Evolução

GULO, o gene da vitamina C quebrado: mutações compartilhadas entre primatas apontam uma perda herdada

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

O gene GULO codifica a última enzima da síntese de vitamina C. Em humanos e outros primatas haplorrinos ele é um pseudogene, uma cópia danificada que não produz a enzima, e carrega mutações compartilhadas por todo o grupo; os estrepsirrinos mantêm o gene funcional. A leitura mais simples é uma única inativação em um ancestral comum, estimada em cerca de 61 milhões de anos atrás.

Quase todos os vertebrados fazem a própria vitamina C (ácido ascórbico) por uma sequência de enzimas; a última é a L-gulonolactona oxidase, codificada pelo GULO. Humanos não a produzem e dependem da dieta: sem a vitamina, surge o escorbuto. Um pseudogene é uma cópia de gene que acumulou mutações e não gera proteína funcional. O do GULO funciona como registro histórico: mutações idênticas em espécies diferentes são mais simples de explicar por herança de um ancestral que já as tinha. O texto mostra como isso foi medido, onde o padrão falha e o que ainda é hipótese.

Outro gene perdido: o do sabor doce nos gatos

Não só a vitamina C: gatos domésticos têm um pseudogene no lugar de um dos dois genes do receptor de doce (Tas1r2), sem expressão detectável. É outra perda de gene, tratada em outro artigo do WikiMundi.

O que se mediu primeiro: a enzima

Antes de sequenciar DNA, a evidência era bioquímica: em 1957, Grollman e Lehninger acharam a atividade da enzima em fígados de rato, coelho, cachorro e gato, mas não em porquinho-da-índia, em dois macacos e em cinco humanos, segundo a descrição de Mansueto e Good. O DNA veio depois: em 1994, o segmento do gene humano foi isolado e mostrou éxons faltando, mutações e dois códons de parada.

Mutações compartilhadas como marca de ancestralidade

Quando duas espécies têm o mesmo defeito no mesmo ponto do mesmo gene, a explicação mais simples é que ele já existia no ancestral delas. No GULOP, 59 substituições conservadas aparecem no ramo que reúne os haplorrinos, e indels também são compartilhados. Esse raciocínio é o padrão da filogenética, e o estudo de 2024 o aplica ao GULOP.

Datas e limites

A estimativa de 61 milhões de anos vem da comparação de linhagens com e sem gene funcional e combina com a distribuição filogenética do gene. O estudo de 2024 situa a separação entre haplorrinos e estrepsirrinos em cerca de 70 milhões de anos. As fontes não usam o mesmo grupo (antropoides ou haplorrinos) e as datas têm incerteza. Entre humanos e Neandertal há quatro diferenças no GULOP, mas a amostra de Neandertal é pequena, como os próprios autores avisam.

Onde o padrão não vale: perdas independentes e reativações

A marca compartilhada vale para o grupo, não para a vitamina C em geral: os peixes teleósteos, o porquinho-da-índia e alguns morcegos e aves perderam o gene por conta própria. Em dois morcegos e em aves, o gene voltou a funcionar, o que mostra que perder não é sempre definitivo; nos primatas antropoides, a revisão considera a perda irreversível.

Por que a perda se manteve: uma hipótese

A hipótese mais citada é que, com dieta rica em vitamina C, ter ou não o gene não alterava a sobrevivência, e por isso as mutações se acumularam. O apoio é indireto: dietas variadas entre as espécies sem o gene e reativações em espécies que já tinham a vitamina de sobra. Não é prova. A revisão ressalta que a perda só é neutra se a dieta fornecer a vitamina.

Como sabemos

Os fatos centrais vêm de um artigo de 1994, uma revisão de 2011 e um estudo de 2024; as datas e o porquê da persistência são estimativa e hipótese.

Fontes

  1. The Journal of Biological Chemistry (Institute of Applied Biochemistry, Gifu, Japão) — Cloning and chromosomal mapping of the human nonfunctional gene for L-gulono-gamma-lactone oxidase, the enzyme for L-ascorbic acid biosynthesis missing in man
    Nishikimi, M.; Fukuyama, R.; Minoshima, S.; Shimizu, N.; Yagi, K. · 1994 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1016/s0021-9258(17)36884-9
  2. Current Genomics (Université d'Ottawa) — The genetics of vitamin C loss in vertebrates
    Drouin, G.; Godin, J.-R.; Pagé, B. · 2011 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.2174/138920211796429736
  3. Genetica (Université d'Ottawa) — Inactivation dates of the human and guinea pig vitamin C genes
    Lachapelle, M. Y.; Drouin, G. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s10709-010-9537-x
  4. Journal of Molecular Evolution (Virginia Tech) — Conservation of a chromosome 8 inversion and exon mutations confirm common gulonolactone oxidase gene evolution among primates, including H. neanderthalensis
    Mansueto, A.; Good, D. J. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s00239-024-10165-0
  5. PLoS Genetics — Pseudogenization of a sweet-receptor gene accounts for cats' indifference toward sugar
    Li, X. et al. · 2005 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pgen.0010003
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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