Zoologia

Lagostas-espinhosas deslocadas 12–37 km se orientam rumo ao ponto de captura; testes apontam mapa magnético

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Sentidos dos animais

Lagostas-espinhosas-do-Caribe (Panulirus argus) levadas de 12 a 37 km do ponto de captura, a locais desconhecidos e sem as pistas conhecidas durante o trajeto, orientaram-se rumo a esse ponto. Expostas a um campo magnético como o de um lugar ao norte do ponto de captura, caminharam para o sul; com o de um lugar ao sul, para o norte. Os autores interpretam que a lagosta tira do campo terrestre informação de posição, um mapa, e não só de direção.

Um sentido magnético pode servir a duas coisas. A bússola dá direção: manter um rumo, como norte ou sul. O mapa dá posição: avaliar onde se está em relação a um destino. Navegação verdadeira é determinar essa posição depois de ser levado a um lugar nunca visitado, sem pistas do destino nem informação coletada na ida. A lagosta-espinhosa-do-Caribe se abriga de dia, sai à noite para forragear numa área ampla e volta a uma toca no escuro; às vezes percorre até 200 km. Este texto trata só da posição. A bússola das aves, o sensor e a química do sinal têm textos próprios.

O único invertebrado com navegação verdadeira, até 2022

Na revisão de Lohmann e colegas, de janeiro de 2022, a lagosta-espinhosa era o único invertebrado conhecido a cumprir os critérios de navegação verdadeira. Em 2003, o artigo original já notava que os poucos animais com essa capacidade comprovada eram todos vertebrados.

Como sabemos: dois testes em sequência

Primeiro, o deslocamento físico: lagostas levadas de 12 a 37 km do ponto de captura, a locais onde nunca estiveram e sem as pistas de orientação conhecidas durante o trajeto, mesmo assim se orientaram para o ponto de captura. Isso não diz qual pista informava a posição. O segundo teste isola o campo magnético: o animal fica onde está e recebe um campo como o de outro lugar. Como as demais pistas não mudam, a mudança de rumo é atribuída ao campo. Campo ao norte do ponto de captura levou à caminhada para o sul; ao sul, para o norte: o rumo certo de volta para quem estivesse lá.

Campo inteiro, não um parâmetro só

Os campos usados reproduziam os de lugares específicos do ambiente das lagostas. Isso importa porque, em tartarugas e aves, mudar um só parâmetro do campo nem sempre provoca a mesma resposta que um campo que replica um lugar real. A inclinação e a intensidade do campo variam em direções um pouco diferentes pelo globo e formam, juntas, uma espécie de grade de duas coordenadas. Quais desses parâmetros a lagosta lê, porém, não consta nas fontes que lemos. Para a posição como tema geral, veja o texto sobre a tartaruga-marinha que volta à praia natal.

O que o experimento não mostra

Não mostra o sensor: em 2016, a mesma equipe escreveu que não se sabe como a lagosta detecta o campo, e que o material tido como magnetita nela tem papel incerto. 'Mapa magnético' é um rótulo amplo que não pressupõe uma representação interna do espaço, e ter um mapa não significa usá-lo sempre. Também pesa que o resultado vem de uma única espécie, de um grupo de pesquisa, e foi lido por nós no resumo original e numa revisão da mesma equipe; replicação independente não consta nas fontes lidas.

E a lagosta do Brasil?

O estudo usou Panulirus argus, a espécie do Caribe e da América do Norte. Segundo Sousa e colegas (2025), a linhagem que vai da costa brasileira para o sul foi validada como outra espécie, P. meripurpuratus, e relatos antigos de P. argus no Brasil devem se referir a ela. Nas fontes lidas não há teste magnético com a lagosta brasileira, de modo que o mapa foi demonstrado na espécie caribenha e, para a brasileira, é pergunta em aberto.

Como sabemos

O resultado central vem de um estudo de 2003 lido só no resumo, corroborado por uma revisão da mesma equipe; não achamos replicação independente.

Fontes

  1. Nature — True navigation and magnetic maps in spiny lobsters
    Boles, L. C.; Lohmann, K. J. · 2003 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature01226
  2. Journal of Comparative Physiology A — Magnetic maps in animal navigation
    Lohmann, K. J. et al. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s00359-021-01529-8
  3. PeerJ — Molecular identification based on mtDNA analysis of commercial crustaceans in the coastal Amazon: exotic species, cryptic diversity, and implications for sustainable fisheries in northern Brazil
    Sousa, J.; Lutz, Í. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7717/peerj.19586
  4. Journal of Experimental Biology — Effect of magnetic pulses on Caribbean spiny lobsters: implications for magnetoreception
    Ernst, D. A.; Lohmann, K. J. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1242/jeb.136036
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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