História da Ásia
As Guerras do Ópio: o Reino Unido fez guerra à China para continuar vendendo ópio
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Em junho de 1839, em Humen, o comissário imperial Lin Zexu mandou destruir mais de mil toneladas de ópio apreendido de mercadores estrangeiros, quase todo trazido da Índia britânica. O Reino Unido respondeu com navios de guerra. Três anos depois, a China assinou em Nanquim um tratado que pagava o ópio destruído, abria cinco portos e entregava Hong Kong. Na China, esse é o começo do "século de humilhação".
O ópio era a mercadoria que equilibrava as contas britânicas. A Companhia das Índias Orientais comprava chá chinês em grande quantidade e pagava em prata; depois de tomar Bengala, em 1757, passou a cultivar papoula na Índia, e o ópio entrava na China por contrabando, contra os éditos imperiais. As importações saltaram de cerca de mil caixas em 1773 para cerca de 40 mil por ano em 1839. A prata passou a sair da China, desestabilizando a moeda, e o vício alcançava funcionários de todos os níveis do governo Qing. Lin Zexu, um funcionário conhecido pela retidão, chegou a Cantão em março de 1839 com plenos poderes para acabar com o comércio. A guerra que se seguiu foi desigual: um relatório do governo britânico contou 69 mortos e 451 feridos do seu lado, contra 18 mil a 20 mil baixas chinesas.
Um álbum imperial continua em Paris
Em 1744, o imperador Qianlong encomendou um álbum de 40 pinturas do Yuanmingyuan, o Jardim da Perfeita Claridade, feito pelos pintores da corte Shen Yuan e Tangdai e pelo calígrafo Wang Youdun. Em 1860, tropas francesas o levaram no saque do palácio. Ele está até hoje na Biblioteca Nacional da França.
Chá, prata e ópio
Por volta de 1800, a Companhia das Índias Orientais comprava cerca de 23 milhões de libras de chá chinês por ano e pagava em prata, cerca de 3,6 milhões de libras esterlinas. O ópio cultivado na Índia, depois que os britânicos tomaram Bengala em 1757, inverteu esse fluxo. A droga era proibida por éditos imperiais, mas entrava por contrabando, com funcionários locais subornados. De cerca de mil caixas em 1773, as importações chegaram a 18 mil em 1828 e a cerca de 40 mil por ano em 1839.
Lin Zexu em Humen
Lin Zexu, funcionário conhecido pela retidão, chegou a Cantão em março de 1839. Cercou os mercadores estrangeiros e obteve do superintendente britânico Charles Elliot a entrega de 21.306 caixas. Entre 3 e 25 de junho, com o vice-rei Deng Tingzhen, mandou destruir o ópio em público em Humen, em tanques cavados na praia: mais de 1,15 milhão de quilos, segundo o museu que hoje existe no local. Antes da guerra, Lin escreveu uma carta à rainha Vitória, que chegou a Londres em janeiro de 1840 e nunca foi recebida por ela.
A guerra e o Tratado de Nanquim
A expedição britânica de 1840 tinha 16 navios de guerra com 540 canhões e chegou a cerca de 12 mil homens. Um relatório do governo britânico contou 69 mortos e 451 feridos do seu lado, contra 18 mil a 20 mil baixas chinesas. O tratado assinado em 29 de agosto de 1842 a bordo do navio Cornwallis abriu Cantão, Amoy, Fuzhou, Ningbo e Xangai, cedeu Hong Kong 'em perpetuidade' e impôs 21 milhões de dólares: 6 milhões pelo ópio, 3 milhões por dívidas de mercadores e 12 milhões pelos gastos da expedição.
A segunda guerra e o saque do Yuanmingyuan
Em 1856, a prisão da tripulação do Arrow serviu de pretexto para bombardear Cantão; a França entrou na guerra. O Tratado de Tianjin, de 1858, abriu onze portos e, com os acordos de 1860, legalizou o ópio. Em outubro de 1860, tropas britânicas e francesas saquearam o Yuanmingyuan, e Lorde Elgin mandou queimá-lo como 'retribuição' pela morte de prisioneiros. O escritor Victor Hugo condenou o ato. Na China, essas guerras abrem o 'século de humilhação', que só termina em 1949.
