Ciências da Terra

Laschamp: há 41 mil anos o campo magnético quase se inverteu, e o gelo da Antártida guardou o pico

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Há cerca de 41 mil anos o campo magnético da Terra enfraqueceu até uns 20% do valor atual e quase inverteu de polaridade, num episódio de poucos milhares de anos chamado excursão de Laschamp. O gelo o guarda de forma indireta: com menos blindagem, mais raios cósmicos formaram berílio-10 na atmosfera, e a neve prendeu esse isótopo num pico datável. Se o evento mudou clima e vida, é hipótese contestada.

Uma excursão geomagnética é uma queda grande e breve da intensidade do campo, com forte desvio de direção, que não chega a uma inversão completa e duradoura (inversões completas ficam fora deste post). Laschamp aparece em lavas e sedimentos de ambos os hemisférios, o que indica um evento global. O campo é gerado pelo ferro líquido do núcleo externo e protege a atmosfera de raios cósmicos. Quando enfraquece, mais raios cósmicos atingem o ar e fabricam isótopos raros, como o berílio-10 e o carbono-14, que depois ficam guardados em gelo e sedimentos. É esse sinal indireto, e não uma bússola do passado, que o gelo antártico preserva.

O evento bagunçou até o relógio do radiocarbono

Entre 48 e 40 mil anos atrás o relógio do carbono-14 correu quase duas vezes mais rápido que o tempo real, porque o enfraquecimento do campo aumentou a produção desse isótopo. Datar achados dessa época por radiocarbono exige, por isso, uma curva de calibração especial.

Do campo fraco ao pico no gelo

O campo geomagnético desvia partículas carregadas; quando o momento de dipolo cai, a barreira fica menos eficaz e a atmosfera recebe mais raios cósmicos. Eles fragmentam átomos de oxigênio e nitrogênio e formam berílio-10, que adere a aerossóis e cai com a precipitação. Em Dome C a neve acumulada preserva esse sinal, ano a ano. Simulações sugerem que a deposição polar varia cerca de duas vezes entre um campo normal e um campo baixo como o de Laschamp.

Como sabemos: registros que concordam

A evidência não vem de um único arquivo. Lavas e sedimentos mostram a queda de intensidade; o gelo mostra o excesso de berílio-10; sedimentos oceânicos mostram o excesso da razão 10Be/9Be; e a curva do carbono-14 mostra a produção maior. Cada método tem limites: sedimentos podem distorcer a magnetização, o gelo depende da acumulação de neve e das escalas de idade, e alguns estudos fixam a idade do pico em 41 mil anos, o que reduz a independência entre eles.

Quão fraco e por quanto tempo

A estimativa derivada do berílio-10 oceânico coloca o dipolo abaixo de cerca de 20% do valor atual, com mínimo de 1,4 × 10²² A·m². O mínimo durou menos de 3 mil anos; o registro de intensidade relativa mostra cerca de 2 mil anos de oscilações, com colapso, recuperação parcial, novo colapso e recuperação. Algumas divulgações citam um mínimo de 5%; esse valor não está nas fontes lidas aqui e fica fora das afirmações.

Efeitos no clima e na vida: hipótese contestada

Cooper et al. (2021) usaram anéis de kauri da Nova Zelândia e modelos químico-climáticos para propor que o mínimo do campo, somado a mínimos solares, alterou o ozônio e causou extinções e mudanças culturais. Picin et al. (2021) contestam: gelo da Groenlândia e registros marinhos não mostram efeito climático notável, e a ligação com extinções não está demonstrada.

Como sabemos

Mecanismo e registro em gelo e sedimentos são bem sustentados; datas, intensidade mínima e efeitos ambientais têm margens ou debate.

Em debate: Cooper et al. (2021) propõem que o mínimo do campo, junto com mínimos solares, alterou ozônio e clima e provocou extinções e mudanças culturais. Picin et al. (2021) respondem que os registros de gelo e marinhos não mostram efeito climático notável e que a relação com extinções não está demonstrada. Trate como hipótese contestada.

Fontes

  1. Scientific Reports (Universidade de Florença, Universidade de Oulu e outros) — The Laschamp geomagnetic excursion featured in nitrate record from EPICA-Dome C ice core
    Traversi, R. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/srep20235
  2. Journal of Geophysical Research: Solid Earth (CEREGE, Aix-Marseille Université e outros) — Authigenic 10Be/9Be ratio signatures of the cosmogenic nuclide production linked to geomagnetic dipole moment variation since the Brunhes/Matuyama boundary
    Simon, Q. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/2016JB013335
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (CEREGE, Aix-Marseille Université e outros) — Extended dilation of the radiocarbon time scale between 40,000 and 48,000 y BP and the overlap between Neanderthals and Homo sapiens
    Bard, E. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2012307117
  4. Science (Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva e outros) — Comment on "A global environmental crisis 42,000 years ago"
    Picin, A. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.abi8330
  5. Science — A global environmental crisis 42,000 years ago
    Cooper, A. et al. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.abb8677
  6. PNAS Nexus (IGE, Université Grenoble Alpes; CRPG, Université de Lorraine) — Sulfur-isotope anomalies recorded in Antarctic ice cores as a potential proxy for tracing past ozone layer depletion events
    Dasari, S.; Paris, G.; Charreau, J.; Savarino, J. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/pnasnexus/pgac170
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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