Zoologia

Ilha da Queimada Grande: quantas jararacas-ilhoas existem, por que só vivem lá e o que a ciência mediu

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

A jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) vive só na Ilha da Queimada Grande, de 43 ha, a cerca de 30 km do litoral paulista, e provavelmente ficou isolada quando o nível do mar subiu. Marcação e recaptura entre 2002 e 2010 estimaram 80 a 218 adultos na faixa amostrada; um estudo genômico de 2025 cita 2.000 a 4.000 indivíduos, muito abaixo de uma cobra por metro quadrado.

A jararaca-ilhoa é uma víbora de fosseta (serpente com órgão sensível ao calor entre o olho e a narina) do gênero Bothrops. Seu parente continental mais próximo é a jararaca (Bothrops jararaca). A ilha, de 0,43 km², integra uma unidade de conservação de acesso restrito. Para contar um animal que quase não se vê, os pesquisadores usam marcação e recaptura: marcam indivíduos, voltam depois e, pela proporção de marcados que reaparecem, estimam quantos existem e quantos escapam da vista. Este texto separa o que foi medido (com data e método) do que circula como lenda. As razões gerais pelas quais ilhas abrigam espécies próprias, e o que o isolamento faz com o tamanho do corpo, estão em outros posts.

Uma dieta que depende de aves de passagem

Os adultos comem sobretudo duas de 41 espécies de aves migratórias que passam pela ilha. A mais comum no trato digestivo deles é um tiranídeo, Elaenia chilensis, que chega ao litoral no fim da estação chuvosa, época em que a sobrevivência estimada é um pouco maior.

Como sabemos: marcação, recaptura e seus limites

Entre 2002 e 2010, em dez visitas, de quatro a seis observadores percorreram uma faixa de 1.370 por 3 metros que cruza a ilha. Cada cobra achada era capturada à mão, marcada com um microchip e solta no mesmo lugar. Foram 291 adultos marcados e 46 recapturados. Um modelo estatístico usa essa proporção para corrigir o fato de que muitas cobras passam sem ser vistas. O resultado vale para adultos da faixa amostrada, e a chance de detectar um animal era baixa, o que deixa as estimativas largas.

Lenda e dado: o que cabe em 43 hectares

Medidos: 80 a 218 adultos disponíveis na faixa amostrada (2002 a 2010) e um total de 2.000 a 4.000 indivíduos citado em 2025, de segunda mão. A ilha tem 430 mil m². Uma cobra por m² daria 430 mil animais, mais de cem vezes o limite superior citado. Concentrar as 4.000 só na floresta, 60% da ilha, dá uma cobra a cada 65 m², aproximadamente. A conta é nossa e a densidade real varia de lugar para lugar. O que os estudos mostram é uma espécie rara demais para a lenda.

Por que só existe lá: o mar subiu

O cenário mais provável é que subidas do nível do mar, no fim do Pleistoceno e início do Holoceno, tenham separado do continente populações de jararacas do litoral. Registros do nível do mar apontam três períodos possíveis, de cerca de 9,5, 12 e 55 mil anos atrás, e o genoma sugere que a espécie já estava isolada antes da última subida. É hipótese com data incerta. Sem predadores terrestres na ilha, a cobra manteve, porém, o repertório de defesa.

Dieta e veneno: aves de passagem

Mais de 80% da dieta dos adultos é de aves passeriformes migratórias, algo que nenhuma outra espécie do grupo faz. Hipótese corrente: o veneno teria evoluído sob essa dieta e seria mais tóxico para aves que para mamíferos. O estudo genômico de 2025 mostra seleção natural atuando em genes do veneno, mas lembra que os genes e a expressão são parecidos com os da jararaca continental, o que enfraquece a ideia de especificidade. A questão segue aberta.

Ameaças e estado de conservação

A espécie está criticamente em perigo por viver em um só lugar, pequeno e com qualidade de hábitat em queda. Há suspeita e relato de retirada ilegal, e queimadas já ocorreram. A diversidade genética é de baixa a média, mas o genoma indica população estável por 10 mil anos. Queda recente e estabilidade genética não se contradizem, porque medem escalas de tempo diferentes. Em campo, o estudo de 2002 a 2010 não confirmou nem descartou a queda.

Como sabemos

As medições de campo e a situação de conservação estão em estudos abertos lidos por inteiro, mas o total de 2.000 a 4.000 indivíduos é de segunda mão e a data do isolamento é incerta.

Em debate: Um alerta de 2008 falava em queda entre 1995 e 2007; o estudo de marcação e recaptura de 2002 a 2010 não conseguiu confirmá-la, e a análise genômica indica tamanho estável por 10 mil anos. As incertezas são grandes nos dois casos.

Fontes

  1. PLOS ONE — Population Dynamics of the Critically Endangered Golden Lancehead Pitviper, Bothrops insularis: Stability or Decline?
    Guimarães, M.; Munguía-Steyer, R.; Doherty Jr, P. F.; Martins, M.; Sawaya, R. J. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0095203
  2. Ecology and Evolution — Genetic variability, management, and conservation implications of the critically endangered Brazilian pitviper Bothrops insularis
    Salles-Oliveira, I.; Machado, T.; Banci, K. R. S.; Almeida-Santos, S. M.; Silva, M. J. J. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/ece3.6838
  3. Genome Biology and Evolution — The Golden Lancehead Genome Reveals Distinct Selective Processes Acting on Venom Genes of an Island Endemic Snake
    Nachtigall, P. G.; Mason, A. J.; Rokyta, D. R.; Gibbs, H. L.; Grazziotin, F. G.; Junqueira-de-Azevedo, I. L. M. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/gbe/evaf243
  4. PLOS ONE — Overcoming the phantoms of the past: Influence of predatory stimuli on the antipredator behavior of island pitvipers
    Alves-Nunes, J. M.; Fellone, A.; Sazima, I.; Marques, O. A. V. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0288826
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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