Ciências da Terra

Como sabemos que a Terra tem cerca de 4,54 bilhões de anos

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

A idade aceita da Terra é de 4,54 bilhões de anos, com incerteza menor que 1%, segundo o Serviço Geológico dos EUA. Ela não vem de nenhuma rocha terrestre: nenhuma sobreviveu desde a formação do planeta. Vem de relógios radioativos, sobretudo a lenta transformação de urânio em chumbo, medidos em meteoritos que se formaram junto com a Terra e comparados com o chumbo terrestre. O primeiro cálculo preciso foi publicado em 1956 por Clair Patterson.

A Terra foi remexida desde o começo: bombardeio de meteoritos, derretimento, tectônica e erosão apagaram as rochas originais. As mais antigas conhecidas, os gnaisses de Acasta, no noroeste do Canadá, têm cerca de 4,03 bilhões de anos. Grãos minerais isolados vão mais longe: um cristal de zircão de Jack Hills, na Austrália Ocidental, foi datado em 4,404 bilhões de anos. Para chegar ao início, os geólogos usam meteoritos. Mais de 70 deles, de tipos diferentes, dão idades entre 4,53 e 4,58 bilhões de anos, e as rochas trazidas da Lua pelas missões Apollo e Luna ficam entre 4,4 e 4,5 bilhões. O raciocínio é que a Terra e os meteoritos nasceram do mesmo material, na mesma época; a razão entre isótopos de chumbo nos minérios terrestres mais antigos se encaixa na mesma evolução registrada nos meteoritos. Os primeiros sólidos do Sistema Solar foram datados em 4,567 bilhões de anos.

O cientista que tirou o chumbo da gasolina

Para medir a idade da Terra, Patterson precisou construir um laboratório ultralimpo, porque o chumbo do ambiente contaminava as amostras. Ao perceber que havia chumbo em toda parte, passou a combater a gasolina com chumbo tetraetila. Em 1965, publicou que a contaminação nos EUA era cerca de 100 vezes maior que a pré-industrial.

O relógio do urânio

Quando um mineral cristaliza, ele aprisiona átomos radioativos. Cada isótopo decai num ritmo fixo, medido pela meia-vida, o tempo para que metade dos átomos se transforme. O urânio-238 vira chumbo-206 com meia-vida de 4,5 bilhões de anos; o urânio-235 vira chumbo-207 em 704 milhões de anos. Medindo a proporção entre o que resta do elemento original e o que já se transformou, os geólogos calculam há quanto tempo o mineral se formou. Ter dois relógios de urânio no mesmo material permite conferir um com o outro.

Por que meteoritos

A superfície da Terra se recicla o tempo todo, e não se conhece rocha que tenha sobrevivido ao período de bombardeio intenso dos primeiros tempos. Os meteoritos, por outro lado, são pedaços do material que formou os planetas e ficaram praticamente intocados. A ideia, concebida por Harrison Brown, era usar meteoritos de ferro, que têm pouquíssimo urânio: o chumbo deles ficou quase como era no início. Comparando esse chumbo primordial com o de minérios terrestres antigos, dá para tratar a Terra e os meteoritos como um único sistema e calcular quando ele começou.

O laboratório limpo de Patterson

Clair Patterson (1922–1995) levou a ideia adiante e descobriu que o maior obstáculo era o chumbo do próprio ambiente, que contaminava as amostras. Construiu instalações limpas no Caltech e passou a purificar ele mesmo os reagentes. Com chumbo da troilita do meteorito Canyon Diablo, do Arizona, publicou em 1956 a idade de 4,55 bilhões de anos, com margem de 70 milhões. Até então, o valor mais citado era de cerca de 3,3 bilhões de anos, baseado em modelos frágeis. O número de Patterson resistiu às medições seguintes.

Os grãos de Jack Hills

Em Jack Hills, na Austrália Ocidental, rochas sedimentares guardam grãos de zircão mais antigos que elas mesmas. Em 2001, Simon Wilde, John Valley e colegas publicaram na Nature a datação de um desses grãos em 4,404 bilhões de anos, uns 130 milhões de anos mais velho que qualquer outro conhecido. Em 2014, a equipe de Valley examinou um zircão de Jack Hills com tomografia por sonda atômica, técnica que localiza átomos individuais de chumbo, e confirmou a idade de cerca de 4,4 bilhões de anos, uns 160 milhões de anos após a formação do Sistema Solar.

O que o número quer dizer

Segundo o Serviço Geológico dos EUA, os 4,54 bilhões de anos marcam o momento em que o urânio e o chumbo foram incorporados aos sólidos do Sistema Solar. Os grãos mais antigos de meteoritos, inclusões ricas em cálcio e alumínio, foram datados com precisão em 4.567,30 milhões de anos, com margem de 0,16 milhão. A Terra terminou de se formar algum tempo depois, e a colisão que, segundo a hipótese mais aceita, originou a Lua aconteceu há cerca de 4,5 bilhões de anos. Por isso as idades citadas variam um pouco conforme o evento que se quer datar.

Como sabemos

A idade e o método vêm do Serviço Geológico dos EUA e dos artigos originais; as interpretações sobre a Terra primitiva estão marcadas como tal.

Em debate: A idade de 4,54 bilhões de anos é consenso. O debate está nos detalhes: quanto tempo a Terra levou para terminar de se formar depois dos primeiros sólidos do Sistema Solar (4,567 bilhões de anos) e quando exatamente ocorreu o impacto que formou a Lua.

Em debate: O que os zircões de Jack Hills dizem sobre a Terra primitiva é interpretação: Wilde e Valley defendem que indicam crosta continental e água líquida antes de 4,3 bilhões de anos (hipótese da 'Terra primitiva fria'), mas a reconstrução das condições do Hadeano a partir de grãos isolados segue em discussão.

Fontes

  1. U.S. Geological Survey (USGS) — Age of the Earth
    consultada em 03/10/2026
  2. U.S. Geological Survey (USGS) — Radiometric Time Scale
    consultada em 03/10/2026
  3. California Institute of Technology (Caltech) — Getting the Lead Out
    consultada em 03/10/2026
  4. Nature (resumo via Europe PMC) — Evidence from detrital zircons for the existence of continental crust and oceans on the Earth 4.4 Gyr ago
    consultada em 03/10/2026
  5. Nature Geoscience — Hadean age for a post-magma-ocean zircon confirmed by atom-probe tomography
    consultada em 03/10/2026
  6. University of Wisconsin–Madison — Oldest bit of crust firms up idea of a cool early Earth
    consultada em 03/10/2026
  7. Science (resumo via Europe PMC) — The absolute chronology and thermal processing of solids in the solar protoplanetary disk
    consultada em 03/10/2026
  8. National Academy of Sciences (National Academies Press) — Clair Cameron Patterson (Biographical Memoirs)
    consultada em 03/10/2026
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