Zoologia
Larvas de besouro acendem cupinzeiros do Cerrado: a luz seria isca para cupins e formigas alados
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
No Parque Nacional das Emas (GO), larvas do besouro Pyrearinus termitilluminans brilham nos cupinzeiros nas primeiras chuvas, quando cupins e formigas alados voam. O estudo de campo de 1982 que descreveu o fenômeno concluiu que a luz provavelmente atrai esses insetos, que a larva captura na boca do túnel. A atração foi inferida de observações, não testada com controle.
Pyrearinus termitilluminans é um besouro da família Elateridae, descrito em 1982 a partir de ninhos de cupins do gênero Cornitermes no Cerrado. A larva vive em túneis na casca dura do cupinzeiro e produz luz no segmento atrás da cabeça. Alados são cupins e formigas com asas que saem em revoada nas primeiras chuvas. Nos besouros, a luz vem de uma enzima, a luciferase, que oxida uma molécula, a luciferina, na presença de ATP e oxigênio. Desde 1850 viajantes descreviam brilhos pálidos nesses montes, mas a causa só foi ligada às larvas nos anos 1980.
Um mistério de 130 anos
Desde 1850 viajantes descreviam brilhos pálidos nos cupinzeiros do Brasil central. Fungos, bactérias e os próprios cupins foram propostos como causa, até Redford e Costa ligarem a luz às larvas do besouro, no início dos anos 1980.
Como sabemos: observação de campo, não experimento
Redford trabalhou no Parque Nacional das Emas em 1980 e 1981. Contou larvas luminosas por cupinzeiro, abriu túneis para ver as presas guardadas e ofereceu insetos com pinça às larvas. A conclusão sobre a isca vem da coincidência entre brilho, chuva e revoadas, e do fato de as larvas comerem alados. Não houve cupinzeiros com a luz bloqueada para comparar capturas. O próprio título do artigo diz função 'possível'.
Por que o brilho aparece só nas primeiras chuvas
Antes da primeira chuva de 1981, 40 cupinzeiros tinham em média 16,0 larvas luminosas; depois, 90 tinham 179,6. As revoadas de cupins e formigas alados são desencadeadas pelas primeiras chuvas, um pico curto de alimento. Redford leu o brilho como resposta evolutiva a esse pico, uma interpretação dele. Os dois grupos de cupinzeiros eram amostras diferentes, não os mesmos montes acompanhados no tempo.
Como a larva usa a luz e o túnel
A larva fica no túnel, com a parte da frente do corpo para fora, e golpeia para baixo ao pegar um alado. Em 18 de 19 câmaras laterais havia presas guardadas, 48 alados no total. A luz fica acesa por muitos minutos e se apaga quando ela entra no buraco. Redford sugeriu ainda que os adultos sejam atraídos pelas larvas até os montes, hipótese que não foi testada.
Que cor é essa
A luciferase de P. termitilluminans, produzida em laboratório, tem pico de emissão em 538 nm, na faixa do verde. Esse valor é da enzima com D-luciferina, não da luz medida na larva viva em campo. Redford descreveu a luz a olho nu como amarelo-azulada, o que lembra que a cor percebida depende de quem vê. O mecanismo químico da luz em besouros é tratado em outro texto do acervo.
Como sabemos
Os fatos observados vêm do estudo de campo de 1982 lido na íntegra, mas a função de isca é uma inferência do autor, nunca testada em experimento controlado nas fontes lidas.
- Evidência forte: As larvas de Pyrearinus termitilluminans vivem em cupinzeiros do Brasil central e produzem luz no segmento logo atrás da cabeça. [1] Resumo
Contexto: Observações de campo no Parque Nacional das Emas (GO), em 1980 e 1981, em cerrado aberto. · Limitações: Descrição de uma única localidade; o segmento é o protórax, segundo o mesmo artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A espécie foi descrita em 1982 por Cleide Costa, com localidade-tipo no Parque Nacional das Emas (GO), a partir de larvas, pupa e adultos coletados em ninhos de Cornitermes. [2] Resumo
Contexto: Descrição taxonômica original, publicada na Revista Brasileira de Zoologia 1(1). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Em 1980 e 1981, Redford observou que as larvas só brilhavam nas primeiras semanas da estação chuvosa, a mesma época das revoadas de formigas e cupins alados; o brilho começou no fim de setembro, com as primeiras chuvas. [1] Métodos e resultados
Contexto: Parque Nacional das Emas, duas estações de observação (1980 e 1981). · Limitações: Duas estações e um só parque; a coincidência com as revoadas é observada, não manipulada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em 1981, 40 cupinzeiros contados em quatro noites antes da primeira chuva tinham em média 16,0 larvas luminosas; depois da primeira chuva, 90 cupinzeiros contados em 11 dias tinham em média 179,6. [1] Métodos e resultados
Contexto: Contagens de larvas luminosas por cupinzeiro no Parque Nacional das Emas, 1981. · Limitações: Os dois grupos de cupinzeiros são amostras diferentes, contadas em períodos diferentes; não é o mesmo conjunto de montes acompanhado no tempo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A larva caça com a parte da frente do corpo para fora do túnel, exposta no lado de fora do cupinzeiro; ao atacar um alado, golpeia para baixo e recolhe-se ao buraco. [1] Métodos e resultados
