Paleontologia

Linhas de crescimento no osso: como se estima a idade de um dinossauro e onde o método falha

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Fósseis

Cortado em lâmina fina e visto ao microscópio, o osso de um dinossauro guarda linhas de crescimento interrompido (LAGs), em geral uma por ano, que permitem contar a idade e medir o ritmo de crescimento. Com elas, estudos de 2004 apontaram que o T. rex chegou ao tamanho final em cerca de 20 anos; um estudo de 2026, com 17 indivíduos, indica 35 a 40 anos. Osso remodelado apaga linhas e torna a conta uma estimativa.

O osso cresce por deposição de camadas novas. Quando o crescimento desacelera ou para, em geral uma vez por ano, fica no tecido uma marca: uma linha fina (LAG, do inglês lines of arrested growth) ou uma faixa mais larga (annulus). Numa lâmina fina, uma seção transversal tão delgada que a luz a atravessa, cada marca representa um intervalo de um ano, e a espessura de osso entre duas marcas mostra quanto o animal cresceu nele. Em fósseis há dois obstáculos: a cavidade central do osso se expande e destrói as marcas mais antigas, e o osso pode ser remodelado, isto é, reabsorvido e refeito por osteons secundários (sistemas de Havers), que apagam o registro. Por isso a idade sai como estimativa, com margem de erro, e não como contagem exata.

Dois ossos, duas idades

No Berthasaura, dinossauro do Cretáceo do sul do Brasil, o fêmur rendeu 4 anos de idade estimada e a tíbia, 3, apesar de terem o mesmo número de LAGs visíveis. Os autores atribuem a diferença ao cálculo das linhas perdidas.

O que se conta e o que se mede na lâmina

Os pesquisadores cortam o osso em seção transversal, em geral do fêmur ou da tíbia, e examinam a lâmina ao microscópio. Há marcas que só aparecem em luz polarizada cruzada, e o estudo de 2026 mostrou que contá-las melhora o ajuste estatístico. A idade vem do número de marcas; o ritmo, da espessura de osso entre elas. O raciocínio vale o quanto vale a premissa de que cada marca é um ano, e é essa premissa que os limites, abaixo, colocam à prova.

As linhas que o próprio osso apagou

O osso é um tecido vivo: a cavidade central se expande e o osso velho é reabsorvido e refeito. No T. rex, essa remodelação densa aparece em indivíduos mais velhos e esconde as marcas mais internas. Quando isso ocorre, o retrocálculo mede o osso perdido e extrapola o número de marcas faltantes. É uma estimativa: no Berthasaura, fêmur e tíbia, com o mesmo número de LAGs visíveis, deram 4 e 3 anos. Por isso se prefere amostrar mais de um osso.

Curvas de crescimento e o tamanho final do T. rex

Em 2004, dois estudos estimaram que o T. rex chegou ao tamanho final em cerca de 20 anos ou menos. O estudo de 2026 discute que o modelo anterior se apoiava em sete indivíduos e em ossos de tipos diferentes, com só um exemplar na fase juvenil da curva. Com 17 indivíduos e um modelo que estima a marca mais antiga preservada de cada um, o tamanho final só vem perto dos 35 a 40 anos. É a estimativa mais recente, de um único grupo de pesquisa, e ainda precisa de replicação.

Quando a linha não é um ano: o teste com crocodilos

A regra de uma marca por ano foi testada em animais vivos de idade conhecida. Em quatro crocodilos-do-nilo de 2 anos, marcados com fluorocromo, todos tinham mais marcas do que o esperado, e as extras se formaram na estação favorável de crescimento. Os autores concluem que marcas em ossos fósseis não são um estimador plenamente confiável de idade. Não significa que o método seja inútil: ele fornece uma faixa de idade, e as diferenças entre ossos e entre estudos mostram o tamanho dessa faixa.

Como sabemos

O método e seus limites estão bem documentados em fontes abertas; os números de idade do T. rex são estimativas que um estudo de 2026 revisou.

Em debate: Estudos de 2004 apontaram cerca de 20 anos; o de 2026 estima 35 a 40 anos com mais indivíduos e outro modelo estatístico. A diferença vem do método e da amostra, e ainda não há replicação independente.

Fontes

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    Woodward, H. N.; Myhrvold, N. P.; Horner, J. R. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7717/peerj.20469
  2. Scientific Reports — Stochastic growth marks in Crocodylus niloticus
    Chinsamy, A.; Pereyra, M.-E. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-025-31384-5
  3. PeerJ — Dinosaur paleohistology: review, trends and new avenues of investigation
    Bailleul, A. M.; O'Connor, J.; Schweitzer, M. H. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7717/peerj.7764
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  5. Proceedings of the Royal Society B — Age and growth dynamics of Tyrannosaurus rex
    Horner, J. R.; Padian, K. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2004.2829
  6. The Anatomical Record — Growth dynamics, skeletochronology, and histovariability of the theropod dinosaur Berthasaura leopoldinae
    de Souza, G. A.; Soares, M. B.; Weinschütz, L. C.; Kellner, A. W. A. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/ar.70110
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)

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