Ecologia

O que a humanidade já deixou no fundo do mar: lixo em até 4.500 m, arrasto de fundo e poluentes, com lacunas

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

O fundo do mar profundo já registra marcas humanas diretas. Um levantamento europeu achou lixo em todos os 32 locais, até 4.500 m, em geral plástico; o arrasto de fundo alterou sedimentos e comunidades em taludes, cânions e montes submarinos; e poluentes foram medidos em sedimentos e animais. A escala total é pouco conhecida.

O mar profundo, abaixo de cerca de 200 m, é difícil e caro de amostrar, por isso quase nunca há um levantamento anterior ao impacto para comparar. Os efeitos são documentados por vídeos de ROV (robôs submarinos controlados da superfície), arrastos científicos, testemunhos de sedimento e análises químicas. Uma revisão de 2011, baseada em julgamento de especialistas, concluiu que o peso relativo das atividades humanas passou do descarte, no século XX, para a exploração, como a pesca, no século XXI. Este texto resume o que foi medido diretamente em lixo, pesca, poluentes e cabos; mineração e pesca de espécies específicas têm textos próprios.

Um cabo quebrado provou que havia vida

Foi a recuperação de um cabo telegráfico rompido, retirado de 2.180 m entre a Sardenha e Bona e coberto pelo coral Caryophyllia, que mostrou a viabilidade de vida em profundidades batiais inferiores, segundo a revisão de Ramirez-Llodra e colegas.

Lixo: presente onde se procurou, em quantidade ainda mal medida

Em águas europeias, o lixo apareceu em todos os 32 locais pesquisados, de 35 m a 4.500 m, com plástico e material de pesca abandonado como itens mais frequentes [a2][a3]. Os cânions concentraram mais lixo e, em montes e dorsais, predominou equipamento de pesca [a3][a4]. Apesar disso, a densidade ainda é menor que em algumas praias muito poluídas, e só uma fração minúscula do fundo foi vista [a5]. Em arrastos no Canal da Sardenha, a massa de lixo superou a biomassa em 60% dos lances [a6].

Arrasto de fundo: o impacto mais bem documentado em extensão

O arrasto só alcançou o mar profundo quando traineiras maiores surgiram, a partir do fim dos anos 1960 [a7]. No Atlântico Nordeste, a área arrastada é ordens de grandeza maior que a de cabos, descarte e petróleo e gás [a8]. Em um cânion do Mediterrâneo, o sedimento arrastado ficou mais denso e mostrou erosão [a9]. Em habitats de águas frias, a biomassa e a diversidade caem e não houve recuperação visível em 5 a 10 anos [a10]. A situação das espécies pescadas, como o orange roughy, está no texto sobre esse peixe.

Como sabemos: sem fotografia de antes, a comparação é entre lugares

Como o impacto em geral veio antes de qualquer levantamento de base, os estudos comparam áreas afetadas com áreas de controle vizinhas, como as encostas arrastadas e não arrastadas do Cânion de La Fonera [a9][a15]. A revisão de 2011 foi além e pontuou os impactos por consenso de 23 especialistas, o que gera um quadro útil, mas que não é medição [a1]. As lacunas vêm daí: poucos locais, poucos anos e métodos diferentes entre levantamentos.

Poluentes e cabos: o que se sabe e o que falta

Poluentes orgânicos persistentes foram medidos em cefalópodes de águas profundas, mas o efeito da contaminação química sobre a fauna é pouco estudado [a12]. Os cabos submarinos têm impacto físico considerado de benigno a pequeno [a14]. Uma estimativa recente mostra que enterrá-los perturbou milhões de toneladas de carbono do sedimento, bem menos que a pesca de fundo [a13]. A mineração e o contrato brasileiro com a ISA têm textos próprios.

Como sabemos

Os dados de lixo, arrasto e cabos vêm de artigos abertos lidos por inteiro, mas a síntese de poluentes e de tendências depende de uma revisão de 2011 baseada em julgamento de especialistas.

Fontes

  1. PLOS ONE — Man and the last great wilderness: human impact on the deep sea
    Ramirez-Llodra, E. et al. · 2011 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0022588
  2. PLOS ONE — Marine litter distribution and density in European seas, from the shelves to deep basins
    Pham, C. K. et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0095839
  3. Environmental Science and Pollution Research — Marine macro-litter mass outweighs biomass in trawl catches along abyssal seafloors of Sardinia channel (Italy)
    Carreras-Colom, E. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s11356-024-33909-3
  4. PLOS ONE — Impact of bottom trawling on deep-sea sediment properties along the flanks of a submarine canyon
    Martín, J.; Puig, P.; Masqué, P. et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0104536
  5. Nature Communications — Assessing the impact of the global subsea telecommunications network on sedimentary organic carbon stocks
    Clare, M. A.; Lichtschlag, A.; Paradis, S.; Barlow, N. L. M. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-023-37854-6
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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