Astronomia

As listras de Júpiter acompanham jatos de vento que se estendem por cerca de 3.000 km sob as nuvens

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

As faixas claras (zonas) e escuras (cinturões) de Júpiter acompanham jatos de vento leste-oeste, que passam de 100 m/s em baixas latitudes. A gravidade medida pela sonda Juno indica que esses ventos não ficam só no topo das nuvens: descem por cerca de 3.000 km, até onde a condutividade elétrica cresce e o campo magnético provavelmente os freia.

Júpiter gira em cerca de 9,9 horas, o dia mais curto do Sistema Solar. Suas nuvens se organizam em faixas paralelas ao equador: zonas, mais claras, e cinturões, mais escuros. Cada faixa é cortada por correntes de vento que sopram para leste ou para oeste, os jatos zonais. Como o planeta não tem superfície sólida, a pergunta é até onde essas correntes descem. Antes da Juno só havia uma medida direta, a da sonda Galileo, em 1995, que parou a cerca de 130 km de profundidade. Hoje a resposta vem de um método indireto: medir com precisão o campo gravitacional e comparar com o que ventos de profundidades diferentes produziriam.

O vento aumentou ao descer

A sonda Galileo, lançada na atmosfera em 1995, mediu o vento subir de cerca de 80 m/s no nível das nuvens para cerca de 160 m/s a 4 bar. Seguiu estável até 21 bar, cerca de 130 km, quando o sinal se perdeu.

Faixas e jatos: o que se vê e o que se mede

As zonas são as faixas claras e os cinturões, as escuras. Em geral, um jato para leste vem com uma zona ao sul e um cinturão ao norte, e um jato para oeste, com o contrário. Cada hemisfério tem cerca de seis jatos, e o equatorial é largo e vai para leste. O vento é medido seguindo as nuvens de uma imagem para outra. Em baixas latitudes passa de 100 m/s; o jato mais forte, de 140 m/s, está a 23° N e não tem par no sul. Quanto o vento explica a cor, é assunto em estudo.

Como sabemos a profundidade: a gravidade e os harmônicos ímpares

Vento que se estende no interior desloca massa e muda levemente a gravidade, e a Juno mede essa mudança pelo desvio Doppler de sinais de rádio ao passar a cerca de 4.000 km das nuvens. Os harmônicos pares dependem sobretudo da forma do planeta; os ímpares só podem vir de assimetrias, como a do jato de 23° N. Comparando as medidas com ventos que decaem com a profundidade, a correspondência em sinal e valor nos sete harmônicos aponta cerca de 3.000 km. É inferência de modelo, com a margem que isso traz.

Onde e por que os ventos perdem força

Cerca de 3.000 km abaixo das nuvens, a condutividade elétrica do gás já é da ordem de 1 S/m, parecida com a da água salgada, segundo a revisão de Kaspi e colegas. Vento forte nessa região esticaria o campo magnético e geraria correntes, e o campo observado não mostra esse efeito. Christensen e Wulff modelam um freio eletromagnético combinado com uma camada estável e obtêm uma queda brusca por volta de 2.000 km. É uma hipótese bem formulada, mas indireta.

As micro-ondas: a mesma faixa muda com a profundidade

O radiômetro de micro-ondas da Juno enxerga abaixo das nuvens, em pressões de poucos bar a cerca de 100 bar. As faixas aparecem também ali e acompanham os ventos de superfície. Mas o contraste inverte: os cinturões são brilhantes em micro-ondas acima de 5 bar e escuros abaixo de 10 bar, perto do nível de condensação da água. Isso sugere uma circulação diferente em camadas, o que ainda é hipótese. Esses níveis são bem mais rasos do que os cerca de 3.000 km dos jatos.

Como sabemos

A profundidade de cerca de 3.000 km vem de modelagem de dados reais da Juno, bem sustentada, mas é uma inferência; origem e freio dos jatos seguem como hipóteses.

Em debate: Durante décadas, modelos de camada rasa e modelos de convecção profunda explicaram os jatos. As medidas de gravidade da Juno apontam para ventos que chegam a milhares de km, mas a profundidade exata, a causa do freio e a origem dos jatos ainda dependem de modelos.

Fontes

  1. Weizmann Institute of Science e outras instituições (preprint de revisão para a Space Science Reviews) — Comparison of the deep atmospheric dynamics of Jupiter and Saturn in light of the Juno and Cassini gravity measurements
    Kaspi, Y.; Galanti, E.; Showman, A. P.; Stevenson, D. J.; Guillot, T.; Iess, L.; Bolton, S. J. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences — Quenching of zonal winds in Jupiter's interior
    Christensen, U. R.; Wulff, P. N. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2402859121
  3. Journal of Geophysical Research: Planets (versão aceita no arXiv) — Jupiter's Temperate Belt/Zone Contrasts Revealed at Depth by Juno Microwave Observations
    Fletcher, L. N. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. NASA Science — Jupiter Facts
    NASA · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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