Física

Como descobrimos que insetos usam a luz polarizada do céu como bússola

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Sentidos dos animais

Para saber se um inseto se orienta pela luz polarizada do céu, gira-se um filtro polarizador sobre ele: se o rumo gira junto, o que ele lê é o padrão de polarização do céu e não apenas o Sol. Em formigas-bulldog australianas, um giro de 45° no filtro desviou a rota em cerca de 35°, nos dois sentidos, e elas voltaram ao rumo ao sair de baixo dele. Com abelhas, o mesmo raciocínio foi testado em túnel.

A luz do Sol é espalhada pela atmosfera e chega ao olho com as ondas oscilando em direções preferidas: é luz polarizada. O céu forma um padrão previsível, com a direção de oscilação (vetor e) tangente a círculos em torno do Sol e polarização máxima a cerca de 90° dele. Humanos quase não percebem isso; muitos artrópodes percebem, porque seus fotorreceptores têm microvilosidades alinhadas. Como o padrão acompanha o Sol, serve de referência mesmo quando nuvens ou vegetação tapam o disco solar. A dificuldade do experimento é separar esse sinal do Sol, do brilho do céu e da paisagem.

Um filtro de 30 cm basta

O aparelho é simples: um filtro polarizador de 30 cm de diâmetro preso a um anel a 10 cm do chão. A formiga anda por baixo dele a caminho do ninho, enquanto os pesquisadores marcam com estacas onde ela está e para onde vai.

Girar o filtro e medir o desvio

Em formigas-bulldog (Myrmecia) de Sydney, pesquisadores puseram um filtro polarizador de 30 cm sobre cada formiga que voltava ao ninho. O filtro troca o padrão do céu pelo seu próprio, girado em +45° ou −45°. Cada formiga recebeu os dois giros, em ordem aleatória, e o rumo foi medido antes, sob o filtro e depois dele. Se o padrão do céu guia a rota, o rumo deve acompanhar o giro nos dois sentidos e voltar ao normal quando o filtro sai de cima.

Por que o resultado não é só o Sol

O giro do filtro altera a polarização da luz que vem de cima, mas não move o Sol. O desvio foi igual nos dois sentidos e não dependeu da ordem dos testes, o que descarta efeito de sombra ou de brilho. Os testes foram feitos no crepúsculo e, para a Lua, quando só o padrão lunar estava presente no céu acima da formiga. No túnel das abelhas, um papel difusor removia qualquer visão do Sol. Resta a ambiguidade de 180°, que o padrão sozinho não resolve.

Abelhas: o túnel e a dança

Girar um filtro sobre um animal em voo é inviável. Em 2014, o grupo de Queensland treinou abelhas a voar por um túnel curto até o alimento, com teto de filtros polarizadores sob papel difusor. Com a polarização perpendicular ao túnel, elas dançaram na vertical; com a polarização paralela, na horizontal. Como a dança indica o rumo em relação ao Sol, a mudança mostra que a direção do vetor e serviu de referência. Em cada caso, as danças apontaram as duas direções opostas possíveis.

Onde fica o detector

O comportamento diz que o inseto usa o padrão; para achar o sensor, tampam-se estruturas. Em mamangavas (Bombus), os autores pintaram a área dorsal da borda do olho composto (DRA), os ocelos ou ambos e contaram quantas abelhas visitavam uma flor treinada com luz polarizada. Em luz forte, as duas estruturas contribuíram; em luz fraca, os ocelos. O teste foi numa arena de laboratório, com abelhas andando, e mede visita à flor, não rumo de voo.

Como sabemos

O raciocínio do filtro girado está bem documentado em formigas e abelhas, mas os números vêm de um estudo recente com um ninho por espécie.

Fontes

  1. Royal Society Open Science — Comparative use of a polarized light compass for twilight and moonlight navigation in diurnal and nocturnal bull ants
    Freas, C. A.; Cheng, K. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsos.250975
  2. Philosophical Transactions of the Royal Society B — Honeybee navigation: critically examining the role of the polarization compass
    Evangelista, C.; Kraft, P.; Dacke, M.; Labhart, T.; Srinivasan, M. V. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2013.0037
  3. Biology Letters — Polarized light detection in bumblebees varies with light intensity and is mediated by both the ocelli and compound eyes
    Araújo, P.; Belušič, G.; Ilić, M.; Foster, J.; Pfeiffer, K.; Baird, E. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsbl.2024.0299
  4. Current Zoology — A different view: sensory drive in the polarized-light realm
    Cronin, T. W. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/cz/zoy040
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

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