Zoologia

O jacaré-do-pantanal aguentou décadas de caça ao couro e ainda soma milhões no Pantanal

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Nos anos 1980, centenas de milhares de peles de jacaré saíam ilegalmente do Pantanal a cada ano. Muita gente achou que a espécie ia sumir. Não sumiu. Quando a caça parou, no começo dos anos 1990, os censos aéreos da Embrapa Pantanal e de outros pesquisadores encontraram densidades acima de 100 jacarés por km² e uma população estimada em cerca de 3 milhões. Os mesmos cientistas dizem que a caça pesou menos do que se temia.

O jacaré-do-pantanal (Caiman yacare) vive em rios e áreas alagáveis do Brasil, da Bolívia, do Paraguai e da Argentina. Até 1967 o Brasil exportava legalmente centenas de milhares de peles de jacaré por ano. Naquele ano, a Lei 5.197, de proteção à fauna, proibiu a exportação de produtos de animais silvestres. A caça não acabou: virou contrabando. Na avaliação do pesquisador Guilherme Mourão, da Embrapa Pantanal, a lei sozinha não protegeu a espécie enquanto houve mercado para as peles. Os caçadores só pararam por volta de 1992, quando o preço das peles despencou no mercado internacional. A espécie aguentou por três motivos, segundo a Lista Vermelha da IUCN e o governo dos EUA: amadurece com tamanho pequeno, se adapta a muitos ambientes e aprende a fugir. Além disso, os caçadores levavam os maiores, quase todos machos, e caçavam onde era fácil chegar.

Fila indiana na seca

Quando as lagoas secam, os jacarés-do-pantanal atravessam o campo em busca de água. Ao contrário de outros crocodilianos, que costumam andar sozinhos, eles seguem em fila indiana, a até 5 m um do outro. Pesquisadores da Embrapa Pantanal já contaram grupos com mais de 30 animais. Na fila, os maiores não vão na frente: a ordem não segue o tamanho.

Um negócio que virou contrabando

Pelos anuários do IBGE, o jacaré foi o grupo de animais silvestres que mais gerou dinheiro com exportação de peles entre 1956 e 1969. Na maior parte dos anos 1960 o Brasil liderou esse comércio e chegou a 758 mil peles em 1967. Naquele ano a Lei 5.197 proibiu a exportação de produtos da fauna silvestre. Sem mercado legal, a caça virou contrabando. Fontes ligadas à CITES e à Traffic falam em várias centenas de milhares de peles por ano nos anos 1970 e 1980, talvez 1 milhão, sem estatística oficial.

Por que a caça parou

Para Guilherme Mourão, da Embrapa Pantanal, a lei sozinha não segurou os caçadores: a caça continuou enquanto houve comprador. Em 1990 o Ibama regulamentou a criação comercial, com cotas de coleta de ovos na natureza, e cooperativas do Pantanal norte recolheram mais de 200 mil ovos entre 1992 e 1994. Mas a caça parou mesmo por volta de 1992, quando a moda se voltou contra produtos de animais silvestres e o preço das peles caiu. Hoje a preocupação é outra: a caça ilegal para vender carne.

Contar jacarés do avião

Pesquisadores da Embrapa Pantanal, do INPA e de outras instituições fazem censos aéreos de jacarés e ninhos no Pantanal desde 1991. Esses voos encontraram densidades acima de 100 jacarés por km² em toda a planície, chegando a 147 por km² em algumas estimativas, número muito acima do registrado para outros crocodilianos. A população dos anos 1990 foi estimada em cerca de 3 milhões. É provável que a contagem fique abaixo do real, porque do avião é difícil ver os jacarés que estão na vegetação densa.

Peixe, ovos e seca

Peixes são os vertebrados mais presentes na dieta. No primeiro ano de vida, o filhote come quase só invertebrados. A fêmea põe em geral de 22 a 35 ovos num monte de folhas, e a temperatura decide o sexo: abaixo de 31,5 °C nascem fêmeas. Os ovos alimentam lobinhos, quatis e porcos-monteiros. O que mais pesa sobre a espécie hoje é a água. Depois da seca extrema que começou em 2019, pesquisadores da Embrapa e do INPA registraram declínio das populações e propuseram medidas de manejo para reduzir o impacto da seca.

Como sabemos

As fontes são a IUCN, o ICMBio, a Embrapa Pantanal, um periódico e o governo dos EUA. Os números de peles e de população são estimativas e aparecem assim. A premissa da pauta ('quase desapareceu') foi corrigida.

Em debate: Quanto a caça ao couro dos anos 1970 e 1980 reduziu a população do Pantanal ainda é uma questão aberta. Na época, observadores e o governo dos EUA temiam um declínio sério, e a IUCN registra populações 'um tanto reduzidas' no início dos anos 1990. Já os estudos feitos no Brasil, como Mourão et al. (1996), concluem que a caça não afetou seriamente as populações, porque se concentrava em machos grandes e em áreas acessíveis. Como não houve censo antes da caça, não dá para medir a queda. Por isso o post não diz que a espécie 'quase desapareceu'.

Em debate: O número de peles contrabandeadas nos anos 1970 e 1980 é incerto: as estimativas vão de várias centenas de milhares a cerca de 1 milhão por ano, e nem sempre separam o Pantanal do resto da área da espécie.

Fontes

  1. União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), cópia no repositório Alice da Embrapa — Caiman yacare, Yacaré — The IUCN Red List of Threatened Species 2020
    consultada em 05/10/2026
  2. Biodiversidade Brasileira (ICMBio), 3(1): 21–30, 2013 — Avaliação do risco de extinção do jacaré-do-pantanal Caiman yacare (Daudin, 1802) no Brasil
    consultada em 05/10/2026
  3. Embrapa Pantanal — Utilização econômica da fauna silvestre no Brasil: o exemplo do jacaré-do-pantanal (ADM 05, maio de 2000)
    consultada em 05/10/2026
  4. Oecologia Australis (UFRJ), 26(3), 2022 — Direções para mitigar os impactos da seca extrema nas populações de jacarés (Caiman yacare) no Pantanal
    consultada em 05/10/2026
  5. U.S. Fish and Wildlife Service / Federal Register (governo dos EUA) — Reclassification of Yacare Caiman in South America From Endangered to Threatened (65 FR 25867, 4 de maio de 2000)
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 5 imagem(ns) real(is) do Commons
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos