História da África
O genocídio dos Herero e Nama pela Alemanha, que só o reconheceu oficialmente em 2021, e com ressalvas
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Em 2 de outubro de 1904, o general Lothar von Trotha mandou fuzilar todo herero encontrado dentro das fronteiras alemãs, "com ou sem fuzil, com ou sem gado". Os sobreviventes da batalha de Waterberg foram empurrados para o deserto do Omaheke, onde as tropas vigiaram os poços por meses. Em abril de 1905 veio a ordem contra os Nama. Até 1908, segundo os relatores da ONU, cerca de 80% dos Herero e 50% dos Nama tinham morrido.
Os Ovaherero eram criadores de gado no centro do atual território da Namíbia; os Nama, povos do sul. Desde 1884 sob domínio alemão, viram suas terras passarem a colonos e foram expulsos delas. Em janeiro de 1904 os Herero se levantaram; no fim daquele ano, os Nama. A resposta alemã foi o extermínio declarado. Quando Berlim revogou a ordem de Von Trotha, no fim de 1904, os presos foram levados a campos de concentração em Windhoek, Swakopmund e na Ilha dos Tubarões, em Lüderitz, onde trabalhavam à força em portos e ferrovias. Os campos só fecharam em 28 de maio de 1908, data que a Namíbia escolheu para lembrar o genocídio. Terra e gado dos sobreviventes foram confiscados por decreto em 1905 e 1906, e em 1907 eles foram proibidos de possuí-los.
Cabeças em latas soldadas
No hospital do campo da Ilha dos Tubarões, médicos militares cortavam a cabeça de presos mortos, conservavam-na em formol e a mandavam ao Instituto de Anatomia de Berlim em latas soldadas. Lá, estudantes as usaram em teses de "antropologia racial". Muitos desses crânios, devolvidos à Namíbia em 2011, mostram sinais de escorbuto.
Extermínio por escrito
Os Ovaherero se levantaram em janeiro de 1904 contra a perda de terras e de gado para colonos alemães. Em agosto, em Waterberg, as tropas de Lothar von Trotha tentaram cercá-los; os sobreviventes fugiram para o Omaheke, deserto quase sem água. O general bloqueou a região e vigiou os poços. Em 2 de outubro, ordenou que todo herero dentro das fronteiras alemãs fosse fuzilado, e mulheres e crianças, expulsas ou alvejadas. Os Nama se levantaram no fim de 1904 e, em abril de 1905, receberam ordem semelhante.
Os campos
Berlim revogou a ordem no fim de 1904 e criou campos de concentração para os sobreviventes. Na prática, a morte continuou. Homens, mulheres e crianças dormiam em tendas, com comida escassa, e trabalhavam à força em ferrovias e portos. Na Ilha dos Tubarões, em Lüderitz, morreram cerca de 4.000 pessoas, entre 70% e 90% dos presos, conforme a estimativa. Os registros alemães contam 7.682 mortos em todos os campos. Os Herero só foram soltos em 28 de maio de 1908; alguns Nama, só em 1914.
Crânios para a ciência racial
O anatomista Wilhelm Waldeyer, em Berlim, tinha ex-alunos como médicos da tropa e dos campos, e eles lhe mandavam 'material'. Cabeças de presos mortos na Ilha dos Tubarões chegavam em formol, em latas soldadas, e viravam teses que pretendiam provar a inferioridade dos africanos. Em 2008 a embaixada da Namíbia perguntou à Charité o que havia nas coleções. Em 2011 voltaram os restos de 20 Nama e Herero mortos na ilha; seguiram-se devoluções em 2014 e 2018. Parte das coleções se perdeu, como 53 laringes de presos da ilha.
Um reconhecimento com ressalvas
Em 2004 o Parlamento alemão falou só em 'repressão dos levantes'. Em 2021, depois de seis anos de negociação entre governos, a Alemanha aceitou a palavra genocídio 'na perspectiva de hoje', pediu perdão e ofereceu 1,1 bilhão de euros em 30 anos, como ajuda ao desenvolvimento, não como reparação. As autoridades tradicionais Ovaherero e Nama, fora da mesa, rejeitaram o acordo e foram à Justiça. Em 2023, relatores da ONU lhes deram razão sobre a participação. Em 2025, a presidente da Namíbia disse que o valor ainda está em disputa.
Como sabemos
Ordens de extermínio, campos, devolução de crânios e os termos da declaração de 2021 estão em documento da ONU, em órgãos do governo alemão, em periódico acadêmico e em declaração da presidência namibiana; números de mortos marcados como estimativa.
Em debate: Número de mortos: sem censo anterior a 1904, as cifras são estimativas. Os relatores da ONU usam mais de 65.000 Herero e 10.000 Nama (80% e 50%); a bpb fala em até 100.000 mortos no total; o governo da Namíbia, em mais de 100.000. A violência e a intenção de extermínio, expressas por escrito nas ordens de 1904 e 1905, não estão em debate.
Em debate: Natureza do reconhecimento: a Alemanha chama os fatos de genocídio 'na perspectiva de hoje' e nega obrigação jurídica de reparar, com base no princípio de que o direito não retroage; Herero, Nama e os relatores da ONU defendem reconhecimento sem ressalva e reparação, não ajuda ao desenvolvimento.
Em debate: Mortalidade na Ilha dos Tubarões: 70% dos internados (Stoecker e Winkelmann) ou cerca de 90% dos 3.500 presos (relatores da ONU).
- Fato estabelecido: Em 2 de outubro de 1904, o general Lothar von Trotha ordenou que todo herero encontrado dentro das fronteiras alemãs fosse fuzilado, com ou sem fuzil, com ou sem gado. [1] [2]
- Consenso científico: Depois da batalha de Waterberg, em agosto de 1904, os Herero sobreviventes fugiram para o deserto do Omaheke, que as tropas alemãs bloquearam por meses, vigiando os poucos poços; dezenas de milhares morreram de sede. [2] [1]
A bpb data a batalha em 11 e 12 de agosto de 1904. - Fato estabelecido: Uma ordem de extermínio semelhante contra os Nama foi emitida em abril de 1905. [1] [2]
Os relatores da ONU dão 25 de abril de 1905; a bpb, 22 de abril. O texto diz só 'abril de 1905'. - Estimativa: Entre 1904 e 1908 morreram cerca de 80% dos Herero e 50% dos Nama; os relatores da ONU falam em mais de 65.000 Herero e 10.000 Nama mortos. [1] [2]
Não há censo anterior à guerra. A bpb fala em até 100.000 mortos no total, com 60.000 a 80.000 Herero; a presidente da Namíbia, em 2025, em mais de 100.000 Ovaherero e Nama. - Consenso científico: A colonização alemã começou em 1884, e o levante Herero, em janeiro de 1904, teve entre as causas a perda de terras para colonos e a expulsão dos moradores; os Nama se levantaram no fim de 1904. [2]
- Fato estabelecido: Quando a ordem de Von Trotha foi revogada, no fim de 1904, o governo imperial mandou criar campos de concentração para os Herero restantes; houve campos em Windhoek, Swakopmund e na Ilha dos Tubarões, em Lüderitz. [4] [1]
- Fato estabelecido: Os presos dos campos faziam trabalho forçado na construção de portos e ferrovias. [1] [4]
- Estimativa: Na Ilha dos Tubarões morreram cerca de 4.000 pessoas, entre 70% e 90% dos presos, conforme a fonte. [4] [1]
Stoecker e Winkelmann: pouco menos de 4.000 mortes, 70% dos internados entre 1905 e 1908. Relatores da ONU: cerca de 90% dos 3.500 presos do campo de Lüderitz. Registros oficiais alemães somam 7.682 mortos em todos os campos. - Fato estabelecido: Os campos dos Herero só foram fechados em 28 de maio de 1908, data escolhida pela Namíbia para o Dia da Memória do Genocídio, celebrado pela primeira vez em 2025. [1] [5]
- Fato estabelecido: Terra, gado e outros bens dos Herero e Nama foram expropriados sem indenização por regulamentos de 1905 e 1906, e a posse de terra e gado lhes foi proibida em 1907. [1]
- Evidência forte: No hospital do campo da Ilha dos Tubarões, cabeças de várias dezenas de presos mortos foram retiradas, conservadas em formol e enviadas em latas soldadas ao Instituto de Anatomia de Berlim, onde estudantes as usaram em teses de 'antropologia racial'. [4]
