Astronomia

A lacuna de massa de 3 a 5 massas solares: o que as binárias de raios X indicavam e o que o GW230529 mudou

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Estrelas

Medidas de massa em binárias de raios X da Via Láctea sugeriram, desde o fim dos anos 1990, poucos objetos compactos entre cerca de 3 e 5 massas solares, entre as estrelas de nêutrons e os buracos negros. Em 2023, o sinal GW230529 mostrou uma fusão em que um dos corpos tem de 2,5 a 4,5 massas solares: a faixa não está vazia, mas pode seguir menos povoada. Só com ondas gravitacionais, não se sabe se esse corpo é buraco negro ou estrela de nêutrons.

Uma estrela de nêutrons é o núcleo que sobra de uma estrela massiva depois do colapso, sustentado pela pressão da matéria extremamente densa. Um buraco negro estelar é o que resta quando nada segura o colapso. A massa separa os dois: acima de um certo valor, a matéria não resiste ao próprio peso. Esse valor depende da equação de estado, a relação entre pressão e densidade da matéria densa, ainda incerta; limites derivados da fusão GW170817 apontam para cerca de 2,2 a 2,3 massas solares em estrelas sem rotação rápida. A lacuna de massa é a faixa de cerca de 3 a 5 massas solares com poucos objetos compactos. A borda de baixo depende da maior massa com que uma estrela de nêutrons pode nascer; a de cima, da menor massa com que um buraco negro pode se formar.

Um corpo de 2,6 massas solares sem classificação

No GW190814 (2019), o corpo menor tem de 2,50 a 2,67 massas solares. A colaboração LIGO-Virgo o descreveu como o buraco negro mais leve ou a estrela de nêutrons mais pesada já descoberta num par de objetos compactos. Está na borda inferior da lacuna.

Até onde vai uma estrela de nêutrons

A borda de baixo da lacuna depende da maior massa que uma estrela de nêutrons pode ter, e esse número não é medido com precisão. Estudos do remanescente da fusão GW170817 limitam a massa máxima sem rotação a cerca de 2,2 a 2,3 massas solares e indicam que nenhuma estrela de nêutrons seria estável acima de cerca de 2,7. O pulsar PSR J0740+6620 tem cerca de 2,08 massas solares. São limites de modelos de equação de estado, que carregam incerteza própria.

Como sabemos: o vazio visto em binárias de raios X

A lacuna nasceu de contagens. Özel e colegas (2010) usaram as massas de 16 buracos negros em binárias de raios X e argumentaram que viés de seleção não explica a falta de objetos entre 2 e 5 massas solares. Farr e colegas (2011) analisaram 20 sistemas e obtiveram forte evidência de lacuna: o limite inferior ficou acima de 4,3 ou 4,5 massas solares, conforme o modelo, com 90% de confiança. O limite do método: segue em aberto se a seleção das binárias de raios X da Galáxia produz esse vazio.

Como sabemos: o que o GW230529 mediu e o que não mediu

O GW230529 foi analisado só com dados do LIGO de Livingston. A busca compara o sinal com um banco de formas de onda previstas (filtragem casada) e as massas saem de inferência bayesiana, por isso vêm em intervalos: de 2,5 a 4,5 e de 1,2 a 2,0 massas solares, com 90% de credibilidade. Sem evidência de efeitos de maré, a natureza de cada corpo fica sem decisão pelos dados de ondas gravitacionais; a interpretação mais provável é uma estrela de nêutrons com um buraco negro.

Como um objeto de 3 a 5 massas solares poderia se formar

É questão aberta. A colaboração considera improvável o colapso direto para o corpo maior do GW230529 e vê a queda de material sobre a proto-estrela (fallback) como cenário viável, mas raro nos modelos. Uma instabilidade que leve mais de cerca de 200 milissegundos para lançar a supernova deixaria a proto-estrela de nêutrons acumular massa. Em 2012, Fryer e colegas já mostravam que um modelo de explosão rápida reproduzia melhor a lacuna. Tudo isso são hipóteses, a testar com novas detecções.

Como sabemos

Os números vêm de artigos primários lidos nos trechos citados, mas o assunto é questão aberta e a natureza do corpo do GW230529 não está decidida.

Em debate: Se a lacuna de massa existe e quão vazia ela é

Fontes

  1. The Astrophysical Journal Letters (versão arXiv) — Observation of Gravitational Waves from the Coalescence of a 2.5–4.5 M⊙ Compact Object and a Neutron Star
    Abac, A. G. et al. (LIGO Scientific Collaboration, Virgo Collaboration e KAGRA Collaboration) · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. The Astrophysical Journal Letters (versão arXiv) — GW190814: Gravitational Waves from the Coalescence of a 23 Solar Mass Black Hole with a 2.6 Solar Mass Compact Object
    LIGO Scientific Collaboration e Virgo Collaboration · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. The Astrophysical Journal Letters (versão arXiv) — Refined Mass and Geometric Measurements of the High-Mass PSR J0740+6620
    Fonseca, E. et al. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026
  4. The Astrophysical Journal (versão arXiv) — The Black Hole Mass Distribution in the Galaxy
    Özel, F.; Psaltis, D.; Narayan, R.; McClintock, J. E. · 2010 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026
  5. The Astrophysical Journal (versão arXiv) — The Mass Distribution of Stellar-Mass Black Holes
    Farr, W. M.; Sravan, N.; Cantrell, A.; Kreidberg, L.; Bailyn, C. D.; Mandel, I.; Kalogera, V. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026
  6. The Astrophysical Journal (versão arXiv) — Compact Remnant Mass Function: Dependence on the Explosion Mechanism and Metallicity
    Fryer, C. L.; Belczynski, K.; Wiktorowicz, G.; Dominik, M.; Kalogera, V.; Holz, D. E. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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