História da África

Em 1377, Ibn Khaldun, nascido em Túnis, escreveu uma ciência da sociedade, da economia e da queda dos Estados

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Em 1377, recolhido em Qal'at Ibn Salama, no Magrebe, o tunisino Ibn Khaldun terminou a Muqaddimah, a introdução à sua história universal. Ali ele propôs estudar a sociedade humana como um objeto com regras próprias: por que grupos coesos fundam Estados, por que os Estados se desgastam em poucas gerações, de onde vem a riqueza e o que acontece quando o governo aumenta demais os impostos.

Ibn Khaldun nasceu em Túnis em 27 de maio de 1332, numa família de letrados cuja origem remontava a Sevilha e, antes, a uma tribo do sul da Arábia. Aos 17 anos perdeu os pais e vários professores na peste de 1349. Passou cerca de 25 anos a serviço de cortes do Magrebe e de Al-Andalus, em Fez, Granada e Bugia, entre cargos, intrigas e uma prisão. Em 1374 se retirou em Qal'at Ibn Salama, onde, em pouco mais de três anos, redigiu a Muqaddimah. A partir de 1382 viveu no Cairo, onde foi nomeado seis vezes juiz principal da escola jurídica maliquita. No início de 1401, durante o cerco de Damasco, encontrou-se com o conquistador Timur. Morreu no Cairo em 17 de março de 1406.

Citado na Casa Branca

Em 1º de outubro de 1981, numa entrevista coletiva para defender cortes de impostos, o presidente americano Ronald Reagan citou Ibn Khaldun: no começo da dinastia, impostos pequenos rendiam muito; no fim, impostos grandes rendiam pouco. Pesquisadores lembram que o tunisino também dava ao Estado um papel ativo na economia.

Uma vida nas cortes do Magrebe

Ibn Khaldun nasceu em Túnis, em 1332, numa família de letrados vinda de Sevilha. Estudou Corão, direito, poesia e filosofia, e aos 17 anos perdeu os pais e professores na peste de 1349. Durante cerca de 25 anos serviu a governantes do Magrebe e de Al-Andalus: foi preso em Fez em 1357, cumpriu missão diplomática para Granada e teve cargo em Bugia. Essa experiência direta da política, com suas alianças tribais e golpes, é a matéria-prima da teoria que ele escreveria depois.

Asabiyya e o ciclo das dinastias

A ideia central da Muqaddimah é a asabiyya, traduzida como sentimento de grupo ou coesão social. Grupos rurais e nômades, com vida dura e laços fortes, conseguem conquistar cidades e fundar dinastias. No poder, a nova elite se acostuma ao luxo urbano, a coesão se desfaz, os gastos sobem e com eles os impostos. Ibn Khaldun estimou que esse ciclo dura em regra três gerações, às vezes quatro, cerca de 120 anos, até que outro grupo coeso tome o lugar. É uma regra geral tirada dos Estados do norte da África que ele conheceu, não uma lei exata.

Trabalho, preços e impostos

Na Muqaddimah, o lucro é o valor realizado pelo trabalho humano, e o trabalho combinado de muitos produz mais do que todos precisam, o que gera excedente, comércio e luxo nas cidades. Ele explica a alta dos preços nas cidades ricas pela procura grande por bens escassos. Sobre impostos, observou que no começo da dinastia taxas pequenas rendem muito e no fim taxas grandes rendem pouco, e que o governante que compete com os súditos no comércio arruína produtores e a própria arrecadação.

Precursor, leitura política e limites

Desde o século XIX, estudiosos europeus o trataram como precursor da sociologia e como antecipador de Adam Smith e de Marx. Pesquisas recentes aceitam paralelos com Smith em pontos como a divisão do trabalho, mas criticam os títulos de 'primeiro' e lembram que traduções de termos como valor e preço variam. A obra também tem trechos depreciativos sobre povos negros e eslavos, que ele atribuía ao clima, rejeitando a 'maldição de Cam'; se isso o torna crítico ou reprodutor dos preconceitos de sua época é debatido.

Como sabemos

Datas da vida, a Muqaddimah de 1377 e os conceitos centrais são bem documentados; as comparações com Smith e Marx e a questão racial são apresentadas como debate.

Em debate: Precursor de quem? A leitura de Ibn Khaldun como antecipador de Adam Smith, Marx, Comte ou Durkheim é antiga e popular; pesquisadores como Karataşlı e Clark (2024) aceitam paralelos com Smith em pontos específicos, mas criticam os rótulos de 'primeiro sociólogo' ou 'primeiro economista' e negam que ele seja predecessor de Marx.

Em debate: Uso político: Reagan (1981) e outros o citaram como defensor de cortes de impostos; Karataşlı e Clark argumentam que sua economia política dava ao Estado um papel maior, mais próximo de modelos keynesianos.

Em debate: Raça e clima: a Muqaddimah tem trechos depreciativos sobre povos negros e eslavos; parte dos estudiosos o vê como racista ou produto de sua época, outra parte lê esses trechos como relatos de fontes anteriores que ele tenta explicar pelo clima, rejeitando a 'maldição de Cam'.

Em debate: Tradução: termos como 'valor', 'preço' e 'lucro' variam entre as traduções, o que afeta comparações com a economia moderna.

Fontes

  1. Encyclopedia.com (Gale / Macmillan Reference) — Ibn Khaldun (Encyclopedia of Religion; International Encyclopedia of the Social Sciences; Complete Dictionary of Scientific Biography)
    consultada em 05/10/2026
  2. Journal of World-Systems Research, vol. 30, n. 1 (2024), University of Pittsburgh — Ibn Khaldun's Labor Theory of Value and the Question of Race
    consultada em 05/10/2026
  3. Adam Akademi Sosyal Bilimler Dergisi, 8(2), 2018, Ankara Yıldırım Beyazıt University — Ibn Khaldun's Cyclical Theory on the Rise and Fall of Sovereign Powers: The Case of Ottoman Empire
    consultada em 05/10/2026
  4. Ronald Reagan Presidential Library (National Archives, EUA) — The President's News Conference, October 1, 1981
    consultada em 05/10/2026
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