Astronomia

Juno: o núcleo de Júpiter parece difuso e há ciclones em arranjo poligonal em cada polo

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Sistema Solar

Em órbita de Júpiter desde 2016, a Juno mediu a gravidade do planeta com precisão sem precedente. Modelos que reproduzem esses dados favorecem um núcleo difuso: elementos pesados misturados ao hidrogênio e ao hélio numa região extensa, e não só uma bola compacta de rocha. Nos polos, a sonda viu um ciclone central cercado por oito no norte e por cinco no sul. O tamanho do núcleo e a origem dos ciclones seguem em aberto.

Para olhar dentro de um planeta gasoso, a saída é indireta. A Juno mede o campo de gravidade de Júpiter, que depende de como a massa se distribui por dentro, e equipes ajustam a essas medidas modelos de interior calculados a partir do comportamento do hidrogênio e do hélio sob pressões enormes. O resultado não é uma imagem: é uma família de modelos compatíveis com os dados. Daí o adjetivo “difuso” (ou “diluído”): nesses modelos, o núcleo não tem fronteira nítida, e os elementos pesados vão rareando para fora. Os polos, que não se veem da Terra, foram fotografados de cima pela própria sonda. Os jatos de vento que descem milhares de quilômetros têm post próprio, e este trata do núcleo, dos ciclones polares, do campo magnético e da água.

Os polos que a Terra não vê

Por causa da pequena inclinação do eixo de Júpiter, as regiões polares não são visíveis da Terra, e as missões anteriores, cujas trajetórias pouco se afastavam do plano do equador do planeta, as conheciam mal. Foi a Juno, passando sobre os polos, que revelou os arranjos de ciclones.

Como se estuda o interior de um planeta sem superfície

O método é a gravidade. Quanto mais a massa se concentra no centro, mais o campo gravitacional se afasta do de uma esfera uniforme, e esse desvio é descrito por números chamados momentos gravitacionais. A Juno mediu os de baixa ordem com precisão sem precedente, e as equipes ajustam a eles modelos de interior calculados a partir de simulações de hidrogênio e hélio. O limite está na equação de estado, que ainda é incerta: modelos diferentes, com núcleos de tamanhos diferentes, podem reproduzir os mesmos dados.

O que é um núcleo difuso e quanto se sabe sobre ele

Em modelos com núcleo difuso há um núcleo compacto feito só de elementos pesados, uma região em que eles se misturam aos poucos ao hidrogênio e ao hélio, uma camada de hidrogênio metálico e uma de hidrogênio molecular. A ideia surgiu em 2017, quando os modelos com núcleo compacto não conciliavam bem os dados da Juno. Hoje há soluções de núcleo muito extenso e de núcleo pequeno. A origem do núcleo difuso também é debatida: erosão do núcleo antigo, acreção diferente de planetesimais ou até um impacto gigante, todas hipóteses.

Ciclones nos polos

Em cada polo há um ciclone central cercado por outros: oito ao norte e cinco ao sul, segundo as imagens da Juno. Segundo Cai e colegas, o do norte tem cerca de 4.000 km de diâmetro, e o sul chegou a ter seis ciclones em volta, voltando depois a cinco. Estão tão próximos que quase se tocam, mas não se fundem, e é isso que ninguém sabe explicar com certeza. Uma simulação de convecção profunda reproduz o arranjo, o que não prova que seja o mecanismo real.

Campo magnético e água

Mapas do campo magnético em profundidade mostram que boa parte do fluxo sai numa faixa estreita do hemisfério norte, e que o campo é bem menos simétrico que o da Terra. Os autores sugerem que o dínamo de Júpiter tem camadas, mas não ligam isso ao núcleo difuso. Quanto à água, o radiômetro de micro-ondas da Juno indicou, perto do equador, de 1 a 5,1 vezes o oxigênio protossolar, bem acima do valor da Galileo (0,46); isso vale só para a região equatorial.

Como sabemos

Os fatos observacionais (ciclones, gravidade, campo) são sólidos, mas o núcleo difuso é uma inferência de modelos cuja extensão ainda varia muito.

Em debate:

Fontes

  1. Nature — Clusters of cyclones encircling Jupiter's poles
    Adriani, A. et al. · 2018-03-07 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature25491
  2. arXiv (manuscrito submetido à Geophysical Research Letters) — Comparing Jupiter interior structure models to Juno gravity measurements and the role of a dilute core
    Wahl, S. M. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Astronomy & Astrophysics (versão arXiv) — Jupiter's interior from Juno: Equation-of-state uncertainties and dilute core extent
    Howard, S.; Guillot, T.; Bazot, M. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. Nature — A complex dynamo inferred from the hemispheric dichotomy of Jupiter's magnetic field
    Moore, K. M. et al. · 2018-09 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41586-018-0468-5
  5. arXiv (manuscrito submetido ao Planetary Science Journal) — Deep, Closely-Packed, Long-Lived Cyclones on Jupiter's Poles
    Cai, T.; Chan, K. L.; Mayr, H. G. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  6. arXiv (preprint) — The nature and composition of Jupiter's building blocks derived from the water abundance measurements by the Juno spacecraft
    Mousis, O.; Lunine, J. I.; Aguichine, A. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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