Física

GW150914: o LIGO capta a fusão de dois buracos negros de cerca de 36 e 29 massas solares

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Estrelas

Em 14 de setembro de 2015, os dois detectores do LIGO, nos EUA, registraram um sinal que sobe de 35 a 250 Hz e casa com a previsão da relatividade geral para a fusão de dois buracos negros, de cerca de 36 e 29 massas solares, num buraco negro de cerca de 62. A fonte está a cerca de 410 megaparsecs, uns 1,3 bilhão de anos-luz. Foi a primeira detecção direta de ondas gravitacionais.

Uma onda gravitacional é uma deformação do espaço-tempo que se propaga à velocidade da luz e surge quando massas aceleram; a relatividade geral a previu em 1916. Dois buracos negros em órbita perdem energia nessas ondas, aproximam-se e giram mais depressa, até se fundirem num só, que vibra e se acalma (fase chamada ringdown). O LIGO é um par de interferômetros a laser, em Hanford (Washington) e Livingston (Louisiana), que compara o comprimento de dois braços perpendiculares de 4 km. A grandeza medida é a deformação (strain), a variação relativa de comprimento. A prova indireta anterior, do pulsar de Hulse e Taylor, tem post próprio; aqui o foco é o que o primeiro sinal direto mostrou.

Visto antes do início oficial

O sinal chegou dias antes de a primeira campanha de observação começar oficialmente, logo depois de uma atualização dos detectores. O anúncio público só veio em 11 de fevereiro de 2016.

O que o formato do sinal revela

O sinal dura cerca de 0,2 s na faixa em que o detector é mais sensível: em cerca de 8 ciclos, frequência e amplitude crescem de 35 a 150 Hz, onde a amplitude é máxima. É o chirp (gorjeio) típico de dois corpos que se aproximam. A taxa de subida da frequência dá a massa de chirp, uma combinação das duas massas, de cerca de 30 massas solares, o que implica massa total de pelo menos cerca de 70 no referencial do detector. A 75 Hz de frequência orbital, dois corpos assim estariam a apenas 350 km: só buracos negros são compactos o bastante.

Como um laser mede 4 × 10⁻¹⁸ m

Cada detector tem dois braços perpendiculares de 4 km. Uma onda gravitacional estica um braço e encolhe o outro, e a diferença altera a luz do laser que volta ao ponto de encontro. No pico do GW150914, a deformação foi de cerca de 10⁻²¹, o que, vezes 4 km, dá uma variação de cerca de 4 × 10⁻¹⁸ m, aproximadamente 1/200 do raio de um próton. Cavidades ópticas nos braços multiplicam por 300 o efeito sobre a fase da luz.

Como sabemos que não foi ruído nem erro

Ruído pode imitar um sinal, então o artigo mede a chance disso. Os dados de um detector são deslocados no tempo, por intervalos bem maiores que o tempo de viagem da onda entre os sítios, e a busca é refeita para contar quantas coincidências o ruído gera sozinho. Em cerca de 608 mil anos equivalentes de dados, nenhum evento de fundo igualou o sinal; daí o falso alarme de menos de 1 em 203 mil anos. Sensores ambientais nada registraram de parecido, e duas buscas independentes o encontraram.

Números revistos, localização e o que o sinal não diz

Em junho de 2016, a análise foi repetida depois de corrigir erros pequenos numa transformação de coordenadas, e só a energia total irradiada mudou em relação ao artigo de fevereiro; continua em torno de 3 massas solares. Com só dois detectores, a fonte ficou num anel de cerca de 610 graus quadrados do céu. O artigo apenas lista duas rotas previstas para formar tais pares (binárias isoladas ou encontros em ambientes densos). Qual delas atuou neste caso, o sinal sozinho não responde.

Como sabemos

Os números centrais vêm do artigo da detecção lido por inteiro e do comunicado do Nobel, e os artigos de apoio concordam; a distância e a comparação com a vida na Terra são estimativas atribuídas à fonte.

Fontes

  1. Physical Review Letters 116, 061102 — Observation of Gravitational Waves from a Binary Black Hole Merger
    Abbott, B. P. et al. (LIGO Scientific Collaboration e Virgo Collaboration) · 2016-02-11 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1103/PhysRevLett.116.061102
  2. Royal Swedish Academy of Sciences / NobelPrize.org — The Nobel Prize in Physics 2017. Popular science background: Cosmic chirps
    Royal Swedish Academy of Sciences (Nobel Committee for Physics) · 2017-10-03 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Physical Review Letters 116, 241102 — Properties of the Binary Black Hole Merger GW150914
    Abbott, B. P. et al. (LIGO Scientific Collaboration e Virgo Collaboration) · 2016-06-14 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1103/PhysRevLett.116.241102
  4. Physical Review Letters 116, 131103 — GW150914: The Advanced LIGO Detectors in the Era of First Discoveries
    Abbott, B. P. et al. (LIGO Scientific Collaboration e Virgo Collaboration) · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1103/PhysRevLett.116.131103
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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