Paleontologia
Lagoa Vermelha (RJ): esteiras microbianas, estromatólitos biscuit e dolomita numa lagoa hipersalina
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Origem da vida
Na Lagoa Vermelha, no litoral fluminense, esteiras de micro-organismos crescem, prendem grãos e favorecem a precipitação de carbonato em águas hipersalinas. Estudos da UFRJ descreveram ali onze estruturas induzidas por micróbios, dos estromatólitos "biscuit" a nódulos trombolíticos, e bactérias que formam dolomita em cultura.
Microbialitos são depósitos formados pela interação entre comunidades microbianas do fundo e sedimentos, que os micróbios prendem ou fazem precipitar; os estromatólitos, de laminação fina, são o tipo mais conhecido. Na Região dos Lagos (RJ), pequenas lagoas separadas do mar por cordões de areia perdem mais água por evaporação (cerca de 1.400 mm por ano) do que ganham por chuva (cerca de 900 mm). O resultado são águas alcalinas e hipersalinas, onde as esteiras formam tapetes de 2 a 8 cm e parte do carbonato se deposita ao redor delas. Por isso as lagoas servem de laboratório natural para estudar processos que também deixam registro em rochas antigas.
Um "biscuit" de 5 a 10 centímetros
O nome biscuit descreve crostas carbonáticas litificadas de 5 a 10 cm de diâmetro, de laminações finas e descontínuas. Segundo Alves (2007), citada por Sampaio e colegas, a forma pode ser côncava, convexa, mista ou irregular.
Por que a água salgada demais favorece esteiras
As lagoas da restinga da Massambaba recebem cerca de 900 mm de chuva por ano e perdem cerca de 1.400 mm por evaporação. Com calor, vento de nordeste e entrada de água marinha, ficam alcalinas e hipersalinas: a Pitanguinha chegou a cerca de 84‰ em 2006-2007. Poucos animais toleram isso, e as esteiras de cianobactérias dominam o fundo, calcificam e formam laminações. Cada seca expõe as margens, e a esteira racha ao secar.
Como sabemos: campo, testemunhos e lâminas
Na Lagoa Vermelha, a equipe da UFRJ descreveu estruturas na margem nordeste e extraiu dez testemunhos de cerca de 1 m (12,7 m no total), três deles estudados, além de lâminas delgadas ao microscópio. Na Pitanguinha, 21 amostras foram coletadas em agosto de 2014 (ano chuvoso) e janeiro de 2015 (ano árido). Os limites: poucas campanhas, e muitos diagnósticos por comparação com fotos e descrições da literatura.
Do biscuit à dolomita
As estruturas mostram etapas diferentes. Gretas, mat curls e mat chips vêm da esteira que seca e se rompe. Biolaminitos alternam lâminas escuras de cianobactérias filamentosas e claras de carbonato. Biscuits e nódulos trombolíticos seriam carbonato precipitado dentro do muco das esteiras. A dolomita é outro ponto: uma bactéria redutora de sulfato da lagoa a formou em cultura, mas o peso disso na lagoa não é medido nos textos lidos.
O que a lagoa ensina sobre rochas antigas, e o que não prova
Estruturas induzidas por micróbios aparecem do Arqueano ao Cenozoico, e vê-las se formar hoje ajuda a reconhecê-las nas rochas. Os autores comparam os biolaminitos da Lagoa Vermelha aos do pré-sal da Bacia de Santos. É analogia morfológica: lagoas de poucas décadas ou séculos não reproduzem o oceano de bilhões de anos atrás, e a semelhança de forma não prova processo idêntico.
Como sabemos
Descrições de campo e petrografia da UFRJ são sólidas, mas a dolomita e as taxas de crescimento dependem de resumos e de estudos citados, não lidos por inteiro.
