Física

Ibn al-Haytham, no século XI, explicou a visão pela luz que entra no olho e usou o experimento como prova

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Desde a Grécia antiga, filósofos discutiam se o olho emite raios ou se recebe algo do mundo. Ibn al-Haytham, nascido em Basra e morto no Cairo, encerrou a disputa no Livro da Óptica, concluído entre 1028 e 1038: cada ponto de um objeto iluminado lança luz em todas as direções, e é essa luz que entra no olho. Para sustentar a tese, montou aparelhos e testou o que afirmava. A Europa o leu em latim com o nome de Alhacen.

O Kitab al-Manazir tem sete livros e junta geometria, física da luz, anatomia do olho e psicologia da percepção. Ibn al-Haytham criticou cada teoria grega: os atomistas, os matemáticos que imaginavam raios saindo do olho, os aristotélicos. Um de seus argumentos é simples: luz forte demais machuca o olho, sinal de que ele recebe algo de fora. Para provar o que dizia, usou o i'tibar, a verificação por experimento com instrumentos construídos para isso. O historiador A. I. Sabra descreveu a obra como composta de experimentos sistemáticos e provas geométricas. A tradução latina, anônima, surgiu no fim do século XII ou no início do XIII e virou referência de Roger Bacon, Witelo e John Pecham. A teoria da visão que ele montou durou, no essencial, até Johannes Kepler, em 1604.

Alhazen é um nome do século XVI

Os manuscritos latinos medievais o chamam de Alhacen, forma próxima de al-Hasan, seu primeiro nome. Segundo o historiador A. Mark Smith, a grafia Alhazen, a mais conhecida hoje, parece ter nascido só em 1572, na edição impressa em Basileia por Friedrich Risner.

Uma disputa antiga

Na Antiguidade havia duas respostas para a pergunta 'como vemos?'. Na intromissão, algo vindo do objeto entra no olho; os atomistas imaginavam películas que se desprendiam das coisas, o que não explicava como uma montanha caberia na pupila. Na extromissão, defendida por matemáticos gregos, o olho lança raios que tocam o objeto. Pensadores do mundo islâmico antes de Ibn al-Haytham escreveram tratados pelos dois lados. Ele examinou cada teoria, guardou o que funcionava e descartou os raios que saíam do olho como desnecessários.

Como a luz forma a visão

Para Ibn al-Haytham, cada ponto de um objeto iluminado irradia luz e cor em todas as direções, em linha reta. Isso criava um problema: se todos os raios chegam ao olho, a imagem seria uma mistura. Sua solução foi supor que só os raios que atingem a córnea em ângulo reto produzem a impressão nítida; os outros são desviados e enfraquecidos. Assim cada ponto do objeto corresponde a um ponto no olho. A solução tinha falhas que só Kepler resolveu, ao mostrar que o cristalino é uma lente e que a imagem se forma, invertida, na retina.

O experimento como prova

O Livro da Óptica alterna demonstrações geométricas e experimentos descritos em detalhe, com aparelhos construídos para testar o comportamento da luz, inclusive na reflexão e na refração. Ibn al-Haytham chamava esse procedimento de i'tibar. Em Dúvidas sobre Ptolomeu ele defendeu que a verdade se busca por si mesma e que vale a demonstração, não a autoridade de um homem. Historiadores divergem sobre o alcance disso: parte dos experimentos é feita em pensamento, não na bancada. Por isso o rótulo 'pai do método científico' continua em debate.

De Alhacen a Kepler

A tradução latina anônima, chamada Perspectiva ou De aspectibus, apareceu no fim do século XII ou início do XIII. Roger Bacon a cita muitas vezes; Witelo e John Pecham construíram sobre ela os manuais de óptica da Europa medieval. Em 1572, Friedrich Risner imprimiu o texto em Basileia, junto com a obra de Witelo, no Opticae thesaurus. Kepler, Descartes e Huygens o leram. O livro de óptica de Kepler, de 1604, se apresenta como um suplemento a Witelo, o principal herdeiro latino de Ibn al-Haytham.

Como sabemos

Teoria da visão, datação e transmissão latina conferidas no Dictionary of Scientific Biography, na resenha acadêmica da edição de A. Mark Smith e em texto de A. I. Sabra; o rótulo de 'pai do método científico' está marcado como controverso e o episódio de al-Hakim como incerto.

Em debate: Pai do método científico? Ibn al-Haytham fez do experimento controlado uma forma de prova na óptica e defendeu a dúvida diante das autoridades. Parte dos autores (como S. M. Razaullah Ansari, no Correio da UNESCO) o vê como precursor de Galileu. Outros historiadores lembram que vários de seus experimentos são de pensamento e que o rótulo é anacrônico. A. I. Sabra, tradutor da Óptica para o inglês, ressalta o caráter experimental da obra sem atribuir a ele a invenção do método.

Em debate: O episódio da loucura fingida diante do califa al-Hakim vem de biógrafos do século XIII e tem versões contraditórias; não se sabe se aconteceu como contado.

Fontes

  1. Charles Scribner's Sons / Encyclopedia.com — Ibn Al-Haytham, Abū ʿAlī Al-Ḥasan Ibn Al-Ḥasan (Complete Dictionary of Scientific Biography)
    consultada em 05/10/2026
  2. Institute for Research in Classical Philosophy and Science (Aestimatio), Universidade de Toronto — Resenha de A. Mark Smith, Alhacen's Theory of Visual Perception (Transactions of the American Philosophical Society 91, 2001), Aestimatio 1 (2004), pp. 5–12
    consultada em 05/10/2026
  3. Harvard University (Harvard Magazine) — Ibn al-Haytham: brief life of an Arab mathematician (Harvard Magazine, set.–out. 2003)
    consultada em 05/10/2026
  4. UNESCO (O Correio da UNESCO) — Ibn al-Haytham's scientific method
    consultada em 05/10/2026
  5. MacTutor History of Mathematics, Universidade de St Andrews — Abu Ali al-Hasan ibn al-Haytham
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Capa trocada na conferência: imagem de abertura ligada ao assunto do título
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

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