Como sabemos
Datas, cláusulas e números vêm do texto do Tratado de Nanquim, dos ensaios do MIT (Peter C. Perdue) e do Museu da Guerra do Ópio de Humen; estimativas estão marcadas.
Em debate: A causa da guerra: na época, o governo britânico a justificou como defesa do livre comércio, da igualdade diplomática e dos súditos britânicos ameaçados por Lin Zexu; já no século XIX críticos como Richard Cobden e Karl Marx a denunciaram como guerra pelo ópio. A historiografia reconhece que o ópio estava no centro do conflito, e o Tratado de Nanquim indenizou o ópio destruído; o peso relativo do ópio e da abertura comercial em geral ainda é discutido.
Em debate: Os números de baixas chinesas (18 mil a 20 mil) vêm de estimativa britânica e não distinguem mortos de feridos.
Em debate: O uso político do 'século de humilhação' é tema de debate: autores como Zheng Wang mostram como o Partido Comunista o pôs no centro da educação patriótica a partir de 1991, o que não altera os fatos das guerras.
- Interpretação: O Reino Unido fez a guerra para manter aberto o comércio de ópio com a China. [3] [4] [6]
Leitura sustentada pelas exigências britânicas (indenização pelo ópio apreendido, fim do sistema de Cantão, ilhas na costa) e pelo próprio Tratado de Nanquim, que pagou 6 milhões de dólares pelo ópio entregue em 1839. O governo britânico da época apresentou a guerra como defesa do livre comércio e da igualdade diplomática. - Fato estabelecido: Entre 3 e 25 de junho de 1839, em Humen, Lin Zexu e o vice-rei Deng Tingzhen destruíram publicamente cerca de 1,15 milhão de quilos de ópio. [5] [2]
O Museu da Guerra do Ópio (Humen) dá 2.376.254 jin, mais de 1,15 milhão de kg; o ensaio do MIT fala em cerca de 3 milhões de libras (21.306 caixas de cerca de 140 libras), destruídas em 23 dias em Chuanbi, junto a Humen. O texto usa 'mais de mil toneladas'. - Fato estabelecido: Em maio de 1839, o superintendente britânico Charles Elliot entregou 21.306 caixas de ópio a Lin Zexu. [2]
- Consenso científico: O ópio entrava na China vindo da Índia, onde os britânicos passaram a plantá-lo em grande quantidade depois de tomar Bengala, em 1757. [1]
- Estimativa: A Companhia das Índias Orientais comprava grandes quantidades de chá chinês pagando em prata: em 1800, 23 milhões de libras de chá por 3,6 milhões de libras de prata por ano. [1]
- Estimativa: As importações de ópio passaram de cerca de 1.000 caixas em 1773 para 4.000 em 1790, 10.000 no início da década de 1820, 18.000 em 1828 e cerca de 40.000 por ano em 1839. [1]
- Consenso científico: O ópio era proibido por éditos imperiais e entrava por contrabando, com suborno de funcionários locais; as importações provocaram fuga de prata que desestabilizou a moeda. [1]
- Estimativa: Na década de 1830, até 20% dos funcionários do governo central e 30% dos funcionários locais consumiam ópio regularmente. [1]
- Fato estabelecido: Lin Zexu chegou a Cantão em março de 1839 como comissário imperial com plenos poderes para acabar com o comércio de ópio. [1]
- Fato estabelecido: A expedição britânica de junho de 1840 reuniu 48 navios, 16 deles de guerra com 540 canhões, e cerca de 4 mil combatentes, depois reforçados até cerca de 12 mil. [3]
- Estimativa: Um relatório do governo britânico contou 69 mortos e 451 feridos britânicos na Primeira Guerra do Ópio, contra 18 mil a 20 mil baixas chinesas. [3]
As baixas chinesas incluem mortos e feridos e são estimativa da fonte britânica citada pelo MIT. - Fato estabelecido: O Tratado de Nanquim, de 29 de agosto de 1842, abriu Cantão, Amoy (Xiamen), Fuzhou, Ningbo e Xangai, cedeu a ilha de Hong Kong ao Reino Unido 'em perpetuidade' e impôs 21 milhões de dólares de indenização, 6 milhões deles pelo ópio entregue em março de 1839. [4]
