Genética

Imprinting genômico: genes expressos só a partir da cópia materna ou da paterna, e as hipóteses para isso

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Genética

Imprinting genômico é a expressão de um gene a partir de apenas uma das duas cópias, a herdada da mãe ou a herdada do pai, conforme uma marca química posta no óvulo ou no espermatozoide. Em camundongos, embriões com dois genomas maternos ou dois paternos não chegam ao fim. Por que isso evoluiu é questão aberta: a hipótese do conflito entre pai e mãe é a mais discutida, mas nenhuma explica todos os dados.

Todo mamífero tem duas cópias de cada gene, uma de cada genitor, e na maioria dos genes as duas podem estar ativas. Cerca de 150 a 200 genes identificados em humanos e camundongos fogem disso: só uma das cópias é lida, sempre a de um mesmo genitor. A marca que distingue as cópias é a metilação do DNA (grupos metil ligados às citosinas, sem mudar a sequência), posta em regiões de controle durante a formação dos gametas e mantida nas células do corpo. Nas células germinativas ela é apagada e refeita conforme o sexo do indivíduo. O fenômeno depende de qual genitor transmitiu o gene, não do sexo da prole. A base epigenética em geral está no post sobre epigenética.

A marca é refeita a cada geração

Em camundongos, as marcas de imprinting são apagadas nas células germinativas e refeitas conforme o sexo do indivíduo: um macho que herdou um gene da mãe o transmite com a marca paterna. O que conta é o genitor que passa o gene agora.

Como sabemos: embriões com dois pais ou duas mães

Em 1984, grupos de McGrath e Solter e de Surani montaram embriões de camundongo por transferência nuclear: os com dois pronúcleos maternos ou dois paternos morriam, e só os com um de cada geravam filhotes. Em 1991, o nocaute do Igf2 mostrou efeito só quando o alelo vinha do pai. Em 2025, camundongos adultos de dois espermatozoides foram obtidos editando sete regiões de controle. Tudo isso é camundongo, e a edição de 2025 vem de um só grupo.

Como a marca é posta, mantida e apagada

A metilação do DNA é a única marca que se mostrou claramente funcionar como imprint herdado em mamíferos. As regiões de controle do imprinting (ICRs) regulam os cerca de 200 genes com imprinting em mamíferos. A marca vem do óvulo ou do espermatozoide, é mantida nas células do corpo e é reposta nas células germinativas. Como as marcas escapam da reprogramação logo após a fertilização é uma pergunta que a revisão de 2014 chama de misteriosa.

Por que existe: conflito e outras hipóteses

A hipótese do conflito parental (Moore e Haig, 1991) diz que genes de expressão paterna favorecem o crescimento do embrião e os de expressão materna o contêm, porque a mãe divide recursos entre filhos que podem ter pais diferentes. A teoria do parentesco de Haig, na mesma linha, ainda carece, segundo um artigo de 2020, de teste independente robusto. Uma segunda hipótese, a defesa trofoblástica, também existe. Nenhuma explica todos os dados, e a hipótese do conflito é hipótese, não fato estabelecido.

Plantas: o imprinting no endosperma

Em plantas com flores, o imprinting ocorre sobretudo no endosperma, o tecido que nutre o embrião, e no embrião jovem. O endosperma tem 2 genomas maternos para 1 paterno, e cruzamentos que desfazem essa proporção produzem sementes inviáveis. Em Arabidopsis, a enzima DEMETER ativa o alelo materno do gene MEDEA. Como o imprinting existe em mamíferos, em artrópodes e em plantas, mas não de modo difundido nos demais grupos, uma revisão de 2014 infere ao menos três origens independentes.

Como sabemos

Mecanismo e experimentos clássicos são bem sustentados; as hipóteses sobre a origem evolutiva seguem em debate e a maior parte das evidências vem de camundongo e Arabidopsis.

Em debate: Há duas hipóteses publicadas, a do conflito parental e a da defesa trofoblástica; segundo a revisão de 2014, nenhuma explica todos os dados.

Fontes

  1. Cold Spring Harbor Perspectives in Biology — Genomic Imprinting in Mammals
    Barlow, D. P.; Bartolomei, M. S. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1101/cshperspect.a018382
  2. Genome Research — The superpowers of imprinting control regions
    Montibus, B.; Court, F.; Arnaud, P. · 2026 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1101/gr.281215.125
  3. Frontiers in Plant Science — Unveiling the imprinted dance: how parental genomes orchestrate seed development and hybrid success
    Muthusamy, M.; Pandian, S.; Shin, E.-K.; An, H.-K.; Sohn, S.-I. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fpls.2024.1455685
  4. Evolution Letters — Parent of origin gene expression in the bumblebee, Bombus terrestris, supports Haig's kinship theory for the evolution of genomic imprinting
    Marshall, H.; van Zweden, J. S.; Van Geystelen, A.; Benaets, K.; Wäckers, F.; Mallon, E. B. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/evl3.197
  5. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Fertile androgenetic mice generated by targeted epigenetic editing of imprinting control regions
    Wei, Y.; Yue, T.; Wang, Y.; Yang, Y. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2425307122
  6. Evolution, Medicine, and Public Health — Mother's warmth from maternal genes: genomic imprinting of brown adipose tissue
    Ayache, L.; Bushell, A.; Lee, J.; Salminen, I.; Crespi, B. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/emph/eoad031
Histórico de alterações
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