Astronomia

As lacunas de Kirkwood: faixas do cinturão de asteroides esvaziadas por ressonâncias com Júpiter

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

As lacunas de Kirkwood são faixas de distância do Sol, no cinturão de asteroides, onde faltam asteroides. Ficam onde o período orbital é uma fração simples do de Júpiter, como 1/3 ou 1/2. Nessas ressonâncias, as órbitas se tornam caóticas e a excentricidade pode crescer até a órbita cruzar a de Marte ou da Terra; o asteroide é então retirado dali.

Cada asteroide tem uma distância média ao Sol, o semieixo maior, que fixa o tempo de uma volta. Quando esse tempo é uma fração simples do de Júpiter (11,86 anos), diz-se que há ressonância de movimento médio: a geometria se repete e os puxões de Júpiter se somam em vez de se anular. Na ressonância 3:1, a 2,50 UA (unidade astronômica, a distância média Terra–Sol, cerca de 150 milhões de km), o asteroide dá três voltas a cada uma de Júpiter. O padrão foi notado por Daniel Kirkwood no século XIX; a explicação só veio com computadores, a partir de 1982. Para o tamanho e a massa do cinturão, veja o post sobre o cinturão quase vazio.

Calmaria de 100 mil anos, surto de 10 mil

Nas simulações de Wisdom, um corpo na ressonância 3:1 pode ficar mais de 100 mil anos em órbita quase circular e, num surto de cerca de 10 mil anos, ter a excentricidade elevada até 0,35, o bastante para cruzar a órbita de Marte.

Onde ficam as lacunas

A posição segue da terceira lei de Kepler: o período de uma órbita cresce com o semieixo maior elevado a 3/2. Com Júpiter a 5,203 UA e período de 11,862 anos, uma volta em um terço desse tempo dá cerca de 2,50 UA (3:1); a metade, cerca de 3,28 UA (2:1); as razões 5:2 e 7:3 caem perto de 2,83 e 2,96 UA. Conta nossa, para ressonâncias exatas; as lacunas reais têm largura e dependem da excentricidade.

Por que ressonância vira esvaziamento

Wisdom mostrou em 1982 que uma órbita no 3:1 pode ficar quieta por mais de 100 mil anos e depois ter a excentricidade lançada a 0,35, o que basta para cruzar a órbita de Marte. Com inclinação, chegou a 0,6, valor que inclui cruzar a da Terra. Em simulações posteriores, cerca de 70% dos corpos de baixa excentricidade no 3:1 foram empurrados para perto de 1 e, na maioria, acabaram no Sol em alguns milhões de anos.

Como sabemos

Há duas pernas. A teórica: mapas matemáticos de Wisdom e depois integrações numéricas diretas, como a de Gladman e colegas, com mais de 1.000 corpos no 3:1 e cerca de 450 no 5:2. A observacional: Minton e Malhotra simularam por 4 bilhões de anos um cinturão uniforme sob os planetas atuais e o compararam, em faixas de 0,03 UA, com 690 asteroides grandes. As lacunas saem do modelo; mas o cinturão real é mais esvaziado, e isso aponta processos além do atual (hipótese).

Nem toda ressonância esvazia

No 3:2 com Júpiter não há lacuna larga, mas uma concentração de quase 200 corpos, os Hildas, segundo a revisão de 2001. Por isso a regra simples, "ressonância é igual a vazio", é enganosa: o resultado depende de a ressonância ser caótica nas excentricidades em que há corpos, e da sobreposição com outras ressonâncias e com efeitos seculares.

Dos vazios aos meteoritos

Os asteroides retirados das lacunas ganham órbitas que cruzam as dos planetas rochosos, e parte cai na Terra. Granvik e Brown, ao reconstruir a origem de cerca de duas dúzias de quedas com órbita medida, concluíram que a maioria vem do cinturão interno, saindo pela 3:1 ou pela ressonância secular ν6. É uma inferência estatística com modelo, sujeita a pequena amostra e à deriva por efeito Yarkovsky.

Como sabemos

Mecanismo e números centrais saem de uma revisão e de um artigo da Nature lidos no texto integral; a data da descoberta e o destino exato dos meteoritos têm ressalvas.

Fontes

  1. Annual Review of Astronomy and Astrophysics (pré-publicação no arXiv) — Chaos in the Solar System
    Lecar, M.; Franklin, F. A.; Holman, M. J.; Murray, N. W. · 2001 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1146/annurev.astro.39.1.581
  2. Nature (pré-publicação no arXiv) — A record of planet migration in the Main Asteroid Belt
    Minton, D. A.; Malhotra, R. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature07778
  3. Icarus (pré-publicação no arXiv) — Identification of meteorite source regions in the Solar System
    Granvik, M.; Brown, P. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. NASA Goddard, NSSDCA — Jupiter Fact Sheet
    NASA Space Science Data Coordinated Archive · atualizado em vários anos · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)

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