- Fato estabelecido: Na Lagoa Vermelha, estudo de 2015 descreveu onze estruturas sedimentares induzidas por micro-organismos, ligadas a quatro grupos de processo: crescimento da esteira, bioestabilização do sedimento, metabolismo da esteira (biolaminito, estromatólito, estromatólito biscuit, nódulo trombolítico) e aprisionamento de grãos. [1] Resumo
Contexto: Estruturas observadas na região nordeste da lagoa, em margens e interior, em campo e em três testemunhos rasos. · Limitações: Classificação feita por comparação de formas com a literatura; onde a esteira não estava preservada, descrições e fotos publicadas foram decisivas para o diagnóstico. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A Lagoa Vermelha tem cerca de 3 km² de área e cerca de 1 metro de profundidade, entre os municípios de Araruama e Saquarema (RJ). [1] 3 Área de Estudo
Contexto: Valores citados pelos autores a partir de levantamentos anteriores; o volume de água não é usado aqui porque o número impresso no artigo não bate com área vezes profundidade. · Limitações: Área e profundidade variam com chuva, evaporação e águas subterrâneas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A região das lagoas tem pluviosidade média de 900 mm e evaporação de 1.400 mm por ano; esse déficit, somado a temperaturas altas, ventos de nordeste e entrada de água marinha, torna as águas alcalinas e hipersalinas. [2] 3.2 Aspectos Biossedimentológicos das Lagunas na Região dos Lagos
Contexto: Região dos Lagos (RJ), transição entre clima tropical com seca de inverno e semiárido quente. · Limitações: Médias regionais, citadas de Barbière (1985); cada lagoa tem balanço hídrico próprio. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na vizinha Lagoa Pitanguinha, medições feitas entre maio de 2006 e abril de 2007 deram salinidade em torno de 84‰, pH cerca de 8,7 e água a 30,4 °C em média. [2] 3.3.1 Aspectos Fisiográficos
Contexto: Valores de Damazio Iespa (2008) citados por Rocha e Borghi; anos relativamente chuvosos. Para a Lagoa Vermelha, a tabela da mesma revisão traz salinidade de 54‰, de outro trabalho. · Limitações: A salinidade oscila com chuva e seca; em ano árido a Pitanguinha ficou ainda mais salina, sem valor numérico no artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: As esteiras microbianas das lagoas da Região dos Lagos são classificadas em sete tipos (bolha, coloforme, filme, lisa, poligonal, pustular e tufada), e a Lagoa Vermelha tem todos eles. [2] 3.2, p. 195-196
Contexto: Classificação de Hoffman (1976), aplicada às lagoas fluminenses por estudos citados na revisão de Rocha e Borghi (2017). · Limitações: Informação de segunda mão: Rocha e Borghi citam Silva et al. (2004a), que não foi lido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os estromatólitos "biscuit" da Lagoa Vermelha são crostas carbonáticas litificadas de 5 a 10 cm de diâmetro, com laminações milimétricas, irregulares e descontínuas formadas por litificação precoce de esteiras. [1] 4.3.3 Estromatólitos biscuit
Contexto: Ocorrem em superfície e em testemunhos da Lagoa Vermelha. · Limitações: A forma côncava, convexa, mista ou irregular vem de Alves (2007), citado por Sampaio e colegas; a dissertação não foi lida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os estromatólitos maiores da Lagoa Vermelha têm bordas dobradas para baixo e centro plano; os autores propõem que isso reflete a esteira original, rompida em gretas na seca e depois recolonizada quando voltou a água. [1] 4.3.2 Estromatólitos
Contexto: Estromatólitos de 10 a 25 cm de comprimento e 5 a 10 cm de altura, segundo o artigo. · Limitações: Proposta de formação, sem datação nem monitoramento de crescimento na lagoa; o artigo usa "possivelmente". · Explicação proposta pelos autores, não observada em tempo real. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Nos biolaminitos da Lagoa Vermelha, as lâminas escuras são formadas por cianobactérias filamentosas e as claras por cianobactérias cocoides, muito polímero extracelular e minerais autigênicos; a alternância acompanha a sazonalidade. [1] 4.3.1 Biolaminitos
Contexto: Biolaminitos em trincheiras de cerca de 30 cm e em testemunhos; EPS é a sigla de substância polimérica extracelular, o muco que envolve as células. · Limitações: A explicação da sazonalidade vem de trabalhos em outros ambientes (Gerdes, 2007, 2010) aplicada aqui por analogia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A calcificação das esteiras pode ocorrer por pelo menos três vias: degradação de matéria orgânica por bactérias heterotróficas, calcificação de cianobactérias dentro da bainha de muco e atração de íons de cálcio pelas cargas negativas dessa bainha. [1] 4.3 Estruturas resultantes do metabolismo da esteira
Contexto: Revisão de mecanismos feita por Sampaio e colegas com base em Riding (2000), aplicada à Lagoa Vermelha. · Limitações: O artigo não mede qual via domina na lagoa; apenas lista os processos e associa a textura grumosa a cianobactérias calcificadas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em todas as lâminas petrográficas analisadas aparece carbonato de textura grumosa associado às esteiras, o que leva os autores a interpretar os micro-organismos como a principal fonte de sedimentação carbonática da Lagoa Vermelha. [1] 4.3.1 Biolaminitos
Contexto: Três testemunhos (LV-01, LV-02 e LV-10) e amostras de superfície. · Limitações: Interpretação baseada em petrografia de poucos intervalos; não há balanço quantitativo da origem do carbonato neste artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A presença de dolomita atribuída à ação microbial na Lagoa Vermelha e no Brejo do Espinho deu destaque mundial aos microbialitos dessas lagoas. [2] 3.2, p. 195
Contexto: Dolomita é um carbonato de cálcio e magnésio, CaMg(CO3)2. Estudos de Vasconcelos (1988) e Vasconcelos e McKenzie (1997), citados por Rocha e Borghi. · Limitações: A origem microbiana da dolomita é atribuída por esses estudos; a revisão não reanalisa os dados. Estudos originais não foram lidos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Uma bactéria redutora de sulfato isolada de sedimentos da Lagoa Vermelha, Desulfovibrio brasiliensis, mediou a precipitação de dolomita em experimentos de cultura. [3] Abstract
Contexto: Experimento de laboratório com a linhagem LVform1; mostra que o processo é possível em cultura, não quanto contribui na lagoa. · Limitações: Só o resumo foi lido (texto completo é pago). Cultura em laboratório não prova que essa seja a via dominante na natureza. · Conferida em parte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: A Lagoa Pitanguinha formou-se no Holoceno, quando uma regressão marinha a isolou do mar por cordões praiais estreitos; hoje tem esteiras, estromatólitos, trombólitos e oncoides. [2] Resumo
Contexto: Restinga da Massambaba, município de Araruama (RJ). O Holoceno é a época dos últimos cerca de 11,7 mil anos. · Limitações: A idade do cordão externo (cerca de 4.000 anos antes do presente) vem de Coe Neto (1984) e é aproximada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Na Lagoa Pitanguinha, quatro microbiofácies (coloforme, poligonal, pustular e oncoidal) parecem controladas pela hipersalinidade crescente conforme o nível da água cai, e a desidratação subaquática da esteira é apontada como precursora das fendas. [2] Resumo
Contexto: Observações de campo em agosto de 2014 (nível alto, ano chuvoso) e janeiro de 2015 (ano árido, nível baixo); 21 amostras. · Limitações: Duas campanhas em dois anos; o próprio artigo diz que o efeito de chuvas e secas sobre o desenvolvimento das esteiras é de forma "não avaliada ou conhecida, ainda". · Interpretação dos autores a partir de duas campanhas de campo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: As laminações dos biolaminitos da Lagoa Vermelha são semelhantes às descritas em biolaminitos da Formação Barra Velha, seção pré-sal da Bacia de Santos. [1] 4.3.1 Biolaminitos
Contexto: Comparação morfológica feita por Sampaio e colegas com a literatura sobre o pré-sal; a Barra Velha é uma formação de rochas de origem possivelmente microbiana. · Limitações: Semelhança de forma entre uma lagoa atual e rochas antigas é analogia; não prova que os processos foram idênticos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Esteiras e estruturas induzidas por micro-organismos aparecem em sucessões do Arqueano ao Cenozoico, e reconhecê-las em ambientes modernos ajuda a identificá-las no registro geológico. [1] 1 Introdução
Contexto: O Arqueano vai de cerca de 4 a 2,5 bilhões de anos atrás (valor geral, não do artigo). · Limitações: O artigo as chama de "pouco conhecidas" fora do meio especializado e diz que sem critérios de identificação elas se confundem com estruturas físicas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Um estromatólito da Lagoa Vermelha teve taxa média de crescimento de 0,19 ± 0,03 mm por ano, com taxas menores nas seções ligadas a clima mais árido e mais dolomita, até cerca de 1440 d.C. [4] Abstract
Contexto: Modelo de idade por profundidade com datação por radiocarbono num estromatólito carbonático. · Limitações: Só o resumo foi lido, obtido pelos metadados da Crossref; a página da Cambridge bloqueou leitura automática. A ligação entre aridez e menor crescimento é interpretação dos autores. · Amostra única; estimativa de um modelo. · Conferida em parte (resumo), conferência automatizada
Fontes
- Anuário do Instituto de Geociências, UFRJ — Gênese e Morfologia de Estruturas Sedimentares Induzidas por Atividade Microbiana (MISS) em Sedimentos da Lagoa Vermelha (Região dos Lagos – Rio de Janeiro)
Sampaio, L. F.; Dal’ Bó, P. F. F.; Borghi, L. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.11137/2015_1_95_106 - Anuário do Instituto de Geociências, UFRJ — Análise de Microbiofácies das Esteiras Microbianas da Lagoa Pitanguinha (Região dos Lagos, RJ, Brasil)
Rocha, L.; Borghi, L. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.11137/2017_1_191_205 - Extremophiles — Desulfovibrio brasiliensis sp. nov., a moderate halophilic sulfate-reducing bacterium from Lagoa Vermelha (Brazil) mediating dolomite formation
Warthmann, R.; Vasconcelos, C.; Sass, H.; McKenzie, J. A. · 2005 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s00792-005-0441-8 - Radiocarbon (Cambridge University Press) — Stromatolite Growth in Lagoa Vermelha, Southeastern Coast of Brazil: Evidence of Environmental Changes
Carvalho, A. M. et al. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1017/rdc.2017.126
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)