História do Brasil

Lampião chefiou o cangaço nos anos 1920 e 1930 e foi morto em Angico, em 1938, junto com Maria Bonita

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi o chefe cangaceiro mais famoso do Brasil. Seu bando atacou povoados do sertão nordestino nas décadas de 1920 e 1930, enquanto governos estaduais e o federal tentavam desfazê-lo. Em 28 de julho de 1938, em Angicos, Sergipe, uma emboscada o matou, junto com Maria Bonita, sua companheira, e outros nove cangaceiros. Um soldado também morreu. Os corpos foram decapitados e as cabeças, exibidas em povoados.

O cangaço foi um fenômeno do Nordeste que marcou as décadas de 1920 a 1940, feito de violência, disputas de poder e também de lendas. Lampião nasceu em 1897 ou 1898 e virou o personagem central desse mundo. O apelido, segundo um relato, veio da rapidez com que disparava o fuzil: à noite, parecia segurar um lampião. As opiniões sobre os cangaceiros se dividem até hoje: de um lado, torturadores e assassinos cruéis; de outro, a imagem de um "Robin Hood do sertão". Estudos acadêmicos apontam que líderes do cangaço tinham boas relações com coronéis e policiais, e que se financiavam com extorsões, sequestros e roubos, contra ricos e pobres. Em Angicos, a ação de 1938 deixou 11 cangaceiros mortos, incluindo duas mulheres, e mais de 20 escaparam.

O nome que ela não usava

Maria de Déa, ou Maria Gomes de Oliveira, era conhecida no bando como Maria de Déa e também como Maria do Capitão. Segundo um estudo da Universidade Federal de Sergipe, só passou a ser chamada de Maria Bonita depois de morrer, em 1938.

O cangaço

O cangaço foi um fenômeno social do Nordeste que se estendeu, aproximadamente, das décadas de 1920 a 1940. Reunia bandos armados que percorriam o sertão, atacavam povoados e fazendas e eram perseguidos pelas volantes, as tropas policiais. Lampião foi a figura central dessa história: seu bando, ativo nos anos 1920 e 1930, foi alvo de muitas tentativas de extermínio. Era um modo de vida com regras e saberes próprios, e não apenas um bando de fugitivos.

Angicos, 28 de julho de 1938

Em 28 de julho de 1938, em Angicos, em Sergipe, o grupo foi surpreendido por tiros de metralhadora. Morreram 11 cangaceiros, entre eles duas mulheres, e um soldado; mais de 20 escaparam. Lampião e Maria Bonita estavam entre as vítimas. Os mortos foram decapitados e as cabeças, exibidas em povoados do trajeto até Maceió. O artigo da SciELO lembra que decapitar inimigos e expor as cabeças como troféu não era incomum no Nordeste entre os séculos XVIII e XX.

A autópsia e a teoria do "criminoso nato"

A cabeça de Lampião chegou ao Serviço Médico-Legal de Alagoas em 31 de julho de 1938, em mau estado. O médico José Lages Filho a examinou à luz das ideias do italiano Cesare Lombroso, para quem certos traços físicos denunciariam o criminoso nato. Mesmo com esse viés, só encontrou microdontia, assimetria nas orelhas e um palato oval. O episódio mostra como a ciência da época tentava explicar o crime pelo corpo, hoje uma teoria abandonada.

Herói, bandido ou nenhum dos dois?

As leituras sobre Lampião divergem. Hobsbawm o citou como exemplo de bandido social, vingador do povo. Pericás contesta: os líderes cangaceiros tinham relações com coronéis, policiais e políticos, de quem recebiam proteção e munição, e se financiavam com extorsões, sequestros e roubos, também de pobres. A pesquisa recente trata o cangaço como um ofício com cultura própria, o que ajuda a entender o fenômeno sem transformá-lo em lenda ou em caricatura.

Como sabemos

A morte em Angicos e a decapitação estão em artigo científico; o ano de nascimento e a origem do apelido variam entre fontes, e só duas bases acadêmicas dão detalhes.

Em debate: O sentido histórico do cangaço é debatido. Eric Hobsbawm usou a trajetória de Virgulino Ferreira como exemplo de "banditismo social", isto é, de bandidos vistos como vingadores do povo. Estudiosos brasileiros, como Luiz Bernardo Pericás, criticam essa leitura: lembram que os líderes tinham relações com coronéis e polícia e que roubavam também os pobres. O texto descreve os fatos documentados e não adota nenhuma das duas imagens.

Em debate: O ano de nascimento de Lampião aparece como 1897 ou 1898 nas fontes.

Fontes

  1. Arquivos de Neuro-Psiquiatria (SciELO) — Lampião, Lages, Lombroso: the autopsy of the bandit king of the Brazilian backlands
    consultada em 04/10/2026
  2. Itaú Cultural — Memórias sangradas: vida e morte nos tempos do cangaço
    consultada em 04/10/2026
  3. Ruris, Universidade Estadual de Campinas — Cangaço e banditismo social: breves considerações
    consultada em 04/10/2026
  4. Boletim Historiar, Universidade Federal de Sergipe — Do cangaço como ofício: uma análise da cultura profissional no bando de Lampião
    consultada em 04/10/2026
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