Corpo humano
O Cânone da Medicina de Ibn Sina foi livro-texto nas universidades europeias por séculos
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
Um livro escrito em árabe por um médico persa, começado no norte do Irã no início do século XI, virou matéria obrigatória nas faculdades de medicina da Europa. O Cânone da Medicina, de Ibn Sina, conhecido no Ocidente como Avicena, chegou ao latim em Toledo no século XII. Por volta de 1340 já fazia parte dos cursos, e entre 1500 e 1674 saíram cerca de sessenta edições dele na Europa, a maioria para o ensino universitário.
Ibn Sina nasceu em Afshana, aldeia perto de Bukhara, no atual Uzbequistão, então sob a dinastia samânida, e morreu em Hamadan, no Irã, em 1037. Escreveu o Cânone (al-Qanun fi al-Tibb) aos poucos, enquanto se mudava para oeste: começou em Gurgan, no norte do Irã, passou por Rayy, perto da atual Teerã, e terminou em Hamadan. São cinco livros: princípios gerais da medicina, remédios simples em ordem alfabética, doenças de cada parte do corpo da cabeça aos pés, doenças que atingem o corpo inteiro, como as febres, e receitas compostas. Na Europa, o texto circulou na tradução latina de Gerardo de Cremona, feita em Toledo na segunda metade do século XII. Em boa parte das universidades ele saiu do currículo na segunda metade do século XVI, mas em Pádua ainda se lecionava o primeiro livro em 1712–15.
Persa, chamado de árabe
Numa edição veneziana de 1595, hoje na Wellcome Collection, em Londres, a folha de rosto apresenta o autor como "Avicennae Arabum medicorum principis": Avicena, príncipe dos médicos árabes. O livro estava em árabe, a língua erudita do mundo islâmico, mas o autor era persa, nascido perto de Bukhara.
Um livro escrito em viagem
Ibn Sina nasceu perto de Bukhara, no domínio samânida, e escreveu o Cânone enquanto se deslocava pelo Irã: a obra foi começada em Gurgan, no norte do Irã, continuada em Rayy, perto da atual Teerã, e concluída em Hamadan, onde ele morreu em 1037. A obra foi escrita em árabe, a língua erudita do mundo islâmico.
Cinco livros
O Cânone se organiza em cinco livros. O primeiro trata dos princípios gerais da medicina. O segundo lista os remédios simples em ordem alfabética. O terceiro percorre as doenças de cada parte do corpo, da cabeça aos pés, em 22 seções. O quarto trata das doenças que atingem o corpo inteiro, como as febres, e o quinto reúne as receitas de remédios compostos. É um retrato da medicina de mil anos atrás, não um guia para hoje.
De Toledo às universidades
Em Toledo, na segunda metade do século XII, Gerardo de Cremona verteu o Cânone para o latim. A mais antiga menção num programa universitário é uma bula papal de 1309 para Montpellier, que o recomenda como leitura opcional; em 1340 ele já estava firmado nos cursos, e universidades alemãs fundadas nos séculos XIV e XV o adotaram. Com a imprensa, saíram onze edições latinas completas antes de 1500 e cerca de sessenta entre 1500 e 1674.
O declínio, devagar
No século XVI, médicos humanistas como Leoniceno e Leonhart Fuchs passaram a atacar os manuais de origem árabe, e Paracelso queimou o Cânone numa fogueira em Basileia em 1527. Na segunda metade do século, a maioria das universidades o retirou do currículo. Não todas: em Pádua o primeiro livro ainda era lecionado em 1712–15, e nas universidades espanholas o Cânone seguiu obrigatório até bem dentro do século XVIII.
Como sabemos
As datas da tradução, da entrada nos currículos, das edições e do declínio vêm da National Library of Medicine e da Encyclopaedia Iranica; a divergência sobre o fim do uso e o ano de nascimento está marcada.
Em debate: Ano de nascimento: a cronologia tradicional dá 980; Dimitri Gutas (Stanford Encyclopedia of Philosophy) prefere 'por volta de 970'.
Em debate: Até quando o Cânone foi livro-texto: as sínteses dizem 'até o século XVII' ou 'até meados do século XVII'; Ursula Weisser (Encyclopaedia Iranica) mostra que a maioria das universidades o retirou na segunda metade do século XVI, enquanto Pádua e as universidades espanholas o mantiveram até o século XVIII.
