentro dessa faixa.

Como sabemos: correntes de 50 milhões de anos atrás, modeladas

Ninguém mediu as correntes do Eoceno. Ali e Huber (2010) combinaram reconstruções de onde ficavam os continentes com um modelo de circulação oceânica e obtiveram fluxo para leste, da Tanzânia e do norte de Moçambique rumo a Madagascar, no Paleógeno. O resultado mostra que a rota era fisicamente possível. Como é uma simulação, depende das reconstruções e das premissas do modelo, e por isso a conclusão correta é plausibilidade, não prova de que um grupo específico fez a viagem.

A data de chegada vem de relógios moleculares, não de fósseis

As idades de 50 a 54 milhões de anos para os lêmures saem de comparações de DNA entre espécies atuais, calibradas por fósseis de outros lugares. Cada divergência genética é convertida em tempo por uma taxa de mutação estimada, e isso carrega margem de erro grande. Segundo a revisão de Samonds e colegas (2013), tenrecs, carnívoros e roedores chegaram depois, nessa ordem. A ordem é mais firme do que as datas exatas. Os fósseis terrestres da ilha vão do Permiano ao Cretáceo e depois só aos últimos 80 mil anos, sem cobrir o intervalo em que a chegada ocorreu.

Uma colonização ou duas? Os fósseis africanos que mudam a conta

Durante décadas, tratou-se como certo que todos os lêmures descendem de uma única chegada. Gunnell e colegas (2018) reexaminaram o fóssil Propotto, do Mioceno do Quênia, antes visto como morcego, e o Plesiopithecus, do Eoceno do Egito, e os ligaram ao aie-aie. Se a análise estiver certa, o ramo do aie-aie teria saído da África por conta própria, numa segunda travessia. É uma hipótese baseada em dentes e crânios incompletos, e o modelo de colonização única continua em discussão.

A mesma ideia explica macacos que cruzaram o Atlântico?

Para os macacos da América do Sul, a hipótese é parecida: grupos pequenos de primatas africanos teriam atravessado o Atlântico em ilhas flutuantes perto da transição Eoceno-Oligoceno, como resumem Marivaux e colegas (2023). Lá o debate é sobre a idade: Campbell e colegas (2021) datam o sítio de Santa Rosa, no Peru, em cerca de 29,6 milhões de anos e não veem primatas eocenos confirmados na América do Sul. Em ambos os casos a travessia é inferida, nunca observada.

Como sabemos

A travessia por balsa é a explicação mais aceita e é apoiada por modelo físico e datas moleculares, mas não há fóssil da travessia, as datas são estimativas e há debate sobre uma ou duas colonizações.

Em debate:

Fontes

  1. Nature — Mammalian biodiversity on Madagascar controlled by ocean currents
    Ali, J. R.; Huber, M. · 2010 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature08706
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences — Spatial and temporal arrival patterns of Madagascar's vertebrate fauna explained by distance, ocean currents, and ancestor type
    Samonds, K. E. et al. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1113993109
  3. PLoS ONE — Imperfect isolation: factors and filters shaping Madagascar's extant vertebrate fauna
    Samonds, K. E. et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0062086
  4. Nature Communications — Fossil lemurs from Egypt and Kenya suggest an African origin for Madagascar's aye-aye
    Gunnell, G. F. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-018-05648-w
  5. Proceedings of the National Academy of Sciences — An eosimiid primate of South Asian affinities in the Paleogene of Western Amazonia and the origin of New World monkeys
    Marivaux, L. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2301338120
  6. Proceedings of the National Academy of Sciences — An Early Oligocene age for the oldest known monkeys and rodents of South America
    Campbell, K. E.; O'Sullivan, P. B.; Fleagle, J. G.; de Vries, D.; Seiffert, E. R. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2105956118
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)

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