Contexto: Comportamento observado em campo por Redford. · Limitações: Descrição de um autor, sem contagem de capturas por noite. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em 18 de 19 câmaras de armazenamento examinadas dentro dos túneis havia presas, num total de 48 alados mortos de cupins e formigas. [1] Métodos e resultados
Contexto: Túneis larvais em cupinzeiros de Cornitermes no Parque Nacional das Emas. · Limitações: Amostra pequena; mostra que a larva se alimenta de alados, não que a luz os atraiu. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Segundo Redford, os alados provavelmente são atraídos pela luz das larvas e constituem uma fonte importante de alimento para elas; a atração em si foi inferida e não testada em experimento controlado no estudo. [1] Resumo
Contexto: Interpretação do autor do estudo de 1982; o título do artigo fala em função 'possível' (possible function). · Limitações: Não houve grupo-controle com a luz bloqueada, nem comparação de capturas com e sem luz. · Hipótese bem fundamentada por observação de campo, mas não demonstrada por experimento no artigo lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Redford apoia a inferência em um trabalho então no prelo, de Sivinski, sobre larvas luminosas de mosquito-de-fungo, que teria mostrado que insetos podem ser atraídos por uma fonte pontual de luz mais fraca que a de uma larva de P. termitilluminans. [1] Discussão
Contexto: Argumento por analogia, citado por Redford; não lemos o trabalho de Sivinski. · Limitações: A comparação de intensidade com a luz da larva vem de comunicação pessoal; a evidência é de segunda mão. · Segundo Redford, Sivinski argumenta isso; o trabalho de Sivinski não foi aberto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 1982, Redford registrou que mais de vinte funções da bioluminescência já haviam sido propostas e que a atração de presas só fora sugerida como causa provável da luz em dois casos antes dele: peixes de fundo e mosquitos-de-fungo. [1] Introdução
Contexto: Estado da literatura em 1982, segundo Redford; não cobre a literatura posterior. · Limitações: A contagem é de 1982 e vem de Redford citando Buck (1978). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Desde 1850, viajantes descreviam cupinzeiros com brilhos pálidos no Brasil central; fungos, bactérias e os próprios cupins foram propostos como causa até Redford, nos anos 1980, ligar a luz às larvas de Pyrearinus. [1] Introdução
Contexto: História do reconhecimento do fenômeno, segundo a revisão histórica do próprio Redford. · Limitações: Relatos antigos citados por Redford (Smith 1879; Castelnau, via Branner); não lemos as fontes originais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A luciferase recombinante de Pyrearinus termitilluminans emite luz com pico de 538 nm, na faixa do verde. [3] Introdução
Contexto: Medida na enzima produzida em laboratório, com luciferina de vaga-lume (D-luciferina) como substrato. · Limitações: Não é o espectro da luz medida na larva viva em campo; a classificação de 538 nm como 'verde' é nossa. Redford descreveu a luz a olho nu como amarelo-azulada, o que mostra a subjetividade da cor percebida. · Cor da enzima in vitro; a larva em campo pode parecer de outra cor. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Nos besouros bioluminescentes, a luz resulta da oxidação de uma luciferina, catalisada por uma luciferase que precisa de Mg-ATP, o que produz uma molécula excitada que emite luz. [3] Introdução
Contexto: Mecanismo geral em besouros 'como vaga-lumes', descrito na introdução do artigo; a química detalhada está em outro post. · Limitações: O trecho trata de besouros em geral; a aplicação a Pyrearinus segue da enzima ter sido testada com luciferina e ATP no mesmo artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Redford levantou a hipótese de que os adultos também sejam atraídos pelo brilho das larvas até os cupinzeiros, onde acasalariam e poriam ovos. [1] Discussão
Contexto: Hipótese de Redford a partir de adultos que pousaram em um cupinzeiro à luz de uma lanterna de cabeça. · Limitações: Redford não achou ovos nos buracos examinados; 24 adultos foram coletados, apenas 2 eram fêmeas. · Hipótese sem teste. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A luz da larva é produzida de forma contínua por muitos minutos e se apaga quando ela entra no túnel. [1] Métodos e resultados
Contexto: Observação de campo em larvas de P. termitilluminans. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Revista Brasileira de Zoologia 1(1): 31-34 (SciELO) — Prey attraction as a possible function of bioluminescence in the larvae of Pyrearinus termitilluminans (Coleoptera: Elateridae)
Redford, K. H. · 1982 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/S0101-81751982000100004 - Revista Brasileira de Zoologia 1(1): 23-30 (SciELO) — Pyrearinus termitilluminans, sp.n., with description of the immature stages (Coleoptera, Elateridae, Pyrophorini)
Costa, C. · 1982 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/S0101-81751982000100003 - Photochemical & Photobiological Sciences — Synthesis of bioluminescent gold nanoparticle-luciferase hybrid systems for technological applications
Photochemical & Photobiological Sciences (autoria conforme o artigo) · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s43630-021-00111-0
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)