- Fato estabelecido: Ibn Sina, conhecido na Europa como Avicena, nasceu em Afshana, aldeia perto de Bukhara, no domínio samânida, e morreu em Hamadan em 1037. [2] [5]
- Em debate: O ano de nascimento tradicional é 980; há quem proponha cerca de 970. [2] [5]
Ghaffari et al. (2022) e a cronologia tradicional dão 980; a Stanford Encyclopedia of Philosophy (Gutas) dá 'por volta de 970'. O texto usa 'c. 980' e registra a divergência. - Consenso científico: Ibn Sina era persa (iraniano). [5]
- Fato estabelecido: O Cânone foi escrito em árabe ao longo de um longo período, começado em Gurgan, no norte do Irã, passando por Rayy, perto da atual Teerã, e concluído em Hamadan. [1] [3]
Percurso de composição segundo a National Library of Medicine; a língua árabe do original é atestada pela edição do texto árabe em Roma (Iranica). - Fato estabelecido: O Cânone tem cinco livros: princípios gerais, remédios simples em ordem alfabética, doenças de cada parte do corpo da cabeça aos pés, doenças que atingem várias partes do corpo (como as febres) e remédios compostos. [1]
- Fato estabelecido: Gerardo de Cremona, que morreu em 1187, traduziu o Cânone para o latim em Toledo na segunda metade do século XII, e foi nessa tradução que os europeus o leram. [1] [3] [5]
- Fato estabelecido: Uma bula papal de 1309 com o programa de Montpellier recomenda o Cânone como texto opcional; em 1340 ele já estava firmemente estabelecido nos programas de ensino, e universidades alemãs fundadas nos séculos XIV e XV também o adotaram. [3]
- Consenso científico: O Cânone foi a base do ensino de medicina nas universidades europeias até o século XVII. [2] [5] [3]
A SEP diz 'até o século XVII'; Ghaffari et al., 'até meados do século XVII'; Weisser (Iranica) mostra que a maioria das universidades o retirou na segunda metade do século XVI, com exceções que vão ao século XVIII. O texto usa as datas de cada fonte. - Estimativa: Entre 1500 e 1674, cerca de sessenta edições de parte ou de todo o Cânone foram publicadas na Europa, a maioria para o ensino universitário de medicina. [1]
Número da National Library of Medicine ('some sixty editions'). - Fato estabelecido: Onze edições incunábulas completas do Cânone latino saíram antes de 1500; uma versão hebraica foi impressa em Nápoles em 1491–92 e o texto árabe original em Roma em 1593. [3]
- Fato estabelecido: Paracelso queimou publicamente o Cânone na fogueira do dia de São João em Basileia, em 1527; humanistas como Leoniceno e Leonhart Fuchs criticaram os manuais de origem árabe. [3]
- Fato estabelecido: Na segunda metade do século XVI o Cânone saiu gradualmente do currículo da maioria das universidades europeias, mas em Pádua ainda se lecionava o primeiro livro em 1712–15 e nas universidades espanholas ele seguiu obrigatório até bem dentro do século XVIII. [3]
- Fato estabelecido: Uma edição latina do Cânone impressa em Veneza pelos Giunta em 1595, na versão de Gerardo de Cremona, apresenta o autor como 'Arabum medicorum principis' e está na Wellcome Collection. [4]
- Fato estabelecido: Na folha de rosto de 1595, Avicena aparece ao lado de Galeno e Hipócrates. [4]
Visível na própria gravura (nomes inscritos sobre as figuras).
Fontes
- U.S. National Library of Medicine (NIH) — Islamic Medical Manuscripts at the National Library of Medicine: Encyclopedias 8 (Ibn Sina, al-Qanun fi al-tibb)
consultada em 05/10/2026 - Stanford Encyclopedia of Philosophy — Ibn Sina [Avicenna]
consultada em 05/10/2026 - Encyclopaedia Iranica (Columbia University) — AVICENNA xiii. The influence of Avicenna on medical studies in the West
consultada em 05/10/2026 - Wellcome Collection — Arabum medicorum principis / Avicennae [Canon medicinae], ex Gerardi Cremonensis versione. Venetiis: Juntas, 1595
consultada em 05/10/2026 - Journal of Medicine and Life (PubMed Central) — Avicenna and clinical experiences in Canon of Medicine (Journal of Medicine and Life, 15(2), 2022)
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão