Oceanografia

Hidrato de metano: o gelo que queima guarda carbono sob o fundo do mar, e o risco climático é incerto

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Mar profundo

Hidrato de metano é um sólido parecido com gelo em que moléculas de água formam gaiolas que prendem metano. Só se forma sob alta pressão e temperatura moderada, por isso ocorre em sedimentos marinhos a partir de cerca de 500 m e em áreas de permafrost. As estimativas globais vão de 1.800 a 12.400 gigatoneladas de carbono. Revisões do USGS não acham prova conclusiva de que esse metano chegue hoje à atmosfera.

Um hidrato é um cristal em que uma molécula "hóspede" (aqui, o metano) ocupa gaiolas feitas de moléculas de água. Parece gelo, mas não é gelo de água pura: sem o gás dentro, a estrutura não se sustenta. O metano vem sobretudo de micróbios que decompõem matéria orgânica nos sedimentos das margens continentais; ali, com a pressão da coluna de água e o frio do fundo, ele se combina com a água dos poros e cristaliza. Por isso o hidrato é estável só numa faixa de temperatura e pressão. Se o sedimento esquenta ou a pressão cai, o cristal se desfaz em água e gás. A ligação com o clima vem daí, mas o tamanho do risco depende de quanto desse metano escapa do sedimento, atravessa a água e chega à atmosfera.

Um gelo que sustenta chama

Cristais de hidrato de metano feitos em laboratório sustentam uma chama enquanto o gás é liberado. Trazido ao nível do mar, o hidrato libera até 160 vezes o próprio volume em metano, segundo o USGS.

Por que só no fundo do mar (e no permafrost)

O hidrato precisa de pressão alta e temperatura moderada ao mesmo tempo. No fundo do oceano a pressão da coluna de água e o frio de poucos graus mantêm o cristal estável; por isso a ficha do USGS o localiza em geral a 500 m ou mais de profundidade e em áreas de permafrost. A zona de estabilidade afina nas encostas rasas e engrossa nas fundas, chegando a centenas de metros de espessura. É nas bordas dessa zona, rasas e mais quentes, que o hidrato fica mais perto de se desfazer. A pressão da água é o tema do post sobre pressão no fundo do mar.

Quanto existe: um intervalo, não um número

A estimativa citada pelo USGS vai de 1.800 a 12.400 gigatoneladas de carbono, uma faixa em que o valor alto é quase sete vezes o baixo (cálculo nosso). A largura vem de que muitos depósitos nunca foram explorados e de que o hidrato aparece em poucas porcentagens do sedimento. E estimativa de recurso não é reserva: em 2017 não havia reservas de metano em hidrato, porque a viabilidade comercial não estava provada.

Como sabemos onde ele está

O hidrato não se vê do navio. Na prática, pesquisadores mapeiam por sísmica um refletor que marca a base da zona de estabilidade; onde ele aparece, em geral há hidrato acima, mas há hidrato também onde o refletor falta. Levantamentos eletromagnéticos ajudam porque o hidrato, como o gelo, resiste à passagem de corrente. Poços perfurados no fundo do mar ou no permafrost dão acesso direto ao sedimento. Cada método cobre uma escala e nenhum dá o total sozinho, o que explica parte da incerteza do estoque.

A "bomba de clatrato": o que está em debate

Revisões do USGS e de Archer tratam a liberação em massa com cautela: o hidrato costuma estar fundo demais, o metano que sobe é em boa parte oxidado nos sedimentos e na água, e as bolhas raramente chegam ao ar. Ainda assim, o hidrato raso provavelmente já se desfaz em partes das encostas e do Ártico, e não há prova conclusiva do que chega à atmosfera. O que escapa para a água vira CO2 e acidifica o mar. Quem consome esse metano nos sedimentos são as arqueias ANME, tema de outro post.

Como sabemos

Mecanismo, distribuição e estimativas vêm de fichas do USGS lidas na íntegra; a parte climática repousa em dois resumos de revisões (2007 e 2017) e é tratada como incerta.

Em debate:

Fontes

  1. U.S. Geological Survey — Gas Hydrate in Nature
    Ruppel, C. · 2018 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3133/fs20173080
  2. U.S. Geological Survey — Thermal Properties of Methane Gas Hydrates
    Waite, W. F. et al. · 2007 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Reviews of Geophysics (registro do USGS Publications Warehouse) — The interaction of climate change and methane hydrates
    Ruppel, C. D.; Kessler, J. D. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1002/2016RG000534
  4. Biogeosciences (European Geosciences Union) — Methane hydrate stability and anthropogenic climate change
    Archer, D. · 2007 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.5194/bg-4-521-2007
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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