Linguística

Como sabemos que português, sânscrito e persa descendem de uma língua comum

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026

Em 1786, o estudioso britânico William Jones notou, em Calcutá, que sânscrito, grego e latim tinham parentesco forte demais para ser acaso. Dois séculos de comparação sistemática confirmaram a ideia: dezenas de línguas, do português ao persa e ao hindi, vêm de um ancestral comum, o protoindo-europeu, hoje falado por quase metade da humanidade em seus descendentes.

O argumento não depende de palavras parecidas, e sim de regularidades. Quando o latim tem p, o inglês costuma ter f, e isso se repete em dezenas de palavras: pater e father, mater e mother. Essas correspondências são previsíveis, e por isso permitem reconstruir formas do ancestral que ninguém escreveu. A família tem ramos como o indo-iraniano, o germânico, o itálico, o céltico, o eslavo e o báltico, além do grego, do armênio, do albanês, do tocário e do anatólio, já extinto. O que continua em debate não é o parentesco, e sim onde e quando se falava a língua-mãe. As datas propostas vão de cerca de 6 mil a 9 mil anos atrás.

Uma previsão confirmada em tabuletas de argila

Em 1878–1879, Ferdinand de Saussure propôs que o protoindo-europeu tinha certos sons que nenhuma língua conhecida preservava. Em 1915, Bedřich Hrozný identificou o hitita como indo-europeu, e nele apareceu um som que correspondia ao previsto. A reconstrução tinha antecipado o que a argila mostrou décadas depois.

O discurso de 1786

William Jones fez o discurso à Sociedade Asiática de Bengala, em Calcutá, em 2 de fevereiro de 1786. Afirmou que o sânscrito tinha com o grego e o latim uma afinidade mais forte, nas raízes dos verbos e nas formas da gramática, do que poderia ter sido produzida por acaso. Segundo a fonte consultada, ele incluiu também gótico, céltico e persa antigo no grupo. A ideia de parentesco por descendência de um ancestral talvez desaparecido é o núcleo da linguística histórica.

Por que a regularidade importa

Palavras parecidas podem surgir por empréstimo ou acaso. O método comparativo desconfia delas e procura o que se repete: se o p do latim vira f no germânico em pater/father e em outros casos, a relação é sistemática. A chamada lei de Grimm descreve esse deslocamento de consoantes no ramo germânico. Com ela, a mudança sonora deixou de ser vista como capricho e passou a ser tratada como processo regular, o que tornou possível reconstruir formas anteriores.

O hitita e as laríngeas

Em 1878, Saussure propôs que o protoindo-europeu teria consoantes que nenhum ramo conhecido preservava. No ano seguinte, Hermann Möller as chamou de laríngeas. Depois que Hrozný mostrou, em 1915, que o hitita era indo-europeu, um som escrito com h passou a aparecer justamente onde as outras línguas mostravam vogais longas ou um a inicial. A previsão baseada só em comparação interna foi confirmada por uma língua atestada em tabuletas cuneiformes.

Quando e onde: o debate em aberto

A hipótese das estepes situa a língua-mãe entre pastores da região pôntica por volta de 6 mil anos atrás. A anatólia a liga à difusão da agricultura, por volta de 9 mil anos atrás. Em 2023, uma equipe liderada pelo Instituto Max Planck, com mais de 80 especialistas, propôs um modelo híbrido, com origem ao sul do Cáucaso há cerca de 8.100 anos e um ramo secundário nas estepes. O modelo foi contestado: críticos dizem que suas datas não casam com tecnologias de vocabulário reconstruível. A questão segue aberta.

Como sabemos

O parentesco e o método são consenso; a pátria e a data da língua-mãe aparecem no texto como debate.

Em debate: O parentesco entre as línguas indo-europeias é consenso desde o século XIX. O debate é sobre a pátria e a data do protoindo-europeu: a hipótese das estepes (cerca de 6 mil anos atrás), a anatólia (cerca de 9 mil) e a híbrida de 2023 (cerca de 8.100, ao sul do Cáucaso). Pesquisadores do projeto Roots of Europe criticam o modelo de 2023 por discrepâncias entre as datas estatísticas e tecnologias datáveis pela arqueologia cujo vocabulário pode ser reconstruído.

Fontes

  1. EBSCO Research Starters — Indo-European Languages
    consultada em 04/10/2026
  2. Max-Planck-Gesellschaft (Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva) — New insights into the origin of the Indo-European languages
    consultada em 04/10/2026
  3. Linguistics Research Center, University of Texas at Austin — Introduction to Latin (Early Indo-European Online)
    consultada em 04/10/2026
  4. Linguistics Research Center, University of Texas at Austin — Introduction to Hittite (Early Indo-European Online)
    consultada em 04/10/2026
  5. EBSCO Research Starters — Jones Postulates a Proto-Indo-European Language
    consultada em 04/10/2026
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