Evolução

A mitocôndria veio cedo ou tarde? O debate sobre a complexidade do último ancestral dos eucariotos

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Origem da vida

Dois estudos com árvores de genes chegam a conclusões opostas. Em 2016, um deles concluiu que a mitocôndria chegou tarde, a um hospedeiro que já tinha genes de origens bacterianas diversas. Em 2021, outro concluiu que chegou cedo, e que cópias de genes do endossimbionte teriam impulsionado a complexidade. O debate segue aberto, e cada lado lê os mesmos tipos de dado de modo diferente.

Todos os eucariotos (animais, plantas, fungos, protistas) descendem do LECA, sigla em inglês para o último ancestral comum eucariótico, que já tinha mitocôndrias. A mitocôndria veio de uma bactéria e o hospedeiro foi uma arqueia; a prova da origem bacteriana está em outro post. A pergunta aqui é a ordem dos eventos: no cenário 'cedo', a endossimbiose (uma célula vivendo dentro de outra) impulsionou a complexidade de um hospedeiro simples; no cenário 'tarde', o hospedeiro já era complexo. Como não há intermediários conhecidos entre os dois extremos, a resposta vem de comparar genes de eucariotos e de procariontes.

O LECA é um alvo largo no tempo

O LECA é datado em cerca de 1,6 bilhão de anos, mas a transição de arqueias para eucariotos pode ter começado entre 1,8 e 2,7 bilhões de anos atrás: um intervalo de quase um bilhão de anos para o que veio antes dele.

Como o estudo de 2016 mede 'cedo' e 'tarde'

Pittis e Gabaldón compararam árvores de genes de eucariotos e de procariontes e mediram o 'tronco': a distância entre uma família de proteínas do LECA e seu parente procarionte mais próximo. A ideia é que uma família adquirida mais recentemente tem tronco mais curto. As famílias de origem alfaproteobacteriana e de localização mitocondrial tiveram os menores troncos. Os autores leem isso como mitocôndria tarde, mas escrevem que o resultado também cabe numa arqueia hospedeira já complexa.

Como o estudo de 2021 conta duplicações

Tria e colegas partiram da ideia de que duplicações de genes são um indicador de complexidade genômica. Em 150 genomas de eucariotos contaram 163.545 duplicações, das quais 713 ocorreram no LECA. Entre as famílias do LECA, as de origem bacteriana tiveram excesso de duplicatas. Os autores interpretam isso como cópias seriadas de genes do endossimbionte para os cromossomos do hospedeiro, e concluem a favor de mitocôndria cedo. É uma inferência de mecanismo, não uma observação direta.

Onde as duas leituras se desencontram

O ponto central é o que os rótulos bacterianos dos genes indicam. Em 2016, a diversidade de grupos bacterianos sugere aquisições anteriores à mitocôndria. Em 2021, argumenta-se que a transferência de genes entre procariontes embaralha os rótulos e cria a ilusão de muitos doadores. A revisão de Martin e colegas (2015) defende um hospedeiro simples e uma mitocôndria precoce, mas é do mesmo instituto do estudo de 2021, então os dois não contam como evidências independentes.

O que segue em aberto

O ramo entre o primeiro e o último ancestral comum dos eucariotos é longo e sem intermediários, e uma revisão de 2024 diz que o momento e as forças da emergência da complexidade seguem pouco compreendidos. Parentes arqueanos atuais cultivados, como a Asgard MK-D1, são simples, mas isso não prova que o hospedeiro antigo também era. O outro post desta série trata dessa arqueia.

Como sabemos

Os resultados numéricos de cada estudo foram conferidos com trechos literais; o debate entre os cenários segue aberto e duas das quatro fontes foram lidas só em resumo.

Em debate:

Em debate:

Fontes

  1. Nature — Late acquisition of mitochondria by a host with chimeric prokaryotic ancestry
    Pittis, A. A.; Gabaldón, T. · 2016-02-03 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/nature16941
  2. Genome Biology and Evolution — Gene Duplications Trace Mitochondria to the Onset of Eukaryote Complexity
    Tria, F. D. K.; Brueckner, J.; Skejo, J.; et al. · 2021-03-19 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1093/gbe/evab055
  3. Philosophical Transactions of the Royal Society B — Endosymbiotic theories for eukaryote origin
    Martin, W. F.; Garg, S.; Zimorski, V. · 2015-09-26 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2014.0330
  4. Nature — The emerging view on the origin and early evolution of eukaryotic cells
    Vosseberg, J.; van Hooff, J. J. E.; Köstlbacher, S.; Panagiotou, K.; Tamarit, D.; Ettema, T. J. G. · 2024-09-11 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41586-024-07677-6
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)

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