- Fato estabelecido: Em 8 de outubro de 1856, autoridades chinesas prenderam a tripulação do Arrow, barco que alegava registro britânico; o cônsul Harry Parkes e John Bowring usaram o caso para bombardear Cantão. A França entrou na guerra. [6]
- Fato estabelecido: O Tratado de Tianjin, de 1858, abriu onze novos portos, liberou a navegação estrangeira no Yangtzé, impôs a proteção de missionários e proibiu o uso do caractere yi ('bárbaro') para os britânicos; os tratados de 1858–1860 legalizaram o ópio. [6] [7]
- Fato estabelecido: Tropas britânicas e francesas saquearam o Yuanmingyuan entre 7 e 9 de outubro de 1860; Lorde Elgin mandou incendiá-lo como 'ato de retribuição' pela morte de prisioneiros europeus, e na noite de 19 de outubro o palácio tinha deixado de existir. [7]
- Fato estabelecido: Pela Convenção de Pequim, de 1860, o príncipe Gong aceitou o tratado, uma indenização ainda maior e a cessão da península de Kowloon a Hong Kong. [7]
- Fato estabelecido: Em 1744, o imperador Qianlong encomendou um álbum de 40 pinturas do Yuanmingyuan, levado por tropas francesas em 1860 e mantido até hoje na Biblioteca Nacional da França. [7]
- Fato estabelecido: O ópio de Humen foi destruído em tanques cavados no chão e cheios de água; Lin Zexu escreveu à rainha Vitória uma carta que chegou a Londres em janeiro de 1840 e nunca foi recebida por ela. [2] [5]
- Fato estabelecido: O Tratado de Nanquim foi assinado a bordo do navio britânico Cornwallis; os 21 milhões de dólares somavam 6 milhões pelo ópio, 3 milhões por dívidas de mercadores e 12 milhões pelos gastos da expedição. [4]
- Fato estabelecido: O escritor francês Victor Hugo condenou o saque e o incêndio do Yuanmingyuan. [7]
- Consenso científico: Na China, o período que vai da Primeira Guerra do Ópio à vitória comunista em 1949 é lembrado como o 'século de humilhação nacional', central na campanha de educação patriótica lançada em 1991. [8]
Fontes
- Massachusetts Institute of Technology (MIT Visualizing Cultures) — The First Opium War: The Anglo-Chinese War of 1839–1842 (Visualizing Cultures), ensaio 1
consultada em 05/10/2026 - Massachusetts Institute of Technology (MIT Visualizing Cultures) — The First Opium War (Visualizing Cultures), ensaio 2: Lin Zexu e a destruição do ópio
consultada em 05/10/2026 - Massachusetts Institute of Technology (MIT Visualizing Cultures) — The First Opium War (Visualizing Cultures), ensaio 3: a guerra
consultada em 05/10/2026 - Banco de dados "The World and Japan" (GRIPS e Instituto de Estudos Avançados sobre a Ásia, Universidade de Tóquio) — Treaty of Nanking (Nanjing), 29 de agosto de 1842 (texto integral)
consultada em 05/10/2026 - Museu da Guerra do Ópio (Humen, Guangdong), no Google Arts & Culture — The Burning of Opium at Humen
consultada em 05/10/2026 - Massachusetts Institute of Technology (MIT Visualizing Cultures) — The Second Opium War (Visualizing Cultures), ensaio 1
consultada em 05/10/2026 - Massachusetts Institute of Technology (MIT Visualizing Cultures) — The Summer Palace of the Qing Emperors & its Destruction (The Second Opium War)
consultada em 05/10/2026 - US-China Institute, University of Southern California — Resenha de Zheng Wang, Never Forget National Humiliation: Historical Memory in Chinese Politics and Foreign Relations (2012)
consultada em 05/10/2026
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