Ciências da Terra

Por que os dados de temperatura são ajustados: a homogeneização corrige saltos de instrumento e de local

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Tempo e clima

Termômetros trocados, estações que mudam de lugar ou de horário de leitura e navios substituídos por boias criam saltos nas séries que não são clima. A homogeneização procura esses saltos comparando cada estação com as vizinhas e corrige ou separa os trechos. No oceano, o ajuste elevou a tendência recente de 0,07 para 0,12 °C por década, e boias e satélites independentes concordam com o valor corrigido.

Uma série é homogênea quando suas variações vêm só do tempo e do clima. Estações reais raramente são assim: o termômetro é trocado ou recalibrado, o horário de leitura muda, o posto é transferido, o entorno é construído. Em séries instrumentais do Ocidente, os estudos acham cerca de uma quebra a cada 15 a 20 anos, e o salto típico tem a mesma ordem de grandeza do aquecimento do século 20. Se as quebras fossem aleatórias, tenderiam a se anular na média, mas podem apontar na mesma direção em regiões inteiras. Homogeneizar é detectar essas quebras, em geral comparando a estação com vizinhas que vivem o mesmo clima, e então corrigir o trecho ou tratá-lo como outra estação. Como se monta a média global está em outro post.

Testar a correção com erros que já se conhece

Para avaliar os algoritmos, pesquisadores inseriram quebras de tamanho conhecido em séries simuladas e pediram a vários grupos que as corrigissem às cegas. Em temperatura, os métodos relativos melhoraram os dados; em chuva, só os melhores.

Como um salto é achado: comparar com os vizinhos

Estações próximas vivem quase o mesmo clima, então a diferença entre duas delas deve oscilar sem rumo. Um degrau repentino nessa diferença sugere que uma das duas mudou de instrumento, de local ou de entorno. A NOAA faz isso em pares, em muitas estações ao mesmo tempo, e só depois de fixar a data de todos os saltos calcula o ajuste de cada um a partir da diferença média com as vizinhas sem salto. O Berkeley Earth usa a mesma ideia de vizinhança para achar a quebra, mas, em vez de ajustar, divide a série em duas estações.

No mar: dos navios às boias

Em terra o problema é a estação; no mar, é o instrumento. Até as duas últimas décadas, a maior parte das medições vinha de navios, primeiro com baldes lançados ao mar e, depois de 1940, cada vez mais pela entrada de água do motor. De 1990 a 2015, a medição passou de 80% feita por navios para 80% feita por boias. Como navios modernos registram temperaturas cerca de 0,12 °C acima das boias, misturar as duas sem correção pode introduzir um viés na série. A NOAA incluiu correções para isso na versão 4 da ERSST, e a tendência recente subiu.

Como sabemos que a correção acerta

Há três testes. O primeiro é cego: algoritmos recebem séries simuladas com quebras conhecidas e são medidos pelo erro; em temperatura, os relativos melhoraram os dados. O segundo usa instrumentos que não mudaram: boias, Argo e satélites concordam em geral com a série corrigida. O terceiro compara métodos: o Berkeley Earth, que só divide as séries, chegou a resultados próximos dos de quem corrige. Cada teste tem limite: o cego é simulação, as boias pesam na ERSST v4 e a comparação do Berkeley foi feita pelos próprios autores do método.

O que muda na conclusão, e o que não se sabe

Ajustar não vira o resultado de cabeça para baixo, mas também não é neutro. No mar, o estudo de Karl e colegas, de 2015, encontrou tendência maior que a do IPCC nas décadas recentes, e a avaliação de 2017 com instrumentos homogêneos concordou com a correção da NOAA. Nas fontes lidas aqui não há um número líquido do efeito dos ajustes na terra no longo prazo, e não se deve supor que ele tenha um só sinal. O efeito das cidades, tratado em outro post, é um problema vizinho: é local, e comparar com estações vizinhas ajuda a notá-lo.

Como sabemos

Mecanismos e resultados vêm de artigos e de página da NOAA lidos; falta, nas fontes abertas lidas, um número líquido do efeito dos ajustes na terra e no longo prazo.

Fontes

  1. Science (NOAA NCEI) — Possible artifacts of data biases in the recent global surface warming hiatus
    Karl, T. R.; Arguez, A.; Huang, B.; Lawrimore, J. H.; McMahon, J. R.; Menne, M. J.; Peterson, T. C.; Vose, R. S.; Zhang, H.-M. · 2015-06-26 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.aaa5632
  2. Science Advances — Assessing recent warming using instrumentally homogeneous sea surface temperature records
    Hausfather, Z.; Cowtan, K.; Clarke, D. C.; Jacobs, P.; Richardson, M.; Rohde, R. · 2017-01-04 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1601207
  3. Geoinformatics & Geostatistics: An Overview — Berkeley Earth Temperature Averaging Process
    Rohde, R.; Muller, R.; Jacobsen, R.; Perlmutter, S.; Rosenfeld, A.; Wurtele, J.; Curry, J.; Wickham, C.; Mosher, S. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.4172/2327-4581.1000103
  4. Climate of the Past — Benchmarking homogenization algorithms for monthly data
    Venema, V. K. C. et al. · 2012-01-10 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.5194/cp-8-89-2012
  5. NOAA NCEI — Global Historical Climatology Network monthly (GHCNm)
    NOAA National Centers for Environmental Information · 2018 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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