Evolução

Lagartos Uta e o jogo de pedra, papel e tesoura: cada tipo de macho vence um rival e perde para outro

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Machos do lagarto Uta stansburiana têm garganta laranja, azul ou amarela, e cada cor marca uma estratégia de acasalamento. O laranja domina o azul, o azul vigia a fêmea e frustra o amarelo, e o amarelo, que se passa por fêmea, engana o laranja. Como nenhum tipo vence todos, as frequências oscilam: num estudo de campo, em ciclos de cinco a seis anos.

Uta stansburiana é um lagarto pequeno. Numa população, os machos se dividem em três morfos: grupos de aparência e comportamento diferentes, de base hereditária. O laranja é agressivo e controla um território grande; o azul defende um território menor e vigia a parceira; o amarelo não tem território e copula às escondidas. A coexistência vem de seleção dependente da frequência negativa: um tipo perde vantagem quando fica comum, porque o rival que o vence passa a prosperar. A relação é não transitiva, como em pedra, papel e tesoura: não há um tipo melhor que todos. O caso de apenas dois tipos, num peixe, está em outro post.

Machos azuis cooperam com vizinhos que não são parentes

Em estudo de campo, machos azuis geneticamente parecidos, mas sem parentesco, se instalaram em territórios vizinhos e cooperaram. Os ganhos dependiam de quantos laranjas havia ao redor, e um dos dois parceiros arcava com o custo.

Quem vence quem, e por quê

O macho laranja ocupa um território grande e supera o azul, que vigia a parceira mas não consegue contê-lo. O azul, por sua vez, vigia bem contra o amarelo: nos dados de 1992, pai de mais da metade das ninhadas de um só pai. O amarelo, que não defende território, se esgueira e copula às escondidas, e leva vantagem onde o laranja é comum e não consegue vigiar tudo. Cada estratégia tem um ponto forte e um ponto fraco, e é isso que impede a vitória definitiva de uma delas.

Como sabemos: modelo, campo e paternidade

Em 1996, Sinervo e Lively juntaram um modelo de estratégia estável com medidas de campo e relataram oscilação das frequências num período de seis anos. Uma análise de 2001 estimou 5 anos para os machos. Em 2000, Zamudio e Sinervo testaram a previsão com testes de paternidade por microssatélites: quem gerou os filhotes de cada ninhada. Os limites são claros: uma população, uma temporada de análise, amostras pequenas em alguns testes (herdabilidade com 11 pares) e ausência de diferença no total de filhotes, que não prova igualdade exata.

O que mudou em 2026: dois alelos e plasticidade

Durante décadas se aceitou que as três cores vinham de três alelos de um lócus (OBY). Em janeiro de 2026, na Science, Corl e colegas associaram o laranja e o azul a dois haplótipos na região reguladora do gene da sepiapterina redutase, e propuseram que o amarelo surge por plasticidade sobre o fundo genético do azul. Simulações dos autores sugerem que esse arranjo mantém o ciclo melhor do que três alelos; modelos de 2001 já precisavam de plasticidade para reproduzir a amplitude dos ciclos. É um resultado novo, de um estudo, e a explicação anterior era a adotada até então.

Nem toda população joga o jogo completo

O ciclo de três tipos não vale para toda a espécie. Num levantamento de 41 populações, o polimorfismo de cor aparecia em 23. A análise filogenética indica que ele é ancestral e foi perdido de forma independente oito vezes, sempre com a perda do morfo amarelo. Quando um morfo some, o jogo muda: sem o amarelo, o laranja deixa de ter um rival que o vence. Os autores associam a perda a evolução mais rápida do tamanho corporal, mas sem provar a causa.

Como sabemos

Os pilares de 1996, 2000 e 2010 são sólidos e citados, mas a base genética de 2026 vem de um único estudo lido só no resumo.

Fontes

  1. Nature — The rock–paper–scissors game and the evolution of alternative male strategies
    Sinervo, B.; Lively, C. M. · 1996 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/380240a0
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences — Polygyny, mate-guarding, and posthumous fertilization as alternative male mating strategies
    Zamudio, K. R.; Sinervo, B. · 2000 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.011544998
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences — Selective loss of polymorphic mating types is associated with rapid phenotypic evolution during morphic speciation
    Corl, A.; Davis, A. R.; Kuchta, S. R.; Sinervo, B. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0909480107
  4. Science — The genetics, evolution, and maintenance of a biological rock-paper-scissors game
    Corl, A. et al. · 2026 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.adw8265
  5. Proceedings of the National Academy of Sciences — Self-recognition, color signals, and cycles of greenbeard mutualism and altruism
    Sinervo, B.; Chaine, A.; Clobert, J. et al. · 2006 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0510260103
  6. Genetica — Runaway social games, genetic cycles driven by alternative male and female strategies, and the origin of morphs
    Sinervo, B. · 2001 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 8; conferência de trechos automatizada)

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