'Várias dezenas' é estimativa dos autores. - Fato estabelecido: O diretor do Instituto de Anatomia, Wilhelm Waldeyer, recebia esse material de ex-alunos que trabalhavam como médicos na tropa colonial e nos campos; em 2008 a embaixada da Namíbia perguntou oficialmente à Charité se havia restos namibianos em suas coleções. [4]
- Fato estabelecido: Publicações da época registram um conjunto de 53 laringes de presos Nama e Herero da Ilha dos Tubarões nas coleções de Berlim, hoje perdido. [4]
- Fato estabelecido: Os campos registraram 7.682 mortos segundo contas oficiais alemãs, e alguns Nama só foram libertados no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. [1]
- Fato estabelecido: A Declaração Conjunta saiu depois de seis anos de negociação bilateral entre os governos, iniciada em 2015. [1] [2]
- Fato estabelecido: Os restos de 20 Nama e Herero mortos na Ilha dos Tubarões foram devolvidos pela Charité à Namíbia em 2011; outras devoluções ocorreram em 2014 e 2018, e muitos desses crânios mostram sinais de escorbuto. [4]
- Fato estabelecido: Em 2004, no centenário da guerra, o Parlamento alemão falou em 'repressão dos levantes' e em 'profundo pesar', sem usar a palavra genocídio; em 2015 o Ministério das Relações Exteriores passou a usá-la, com a ressalva de que seria um termo histórico-político, não jurídico. [1] [2]
- Fato estabelecido: Em 28 de maio de 2021, o ministro Heiko Maas anunciou que a Alemanha passaria a chamar os fatos de genocídio 'na perspectiva de hoje', pediria perdão e ofereceria 1,1 bilhão de euros para reconstrução e desenvolvimento, sem que daí decorra direito legal a indenização. [3] [2]
- Fato estabelecido: A Declaração Conjunta prevê o valor ao longo de 30 anos em sete regiões da Namíbia e evita a palavra reparação; a Autoridade Tradicional Ovaherero e a Associação de Líderes Tradicionais Nama não participaram da negociação e a rejeitam. [1] [2]
- Fato estabelecido: Em fevereiro de 2023, sete relatores especiais da ONU manifestaram 'grave preocupação' com a falta de participação efetiva dos Herero e Nama e com a ausência de reparação; a declaração não havia sido assinada nem votada pelo Parlamento namibiano, e em janeiro de 2023 autoridades tradicionais pediram sua revisão na Justiça da Namíbia. [1]
- Fato estabelecido: Em 28 de maio de 2025, a presidente Netumbo Nandi-Ndaitwah disse que a Alemanha aceitou reconhecer o genocídio e pedir desculpas, mas que não há acordo sobre o valor final. [5]
Fontes
- ONU, Escritório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos (sete relatores especiais) — Comunicação AL DEU 1/2023 ao governo da Alemanha sobre a Declaração Conjunta e os povos Ovaherero e Nama (23 de fevereiro de 2023)
consultada em 05/10/2026 - Bundeszentrale für politische Bildung (bpb), Alemanha — Völkermord an Herero und Nama: Abkommen zwischen Deutschland und Namibia
consultada em 05/10/2026 - Auswärtiges Amt (Ministério das Relações Exteriores da Alemanha) — Außenminister Maas zum Abschluss der Verhandlungen mit Namibia (28 de maio de 2021)
consultada em 05/10/2026 - Human Remains and Violence 4/2 (2018), Manchester University Press — Skulls and skeletons from Namibia in Berlin: results of the Charité Human Remains Project
consultada em 05/10/2026 - Presidência da República da Namíbia (texto reproduzido pela plataforma Dialogue on Namibia's Past) — Statement by President Netumbo Nandi-Ndaitwah on Genocide Remembrance Day (28 de maio de 2025)
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 4 imagem(ns) real(is) do Commons
- Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão