Genética

A epigenética reabilita Lamarck? Herança de marcas existe em plantas e vermes; em mamíferos, a prova falta

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Genética

Há herança de marcas epigenéticas, como a metilação do DNA e RNAs curtos, por várias gerações em plantas e em nematódeos como o C. elegans. Em mamíferos ela é rara, porque a linhagem germinativa apaga a maior parte das marcas, e em humanos a prova de que experiências dos pais chegam aos netos segue inconclusiva. Isso não restaura a hipótese de Lamarck: faltam exemplos de transmissão que sejam, ao mesmo tempo, induzidos pelo ambiente e vantajosos.

Jean-Baptiste Lamarck propôs que características adquiridas em vida podem ser herdadas. A genética do século 20 respondeu com a ideia de August Weismann: as células germinativas (que originam óvulos e espermatozoides) ficam separadas do resto do corpo, a chamada barreira de Weismann. A epigenética estuda marcas químicas, como a metilação do DNA, que mudam a atividade dos genes sem alterar a sequência. A pergunta é se essas marcas, quando induzidas pelo ambiente, passam a descendentes. Importa distinguir efeitos intergeracionais (o feto exposto no útero e suas células germinativas) de efeitos transgeracionais, vistos em gerações que nunca foram expostas.

Em quem se mede a herança

Se uma gestante é exposta a algo, o feto (F1) e as células germinativas dele, que formarão a F2, também são. Por isso só a F3 conta como transgeracional; no caso de um pai exposto, só a partir da F2.

Lamarck, Weismann e a barreira

Segundo uma revisão de 2014, o princípio do plasma germinativo de Weismann (1892) separava células somáticas e germinativas, e não se esperava que o ambiente modificasse as germinativas. Uma revisão de 2020 argumenta que o conceito da barreira virou estrutura-padrão embora o modelo original de Weismann nunca tenha sido amplamente aceito, e questiona se o status de princípio básico se justifica. A barreira é, assim, descrição útil e também objeto de crítica.

Plantas e vermes: onde a herança é documentada

Em plantas, muitos epialelos são induzidos por transposons e podem ser propagados por centenas de anos. Em C. elegans, RNAs curtos silenciam genes por mais de 20 gerações, segundo uma revisão de 2014. Essa revisão destaca que a herança epigenética em plantas está em geral associada a transposons, vírus ou transgenes, e que as marcas induzidas pelo ambiente raramente passam adiante, mesmo em plantas. Herança documentada, portanto, não é o mesmo que herança de experiências.

Mamíferos: duas rodadas de apagamento e algumas fugas

Nos mamíferos, a metilação do DNA é reprogramada ao menos duas vezes: logo após a fertilização e nas células germinativas primordiais. Algumas regiões escapam ou demoram a ser desmetiladas, e são candidatas à transmissão entre gerações. Isso ajuda a explicar por que epialelos em mamíferos são extremamente raros, mas não prova que as marcas que escapam carreguem experiências de vida dos pais, nem que alterem o fenótipo da prole.

Como sabemos: provar herança exige descartar alternativas

Horsthemke (2018) propõe um roteiro: linhagens isogênicas e ambiente controlado, estudo da F3 (ou da F2, se o macho foi exposto) e checagem de mutação vizinha que explique a marca. Em 2025, um laboratório independente tentou replicar a herança de aversão a uma bactéria em C. elegans, relatada até a F4 por outro grupo: a resposta apareceu na F1, mas não de forma consistente depois, e os autores concluíram que o caso carece de robustez.

Por que isso não reabilita Lamarck

Lamarck propunha a herança de características adquiridas. Para a epigenética cumprir esse papel, a marca teria de ser induzida pelo ambiente, passar a gerações não expostas e ser vantajosa. Plantas e vermes mostram transmissão; segundo a revisão de 2014, falta a demonstração de herança adaptiva induzida pelo ambiente. Os autores também distinguem a variação epigenética aleatória, sobre a qual a seleção pode atuar, da variação induzida pelo ambiente, e dizem que supor que se relacionam ainda não se justifica.

Como sabemos

Os pontos centrais vêm de duas revisões (2014 e 2018), de uma replicação de 2025 e de duas revisões sobre reprogramação e a barreira; muitos estudos originais citados não foram lidos, e o campo muda rápido.

Em debate: Há relatos em camundongos e ratos, mas a maioria aguarda confirmação independente, e em humanos não se exclui herança genética, ecológica e cultural. Uma revisão de 2020 vai além e questiona se a própria barreira de Weismann merece o status de princípio.

Fontes

  1. Cell — Transgenerational epigenetic inheritance: myths and mechanisms
    Heard, E.; Martienssen, R. A. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cell.2014.02.045
  2. Nature Communications — A critical view on transgenerational epigenetic inheritance in humans
    Horsthemke, B. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-018-05445-5
  3. eLife — Reported transgenerational responses to Pseudomonas aeruginosa in Caenorhabditis elegans are not robust
    Gainey, D. P.; Shubin, A. V.; Hunter, C. P. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7554/elife.100254
  4. Experimental & Molecular Medicine — Epigenetic reprogramming in mouse and human primordial germ cells
    Lee, S. M.; Surani, M. A. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s12276-024-01359-z
  5. Journal of Developmental Biology — What Is Lost in the Weismann Barrier?
    Bline, A. P.; Le Goff, A.; Allard, P. · 2020 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/jdb8040035
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos