Zoologia
Como a jararaca detecta calor: a fosseta loreal e o TRPA1, canal medido em cascavel e em pítons
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Sentidos dos animais
A jararaca (Bothrops jararaca) é uma víbora de fosseta: de cada lado da cabeça, entre o olho e a narina, tem uma cavidade com membrana fina e nervosa que esquenta ao absorver infravermelho. O canal que converte esse calor em sinal nervoso, o TRPA1, foi identificado em estudo de 2010 com cascavel (Crotalus atrox), pítons e uma boa, e não com a jararaca.
Víboras da subfamília Crotalinae, como cascavéis e jararacas, têm um par de fossetas faciais. A fosseta é uma câmara dividida por uma membrana de poucos micrômetros, inervada pelo nervo trigêmeo. O infravermelho de uma presa aquece essa membrana; neurônios sensíveis ao calor disparam e o sinal segue ao tectum óptico, onde se junta ao da visão. Em cascavel, o transdutor é o TRPA1, um canal TRP (proteína da membrana que abre com um estímulo e gera corrente elétrica): ele abre com calor. As fontes lidas não trazem medida do TRPA1 da jararaca; a extensão a ela é inferência por parentesco.
O receptor do wasabi que virou termômetro
Nos mamíferos, o TRPA1 é conhecido como receptor do wasabi: reage ao composto pungente da mostarda. Nas pítons e boas testadas, o canal respondeu bem mais ao calor do que a esse composto, e o da cascavel abriu acima de cerca de 28 °C.
Uma antena térmica suspensa no ar
Cada fosseta é uma cavidade entre o olho e a narina, dividida por uma membrana de 8 a 16 µm suspensa no ar. O ar dos dois lados isola a membrana da perda de calor para os tecidos vizinhos, e o recuo da cavidade a protege do vento; as terminações nervosas ficam a cerca de 2 µm da superfície externa, onde o infravermelho é absorvido. Isso foi descrito sobretudo em cascavéis e em víboras de fosseta em geral, segundo uma revisão de 2023; a espessura e o arranjo não foram medidos na jararaca nas fontes que lemos.
Como sabemos que é calor, e não luz
Segundo a revisão de 2023, em 1937 Noble e Schmidt viram uma víbora copperhead atacar de preferência um rato aquecido, a 10 cm, mesmo com diferença de temperatura inferior a 0,2 °C entre os alvos. Em 1956, Bullock e Diecke registraram que os neurônios da fosseta seguiam respondendo com um filtro transparente ao infravermelho e deixavam de responder com um filtro opaco ou um copo d'água. Em 2010, o estudo do TRPA1 não achou sequências de opsina, a proteína da visão, no gânglio trigêmeo das serpentes examinadas.
O que o TRPA1 mostrou, e em que serpentes
Em 2010, Gracheva e colegas compararam os genes ativos no gânglio trigêmeo, que inerva a fosseta, e no da raiz dorsal, que inerva o tronco, de uma cascavel (Crotalus atrox). Só um gene se destacou: o do TRPA1, cerca de 400 vezes mais abundante no trigêmeo. Em ovócitos de rã que expressavam o canal, o da cascavel abriu a partir de cerca de 27,6 °C; o de pítons e boa, entre 29,6 e 32,7 °C; o de uma cobra sem fosseta, a 37,2 °C. A jararaca não aparece entre as espécies testadas.
O que já se viu na fosseta da jararaca
Na jararaca, as fontes lidas descrevem anatomia, não molécula. Um estudo de 2014 examinou a fosseta de 18 espécies de víboras, incluindo Bothropoides jararaca, nome que o artigo usa, e achou papilas ao redor da abertura do ducto da câmara interna nas linhagens neotropicais examinadas. Os gêneros asiáticos e norte-americanos estudados por mais de um século, entre eles Crotalus, não as têm. A função das papilas é desconhecida: uma hipótese é que sejam um segundo detector de infravermelho, outra, que ajudem a trocar calor.
Como sabemos
O mecanismo (fosseta aquecida, TRPA1) está em artigo e revisão abertos, mas foi medido em cascavel, pítons e boa; para a jararaca há só anatomia descritiva.
- Fato estabelecido: A jararaca (Bothrops jararaca), que vive na Mata Atlântica, é uma víbora de fosseta (subfamília Crotalinae): tem a fosseta facial na região loreal, entre o olho e a narina. [3] Introduction, §1 [4] Introduction
Contexto: Víboras de fosseta das Américas e da Ásia; a jararaca entra como 'lancehead' (jararaca-da-mata em português). · Limitações: A inferência 'jararaca é uma lancehead, logo tem fosseta' junta duas fontes; o estudo de 2014 (f3) examinou de fato a fosseta de Bothropoides jararaca (ver a14). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Nas víboras de fosseta, os receptores de infravermelho ficam numa membrana fina, de cerca de 8 a 16 µm de espessura, suspensa dentro da fosseta e separando-a em duas câmaras de ar. [2] Snake pit organs are anatomically specialized, §3
Contexto: Descrição geral das víboras de fosseta em revisão de 2023; as medidas vêm de estudos anatômicos citados pela revisão, não da jararaca em particular. · Limitações: Medida de espessura não verificada especificamente na jararaca nas fontes lidas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O ar nos dois lados da membrana a isola da perda de calor para os tecidos vizinhos, e o recuo da fosseta impede que o vento a esfrie; isso ajuda a membrana a responder a mudanças pequenas de temperatura. [2] Snake pit organs are anatomically specialized, §3
Contexto: Interpretação funcional da anatomia, apresentada pela revisão com base em modelos de transferência de calor. · Limitações: Raciocínio biofísico citado pela revisão; não foi testado na jararaca. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A membrana é densamente inervada por fibras do ramo trigêmeo do sistema somatossensorial, com terminações a cerca de 2 µm da superfície externa; esses sinais seguem ao tectum óptico, onde se juntam a informações de outros sentidos. [1] Introdução, §3 [2] Snake pit organs are anatomically specialized, §4
Contexto: Descrição feita em cascavel (Crotalus atrox) no artigo de 2010 e em víboras de fosseta em geral na revisão de 2023. · Limitações: Não foi medido na jararaca nas fontes lidas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A detecção de infravermelho pela fosseta funciona por aquecimento da membrana (radiação térmica) e não por uma molécula fotossensível como as opsinas do olho; nos gânglios trigêmeos das serpentes examinadas não se achou sequência do tipo opsina. [1] Results, §6 [2] Molecular mechanisms, §3
Contexto: Estabelecido em víboras de fosseta, pítons e boas; a revisão de 2023 descreve como teoria vigente. · Limitações: Não foi testado diretamente na jararaca. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Segundo a revisão de Laursen e colegas (2023), registros de Bullock e Diecke (1956) mostraram que as respostas dos neurônios da fosseta continuavam com um filtro transparente ao infravermelho entre a fonte de calor e a membrana, e desapareciam com um filtro opaco ao infravermelho. [2] Thermosensory neurons, §1
Contexto: Experimento eletrofisiológico clássico, descrito de segunda mão (Laursen et al. 2023 citando Bullock e Diecke 1956). · Limitações: Fonte primária de 1956 não lida; as espécies usadas são as do trabalho original, não indicadas aqui. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Segundo Laursen e colegas (2023), em 1937 Noble e Schmidt viram que uma víbora copperhead (Agkistrodon mokasen) atacava de preferência um rato recém-morto aquecido em vez de um resfriado, a 10 cm, com diferença de temperatura entre os alvos, no ponto do bote, menor que 0,2 °C; e experimentos com serpentes vendadas ou cegas de nascença mostram que a detecção de infravermelho basta para achar presas. [2] Heat-driven foraging, §1
Contexto: Experimentos comportamentais em víboras e outras serpentes com fosseta, relatados pela revisão; não foram feitos com a jararaca nas fontes lidas. · Limitações: Fonte primária de 1937 não lida (segunda mão). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: No estudo de 2010 com a cascavel Crotalus atrox, o gene do canal TRPA1 foi o único cuja expressão era muito maior no gânglio trigêmeo, que inerva a fosseta, que no gânglio da raiz dorsal, que inerva o tronco: cerca de 400 vezes. [1] Results, §3
Contexto: Cascavel Crotalus atrox (Western Diamondback); transcriptoma de gânglios (RNA mensageiro lido por sequenciamento), 2010. · Limitações: Estudo com poucos animais e em uma espécie; não incluiu a jararaca. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em células e ovócitos de rã expressando o canal, o TRPA1 da cascavel foi ativado pelo calor a partir de cerca de 27,6 °C, contra 37,2 °C no TRPA1 de uma cobra sem fosseta (rat snake); o da cobra de fosseta responde com limiar mais baixo. [1] Results, §8
Contexto: Canais clonados expressos em ovócitos de Xenopus (corrente elétrica medida), temperatura subindo 1 °C por segundo; Q10 mede quão abruptamente a resposta cresce a cada 10 °C. · Limitações: Medida em células artificiais, não no animal vivo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O TRPA1 de píton e de boa também abriu com calor, com limiares de 32,7 °C e 29,6 °C, pouco acima dos 27,6 °C da cascavel; nesses animais o TRPA1 foi o transcrito que mais se destacou no trigêmeo, 65 vezes (píton) e 170 vezes (boa) mais abundante que na raiz dorsal. [1] Results, §9
Contexto: Pítons e boas têm fossetas labiais e sensibilidade 5 a 10 vezes menor ao infravermelho que as víboras, segundo o artigo. · Limitações: Diferença de limiar de 2 a 5 °C; os autores dizem que outros fatores celulares e anatômicos também contribuem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores de 2010 sugerem que víboras de fosseta e pítons/boas, separadas por mais de 30 milhões de anos, adaptaram o TRPA1 como sensor de infravermelho de forma independente, por evolução convergente. [1] Discussion, §3
Contexto: Inferência de uma árvore filogenética de sequências de TRPA1, com valores de bootstrap. · Limitações: O próprio artigo diz que a relação evolutiva entre as serpentes é objeto de estudo e debate. · Hipótese dos autores a partir da filogenia do canal; o texto original usa 'sugere'. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O estudo molecular de 2010 usou como víbora de fosseta a cascavel Crotalus atrox, além de pítons, uma boa e cobras sem fosseta; a jararaca não é uma das espécies citadas. [1] Results, §9
Contexto: Resultados de TRPA1 se aplicam diretamente a cascavel, píton e boa; a extensão à jararaca é inferência por parentesco (ambas são víboras de fosseta). · Limitações: Afirmação sobre ausência da jararaca baseada nas espécies que aparecem no texto, nos resultados e nas figuras lidas; o material suplementar não foi lido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A sensibilidade térmica da fosseta é muito alta: segundo a revisão de 2023, estudos clássicos mostram respostas a mudanças de temperatura da membrana de apenas cerca de 0,003 °C. [2] Snake pit organs, §3
Contexto: Medida de estudos clássicos citados pela revisão (várias espécies de serpentes com fosseta). · Limitações: Valor em segunda mão; não medido na jararaca. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Estudo de 2014 que examinou a fosseta de 18 espécies de víboras, incluindo a jararaca (Bothropoides jararaca no artigo), achou papilas ao redor da abertura do ducto da câmara interna nas linhagens neotropicais examinadas, mas não em cascavéis; a função dessas papilas é desconhecida. [3] Discussion, §1
Contexto: Descrição anatômica feita sobretudo com exemplares de museu (inclusive do MZUSP) por microscopia óptica e eletrônica; as papilas não têm as terminações sensíveis ao infravermelho da membrana. · Limitações: O artigo usa a taxonomia de Fenwick e colegas, em que a jararaca é Bothropoides jararaca; outros autores a tratam como Bothrops jararaca (f4). Equivalência de nomes é nossa. Descritivo, sem teste de função. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em mamíferos, o TRPA1 é ativado pelo composto pungente do wasabi e da mostarda (AITC); os TRPA1 de píton e boa responderam bem mais ao calor que a esse composto. [1] Results, §10
Contexto: Canais clonados de píton e boa expressos em ovócitos; comparação com TRPA1 de rato. · Limitações: O artigo observa relação inversa entre sensibilidade ao calor e ao AITC nas diferentes espécies. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Nature — Molecular basis of infrared detection by snakes
Gracheva, E. O.; Ingolia, N. T.; Kelly, Y. M.; Cordero-Morales, J. F.; Hollopeter, G.; Chesler, A. T.; Sánchez, E. E.; Perez, J. C.; Weissman, J. S.; Julius, D. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature08943 - The Journal of Experimental Biology — Hunting with heat: thermosensory-driven foraging in mosquitoes, snakes and beetles
Laursen, W. J.; Tang, R.; Garrity, P. A. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1242/jeb.229658 - PLOS ONE — Discovery of a novel accessory structure of the pitviper infrared receptor organ (Serpentes: Viperidae)
Bolívar-G, W.; Antoniazzi, M. M.; Grant, T.; Jared, C. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0090622 - Frontiers in Neuroanatomy — Morphological plasticity of the retina of Viperidae snakes is associated with ontogenetic changes in ecology and behavior
Tashiro, J. H.; Ventura, D. F.; Hauzman, E. · 2022 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fnana.2021.770804
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)