Genética

Herdabilidade de 80%: o que o número mede num grupo e por que não vale como fatia de uma pessoa

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Genética

Herdabilidade de 80% quer dizer que, numa população e num ambiente específicos, cerca de 80% da variância (a dispersão entre indivíduos) de uma característica se associa a diferenças genéticas entre eles. Não quer dizer que 80% de uma pessoa venha dos genes, nem serve de probabilidade individual: é um número sobre diferenças dentro de um grupo, e muda quando os genes ou o ambiente do grupo mudam.

Duas pessoas diferem na altura por causa de genes, de ambiente e da interação entre eles. Em estatística, essa diferença entre indivíduos se mede pela variância: quanto os valores de um grupo se espalham em torno da média. A herdabilidade pergunta qual fração dessa variância fenotípica (a variância da característica observada) corresponde à variância genética. É uma razão entre dois espalhamentos, sem unidade, que fica entre 0 e 1. Ela não diz quanto de um indivíduo é "herdado", nem quanto uma característica pode ser modificada: diz o quanto a variação que existe hoje, naquele grupo, acompanha a variação nos genes.

Alta herdabilidade, 20 cm a mais

A altura tem herdabilidade em torno de 0,8 dentro das populações estudadas. Mesmo assim, as mulheres sul-coreanas nascidas em 1996 são, em média, 20,2 cm mais altas que as nascidas em 1896: herdabilidade alta e grande efeito do ambiente convivem.

A conta: variância genética sobre variância total

Wray e Visscher definem a herdabilidade como a proporção da variação fenotípica (VP) devida à variação nos valores genéticos (VG). No sentido amplo (H² = VG/VP), a parte genética inclui dominância e epistasia, isto é, interações entre versões do mesmo gene e entre genes diferentes. No sentido estrito (h² = VA/VP), conta só a parte aditiva (VA), a que passa de pais a filhos e responde à seleção. Como é uma razão de variâncias, nunca sai do intervalo de 0 a 1.

Como sabemos: parentes, gêmeos e marcadores

Ninguém mede genes e ambiente diretamente; compara-se a semelhança entre parentes. Uma forma é a regressão da altura dos filhos sobre a média dos pais: a inclinação estima h². Outra compara gêmeos idênticos e não idênticos, supondo que o ambiente compartilhado seja igualmente semelhante nos dois pares, suposição que pode falhar. Uma terceira usa marcadores: irmãos compartilham em média 50% do genoma, com desvio-padrão de cerca de 4%, e essa variação permite estimar h² sem supor ambientes iguais. Todas dependem de um modelo.

O caso da altura: 0,8 e 20 centímetros

A altura tem herdabilidade em torno de 0,8 e, ainda assim, irmãos diferem, porque os alelos se segregam ao acaso. Ao mesmo tempo, a altura média mudou muito no mundo: mulheres sul-coreanas nascidas em 1996 são 20,2 cm mais altas que as de 1896, e os autores atribuem diferenças entre países a fatores ambientais. Os dois fatos são compatíveis, porque a herdabilidade trata de diferenças dentro de um grupo e num momento, e não da causa de uma média ou de uma mudança entre gerações.

Por que não vale para uma pessoa nem para outra população

A variância só existe num conjunto de indivíduos; para uma pessoa só, a razão não está definida, e a fonte diz que herdabilidade não é a fração genética do fenótipo. Esta passagem é inferência nossa. Além disso, ela é um parâmetro da população: depende das frequências de alelos e da variação ambiental, e mudou, por exemplo, nas vacas leiteiras, de cerca de 25% para cerca de 40%. Uma herdabilidade medida num grupo não se transfere automaticamente a outro. A média de 49% da metanálise de gêmeos mistura traços muito diferentes.

Como sabemos

Os conceitos vêm de uma página de Wray e Visscher lida por inteiro; a revisão de 2008, a metanálise de 2015 e os dois artigos sobre altura foram conferidos pelos trechos de resumo e introdução.

Fontes

  1. Nature Education (Scitable) — Estimating Trait Heritability
    Wray, N. R.; Visscher, P. M. · 2008 · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Nature Reviews Genetics — Heritability in the genomics era — concepts and misconceptions
    Visscher, P. M.; Hill, W. G.; Wray, N. R. · 2008 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nrg2322
  3. Nature Genetics — Meta-analysis of the heritability of human traits based on fifty years of twin studies
    Polderman, T. J. C.; Benyamin, B.; de Leeuw, C. A.; et al. · 2015 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/ng.3285
  4. Nature Genetics — Common SNPs explain a large proportion of the heritability for human height
    Yang, J.; Benyamin, B.; McEvoy, B. P.; et al. · 2010 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/ng.608
  5. eLife — A century of trends in adult human height
    NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC) · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.7554/eLife.13410
  6. Current Genomics — Assessing the Heritability of Complex Traits in Humans: Methodological Challenges and Opportunities
    Mayhew, A. J.; Meyre, D. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.2174/1389202918666170307161450
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

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